A carta divulgada por Carlos Bolsonaro nesta terça-feira (13), endereçada ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão e atualmente custodiado na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, vai muito além de um gesto filial. O texto revela uma operação simbólica cuidadosamente construída: deslocar o eixo do debate da esfera jurídica para o campo emocional, moral e psicológico, numa tentativa explícita de converter uma condenação judicial em narrativa de perseguição, sacrifício e redenção política.
Sob o ponto de vista psicológico, a carta expõe um mecanismo clássico de negação da realidade jurídica. Carlos não enfrenta o mérito da condenação, tampouco menciona crimes, as fartas provas ou decisões judiciais. Ao contrário, substitui fatos por sentimentos, transformando a prisão, resultado de um longo e idôneo processo legal ,em “tortura”, “imoralidade” e “perseguição”. Trata-se de uma estratégia de defesa psíquica: quando a realidade é insuportável, ela é reescrita como injustiça absoluta.
Esse movimento emocional, no entanto, não é apenas íntimo ou familiar. Há uma clara intencionalidade política no texto. A carta funciona como instrumento de mobilização das bases bolsonaristas, num momento em que setores da extrema direita tentam pressionar o Congresso pela anulação dos vetos do presidente Lula à chamada Lei da Dosimetria, especialmente no que se refere aos crimes cometidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Ao reforçar a ideia de perseguição e injustiça, Carlos busca criar um ambiente emocional favorável à revisão das penas e à reinterpretação dos atos antidemocráticos como excessos puníveis com menor rigor ou mesmo como manifestações políticas legítimas.
Nesse mesmo movimento, a carta também opera como uma tentativa indireta de constranger o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Alexandre de Moraes. Ao descrever o cárcere como um ambiente “frio, barulhento, molhado” e dominado por “decisões arbitrárias”, Carlos constrói um apelo público para uma improvável concessão de prisão domiciliar, não com base em critérios legais objetivos, mas na comoção emocional e na pressão popular. É uma estratégia conhecida: transformar o juiz em vilão e a decisão judicial em crueldade pessoal.
Do ponto de vista psicológico, o texto também revela um processo de idealização extrema da figura paterna. Jair Bolsonaro é apresentado não como um réu condenado, mas como um homem “íntegro”, silenciado por forças externas. Essa idealização protege emocionalmente o filho da frustração e da culpa, ao mesmo tempo em que tenta preservar, junto à militância, a imagem do pai como líder moral injustiçado. É a recusa em aceitar a falibilidade da figura de autoridade, traço comum em relações familiares marcadas por forte hierarquia simbólica e dependência identitária (autoritarismo).
Outro elemento central é a inversão de papéis. O condenado torna-se vítima; o sistema de Justiça, o agressor. O Estado de Direito é retratado como instrumento de opressão, enquanto a pena aplicada é tratada como violência ilegítima. Essa inversão não é retórica inocente: ela sustenta a narrativa de mártir político necessária para manter a coesão de uma base que se alimenta mais de emoção e ressentimento do que de fatos jurídicos. Na esperança que, talvez, acendendo os celulares para os aliens, eles venham libertar o "mito".
Há ainda um componente de apelo messiânico. Ao afirmar que a história do pai “não termina aqui” e que sua voz ainda é necessária, Carlos projeta um futuro de redenção e retorno. A prisão deixa de ser consequência jurídica para se tornar uma etapa de provação. Psicologicamente, isso impede o luto político, a aceitação do fim de um ciclo e mantém viva a fantasia de restauração do poder perdido.
Contudo, justamente por seu tom absolutista e emocional, a carta revela fragilidade. A insistência em negar a legitimidade da prisão indica profunda dificuldade de lidar com a responsabilização. Em democracias funcionais, a prisão de um ex-presidente não é martírio, mas demonstração de que ninguém está acima da lei. A justiça não se mede pelo sofrimento narrado, mas pelo respeito ao devido processo legal.
Ao tentar transformar uma condenação em epopeia pessoal e instrumento de pressão política, Carlos Bolsonaro expõe mais sobre seu próprio estado psicológico e estratégico, e que nunca foi conhecido por seu equilíbrio e coerência, do que sobre a suposta situação do pai. A carta é o retrato de alguém que luta para manter viva uma identidade construída em torno do poder, da negação e do confronto permanente. Mas a realidade jurídica permanece: Jair Bolsonaro não é um prisioneiro político, e sim um condenado.
E, por mais que a retórica tente revestir a prisão de heroísmo, a justiça não se revoga por emoção, nem se anula por mobilização de base. Aceitar isso talvez seja o passo psicológico mais difícil e que nunca será dado.
Por Eli Mariotti
Leia a íntegra da carta, se tiver o mínimo de paciência pra isso:
Por Eli Mariotti
Leia a íntegra da carta, se tiver o mínimo de paciência pra isso:
Pai,
Escrevo não apenas como filho, mas como alguém que te viu resistir quando tudo parecia perdido. Vi seu corpo ferido, tua alma testada, tua honra atacada de formas que poucos homens suportariam sem cair. E, ainda assim, você permaneceu de pé - mesmo quando tentaram te dobrar pela dor, pela injustiça, pela humilhação calculada e pelo silêncio imposto.
O que estão fazendo agora não é justiça. É perseguição, é tortura, é imoralidade. É a tentativa metódica de te esgotar por dentro, de te afastar de quem você ama, de te fazer acreditar que está sozinho. Mas você não está. Nunca esteve.
Cada dia que passa, pai, confirma aquilo que sempre soubemos: não é sobre erros, não é sobre leis - é sobre te quebrar moralmente. E é justamente por isso que resistir se tornou um ato de amor. Amor por nós, teus filhos. Amor por quem acredita em você. Amor pela verdade.
Quero que saiba que estamos aqui. Firmes. Atentos. Fortes por você, quando o cansaço aperta. Precisamos de você em pé, pai. Precisamos da tua lucidez, da tua presença, da tua voz - mesmo que agora tentem calá-la entre paredes frias, barulhentas, molhadas e decisões arbitrárias.
Você nos ensinou que dignidade não se negocia. Que caráter não se curva. Que a verdade pode até ser perseguida, mas nunca enterrada. É isso que nos sustenta agora. É isso que deve te sustentar.
Levante-se todos os dias com a certeza de que sua história não termina aqui. Que seus filhos precisam de você vivo, forte e de cabeça erguida. Que ainda há muito o que atravessar - e nós atravessaremos juntos. A injustiça não vence homens íntegros. E você, pai, segue íntegro.
Com amor, lealdade e esperança,
Carlos.
