A detenção de 14 jornalistas durante a sessão de posse ocorrida ontem na Assembleia Nacional da Venezuela não é apenas um episódio lamentável. É um sintoma grave do Estado que passou a enxergar a informação como inimiga. Quando jornalistas são tratados como suspeitos ou criminosos por exercerem sua função, o problema já não é de segurança, mas de abuso de poder.
O Parlamento deveria ser o espaço máximo da transparência. É ali que decisões são tomadas em nome do povo, e é justamente ali que a presença da imprensa se torna indispensável. Impedir registros, vasculhar celulares, bloquear transmissões e deter profissionais sem acusação formal revela uma escolha política clara: controlar a narrativa em vez de prestar contas.
O momento político venezuelano ajuda a explicar, mas não a justificar o ocorrido. Em meio a uma transição de poder marcada por incertezas, isolamento internacional e disputas internas no chavismo, além da forte pressão norte americana, o Legislativo venezuelano opta por uma prática conhecida no Brasil: intimidar para reduzir o olhar externo. A imprensa, sobretudo a internacional, torna-se um risco porque registra aquilo que o discurso oficial não consegue sustentar.
Há ainda um aspecto mais profundo e preocupante. A apreensão de equipamentos e o acesso forçado a dados pessoais não atingem apenas os jornalistas, mas também suas fontes, muitas vezes cidadãos comuns. Esse tipo de ação cria um ambiente de medo coletivo, onde falar, denunciar ou simplesmente relatar fatos passa a ser visto como um ato perigoso.
Não se trata apenas da Venezuela. O ataque à imprensa por representantes do Estado é um fenômeno recorrente nos últimos tempos. Quando o poder deixa de dialogar com a sociedade, passa a dialogar com o silêncio. E o silêncio, sabemos que nunca é neutro, ele sempre favorece quem manda.
A presença de jornalistas estrangeiros entre os detidos agrava ainda mais o episódio. Ao agir assim, o Estado envia ao mundo uma mensagem inequívoca: prefere o isolamento à transparência. Prefere o controle à crítica. Prefere o medo ao debate público.
Na Câmara dos Deputados em Brasília, jornalistas foram violentamente expulsos por ordem do deputado Hugo Motta para impedir o registro da retirada forçada do deputado Glauber Braga da mesa diretora. O objetivo era claro: impedir que a violência política fosse documentada, registrada e tornada pública. A cena, embora em outro contexto e país, dialoga diretamente com o que ocorreu na Venezuela: quando o poder se sente ameaçado pela imprensa, o primeiro alvo é quem registra os fatos.
Ambos os casos revelam a mesma lógica: o poder prefere o silêncio à exposição, o controle à crítica, a força ao debate. Quando isso acontece, pouco importa o discurso oficial, a ideologia declarada ou o país em questão. O método é o mesmo.
É preciso afirmar com clareza: não existe democracia possível sem imprensa livre. A liberdade de imprensa não é concessão, nem favor institucional, é um direito coletivo e constitucional. Quando jornalistas são calados, não é a imprensa que perde; é a sociedade inteira que fica às cegas.
Estados, governos ou lideranças que temem jornalistas, na verdade, temem a história sendo escrita por quem não é seu correligionário.
Por
Eli Mariotti
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Eli Mariotti
