Imagem IA editada no Photoshop: Papo de Jacaré

Existe uma pergunta que o PT da Paraíba precisa enfrentar, mesmo que prefira não fazê-lo: o que fará o eleitor de esquerda quando chegar à urna e perceber que o partido ao qual historicamente entrega seu voto não lhe ofereceu, na disputa pelo Governo do Estado, uma candidatura que represente aquilo que entende como um projeto progressista?

A pergunta ganhou força depois que o PT paraibano confirmou apoio a Lucas Ribeiro para o Governo, ao mesmo tempo em que reafirmou João Azevêdo e Veneziano Vital do Rêgo como seus candidatos ao Senado. A própria direção partidária precisou explicar a aparente contradição entre a ata da convenção, que registrou Nabor Wanderley na composição, e a posição política posteriormente reafirmada em favor de João e Veneziano.

Formalmente, a questão está explicada. Politicamente, entretanto, permanece aberta.

Para o do eleitorado progressista do estado, a eleição de 2026 produziu uma situação desconfortável. O partido de Lula está aliado ao candidato que representa a continuidade do atual grupo governista, mas Lucas Ribeiro, do Progressistas, é percebido por esse eleitor como um político de centro, e não como alguém identificado com a esquerda. Sua relação com João Azevêdo e sua participação na atual gestão podem representar continuidade administrativa, mas continuidade administrativa não significa, necessariamente, identidade ideológica.

Esse detalhe é importante para quem vota em Lula.

O eleitor de esquerda não vota apenas em siglas ou alianças. Procura também alguma coerência entre o projeto nacional que apoia e o projeto estadual que pretende escolher. E é justamente aí que surge o desconforto.

Do outro lado, também não encontra uma alternativa natural. Cícero Lucena, embora esteja na oposição ao grupo governista, é igualmente percebido por setores progressistas como um político de centro-direita e mantém alianças com forças que se aproximam do bolsonarismo. Para esse eleitor, portanto, trocar Lucas por Cícero não significa necessariamente encontrar uma candidatura mais próxima de suas convicções.

Nabor Wanderley tampouco oferece essa identificação. Candidato do Republicanos ao Senado e pai do presidente da Câmara, Hugo Motta, está inserido justamente no universo político que boa parte da militância de esquerda associa ao Centrão.

O resultado é uma espécie de vazio eleitoral.

O eleitor progressista pode não querer votar em Lucas porque não o considera suficientemente identificado com a esquerda; pode não querer Cícero porque o enxerga como igualmente distante de seu campo político; e certamente pode não se sentir representado pelo universo político de Nabor.

No Senado, entretanto, a situação é diferente.

João Azevêdo e Veneziano são os dois nomes que o PT paraibano reafirmou como candidatos prioritários. A posição coincide com a orientação da direção nacional do partido e com o apoio declarado de Lula. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, já havia afirmado que o presidente apoiaria João e Veneziano na disputa pelas duas vagas.

Para o eleitor progressista, portanto, existe uma distinção clara: no Senado, há dois nomes que o próprio PT apresenta como aliados prioritários de Lula; no Governo, há um candidato que parte de sua própria base não identifica como pertencente ao campo da esquerda.

Daí pode surgir uma consequência eleitoral perfeitamente possível: o eleitor votar em João e Veneziano para o Senado e, ao chegar ao Governo, não escolher nenhum dos candidatos.

Não necessariamente por querer beneficiar a oposição. Mas por não encontrar uma alternativa que represente sua identidade política.

O voto nulo, nesse contexto, pode ser entendido por esse eleitor como uma manifestação de insatisfação com a ausência de uma candidatura ao Governo capaz de representar aquilo que considera um projeto progressista.

Essa possibilidade deveria preocupar o PT porque o partido corre o risco de confundir fidelidade à legenda com fidelidade automática às alianças construídas por sua direção.

O eleitor de esquerda pode ser fiel a Lula sem ser obrigado a ser fiel a todas as escolhas feitas pelo PT nos Estados. Pode votar em Lula para presidente, em João e Veneziano para o Senado e, ainda assim, deixar a escolha para governador em branco ou nula.

A política brasileira já mostrou diversas vezes que o eleitor não necessariamente reproduz na urna a fotografia dos palanques. Ele pode construir sua própria chapa.

A Paraíba oferece um exemplo particularmente complexo disso.

O Republicanos decidiu nacionalmente pela neutralidade na disputa presidencial, mas Hugo Motta anunciou apoio à reeleição de Lula na Paraíba. Isso produz uma situação curiosa: Hugo Motta pode estar com Lula na eleição presidencial, Nabor pode estar no campo governista e Lucas pode ser apoiado pelo PT ao Governo, mas Lula não apresenta Nabor como um de seus dois candidatos prioritários ao Senado.

As alianças, portanto, não se reproduzem automaticamente entre os diferentes cargos.

E se os partidos podem estabelecer alianças diferentes para presidente, governador e Senado, por que o eleitor deveria ser obrigado a reproduzi-las integralmente na urna?

Essa talvez seja a pergunta mais incômoda para o PT paraibano.

Durante anos, o PT construiu sua identidade eleitoral em torno de uma ideia relativamente simples: existe um campo político progressista e existe um campo conservador ou liberal, e o eleitor precisa escolher de que lado está.

Em 2026, entretanto, a própria estratégia partidária estadual embaralha essas fronteiras. Para a direção partidária, pode ser uma engenharia necessária, mas para o eleitor, apenas parece perda de identidade.

E é nesse espaço entre a necessidade de fazer política e a necessidade de preservar identidade que o PT corre o risco de perder não necessariamente votos para adversários, mas algo mais silencioso: a disposição de sua própria base de seguir as orientações partidárias.

A eleição para o Senado demonstra que a identidade política ainda funciona. João Azevêdo e Veneziano foram apresentados pelo PT como os dois nomes prioritários de Lula. Ali, a mensagem é direta.

O eleitor de esquerda pode, então, acabar diante de uma escolha que não deseja fazer, que é quando nenhuma alternativa parece representar aquilo que se procura, o voto nulo deixa de ser apenas ausência de escolha e pode se transformar numa decisão consciente de não legitimar nenhuma delas.

É preciso reconhecer, entretanto, a consequência objetiva: voto nulo não elege ninguém e não altera diretamente a disputa entre os candidatos. Se essa estratégia ganhar força entre eleitores progressistas, pode acabar beneficiando indiretamente quem vencer a eleição com os votos válidos.

Só que reconhecer essa consequência não elimina a insatisfação que pode estar por trás da decisão. E é justamente por isso que o PT tem que prestar atenção ao que está acontecendo.

Porque esmagadora parcela do eleitorado que se identifica com Lula e com a esquerda pode estar chegando a uma conclusão incômoda: na eleição para o Senado, sabe exatamente em quem pretende votar; na eleição para o Governo, não há ninguém que considere verdadeiramente seu.

E, se essa percepção se consolidar, o maior problema do PT não será necessariamente perder votos para um adversário. Será perder a capacidade de dizer ao próprio eleitor por que ele deveria continuar seguindo o partido quando a urna o coloca diante de alianças que já não parecem caber dentro da mesma identidade política.

Para finalizar, continuo batendo na mesma tecla, Se o PT e sua Federação na Paraíba quiserem unificar a maior parte dos votos dos eleitores progressistas em torno da candidatura governista, precisavam ter disputado sem aceitar um não como resposta, a presença na chapa majoritária, especialmente na vaga de vice-governador. Mas não houve essa dedicação por parte da direção.

Uma secretaria bastou.

A presença de um nome progressista, com identidade política, credibilidade e participação efetiva na construção de um eventual próximo governo, não resolverá inteiramente o desconforto desse eleitor. Mas poderia diminuir a distância entre a identidade histórica do PT e a aliança que o partido construiu para 2026. Mais do que ocupar um cargo, seria uma forma de oferecer ao eleitor de esquerda uma razão política para continuar acreditando que, dentro da aliança, também existe espaço para o projeto que ele defende.

Mas pelo jeito, Lucas Ribeiro já decidiu por uma chapa com a cara do Centrão.

Eli Mariotti

Foto: PBAgora

O debate entre Lucas Ribeiro, Cícero Lucena e Efraim Filho mostrou uma coisa que pode ser decisiva nesta eleição: Lucas tem muito governo para mostrar, mas boa parte desse governo foi construída quando a caneta estava na mão de João Azevêdo.

E esse é o paradoxo da candidatura.

Lucas não está começando do zero. Pelo contrário. Ele chega à eleição como sucessor de uma administração que tem obras, investimentos, programas e entregas para apresentar em praticamente todas as regiões da Paraíba. Foi vice-governador durante boa parte desse período e assumiu o Governo do Estado em abril deste ano, depois da saída de João para disputar o Senado.

Portanto, Lucas tem todo o direito político de defender esse legado.

Mas existe uma diferença entre ter participado do governo e ser o autor das decisões que produziram suas principais entregas.

E é justamente aí que seus adversários vão apertar.

Quando Lucas apresentar uma obra, Cícero e Efraim poderão perguntar: quem decidiu? Quem assinou? Quem estava no Palácio quando aquilo foi planejado, contratado e executado?

A resposta, na maioria das vezes, será João Azevêdo.

Isso não diminui a participação de Lucas como vice-governador nem sua ligação com o projeto. Mas muda a maneira como o eleitor pode enxergar a disputa.

Lucas não pode simplesmente dizer que fez.

João Azevêdo, além do gigantesco legado que herdou de Ricardo Coutinho, também construiu uma marca administrativa própria. Foi ele quem comandou o Executivo durante a maior parte do período em que essas políticas foram planejadas e executadas. Mesmo assim, o próprio governo chegou a apresentar a sucessão como uma continuidade, com João afirmando que mudaria o governador, mas o governo seria o mesmo.

Mas esse patrimônio tem a assinatura de João, que por sua vez herdou o legado do ex-governador Ricardo Coutinho.

E esse talvez seja o ponto mais delicado da campanha. Lucas precisa convencer o eleitor de que pode continuar aquilo que João continuou sem parecer simplesmente um candidato que está vivendo do trabalho do antecessor. Precisa mostrar que conhece o governo por dentro, participou dele, ajudou a construí-lo e agora tem condições de colocar sua própria marca na próxima etapa.

E aí entra o outro problema: o sobrenome Ribeiro.

Para uma parcela do eleitorado paraibano, especialmente no campo da esquerda, o nome carrega uma memória política que pode provocar resistência. Lucas não disputa apenas contra Cícero e Efraim. Disputa também contra a imagem que parte do eleitorado já formou sobre o grupo político ao qual pertence.

Aguinaldo Ribeiro é seu tio e uma das principais lideranças políticas da família. As articulações do grupo também já são pensadas para além de 2026, alimentando especulações sobre uma possível composição familiar para a eleição de 2030.

Lucas tem a árdua tarefa de convencer o eleitor de que não é apenas um Ribeiro pedindo voto e precisa convencer que não é apenas o herdeiro de João Azevêdo pedindo continuidade.

Só que há uma ironia nisso tudo: justamente aquilo que ele tem de mais concreto para mostrar — as obras, os investimentos e as realizações do governo — também é aquilo que mais o remete a João.

É como se Lucas chegasse à eleição com uma excelente vitrine, mas precisasse explicar quem colocou os produtos nela.

E isso não é pouca coisa.

Cícero tem sua própria história política e pode dizer que faria diferente, porque a Paraíba já conhece sua trajetória. Efraim pode se apresentar como alternativa e defender uma mudança de rumo mais à direita. O que também pode ser um fator de rejeição para parte do eleitorado.

Mesmo que Lucas diga o que foi feito, a pergunta que virá é inevitável:

“Feito por quem?”

E a resposta não pode ser apagada pela campanha. Foi feito por um governo do qual Lucas participou, mas que teve João Azevêdo como governador durante a maior parte desse período.

É justamente por isso que a eleição será interessante.

Lucas terá de defender um legado que não é exclusivamente dele e, ao mesmo tempo, convencer o eleitor de que merece receber crédito suficiente para comandar a próxima etapa.

No fim, talvez essa seja a verdadeira disputa da candidatura, Lucas precisa transformar a herança administrativa de João Azevêdo em um projeto próprio. Se conseguir, terá uma base concreta para pedir continuidade.

Se não conseguir, corre o risco de ficar no meio do caminho: para uns, será apenas “mais um Ribeiro”; para outros, apenas o candidato que está tentando colher os frutos de um governo cuja principal assinatura é a de João Azevêdo.

E essa talvez seja a pergunta que acompanhará Lucas durante toda a campanha:

O eleitor estará votando no que João Azevêdo fez ou no que Lucas Ribeiro será capaz de fazer?

Além disso, existe outro desafio: parte importante do eleitorado de esquerda tende a apresentar resistência ao nome de Lucas Ribeiro, justamente pelo peso político do sobrenome que carrega. Para reduzir essa distância, sua chapa precisará dialogar de maneira convincente com esse segmento e apresentar uma composição que represente também esse campo político.

Eli Mariotti

ISAAC FONTANA/CJPRESS
Se debate se ganha colocando o adversário na defensiva, Haddad venceu o primeiro confronto com Tarcísio.

Não porque o governador tenha ido totalmente mal. Pelo contrário. Tarcísio tentou mostrar um suposto domínio dos números e defendeu seu governo. Mas esse talvez tenha sido justamente o problema: Haddad conseguiu fazê-lo passar boa parte do debate explicando o que fez.

E quem está no governo sabe que debate eleitoral também é prestação de contas.

Haddad foi para cima. Levou segurança, educação, privatizações, Sabesp e resultados da gestão paulista para o centro da conversa. Tarcísio tentou responder a altura. Mas em vários momentos, precisou justificar decisões e defender o próprio desempenho, inclusive citando números improváveis.

Para quem está atrás nas pesquisas, isso já é uma vitória importante.

Haddad também acertou ao explorar o estilo excessivamente técnico do governador. A provocação do “concurseiro” pode parecer apenas uma ironia, mas tinha um alvo claro: transformar a conhecida capacidade de Tarcísio de despejar números em uma pergunta mais simples — tá bom, mas e o resultado disso na vida do paulista?

Tarcísio, por sua vez, tentou levar a discussão para Lula, Bolsonaro e a política nacional. Chegou a dizer a Haddad que ele “não está mais competindo com Bolsonaro”. A frase, curiosamente, também revela o desconforto do governador com uma eleição que Haddad tenta transformar em julgamento de sua própria administração. Aliás Bolsonaro praticamente não fez parte do debate. Um claro sintoma de que Tarcísio, pelo menos para o front da opinião pública tem a intenção de não ser associado totalmente ao clã. Fazer isso com equilíbrio é onde está o problema, já que o governador também depende destes votos para se reeleger.

Para concluir, o ponto central foi a condução do debate dominada por Haddad, que tentou mostrar ao telespectador que é preciso avaliar o rtesultado das políticas do atual governador ao dia a dia do cidadão comum do maior colégio eleitorl do país

Haddad não precisava provar que Tarcísio é um mau governador. Precisava apenas começar a fazer o eleitor duvidar de que ele seja tão bom quanto a propaganda sugere.

Foi isso que o debate começou a fazer.

O governador continua na frente nas pesquisas. Mas debate não é pesquisa. Uma pesquisa mostra quem o eleitor pretende votar; um debate pode começar a mudar a imagem que esse eleitor tem dos candidatos.

Antes do confronto, a narrativa era: Tarcísio está na frente e Haddad tenta alcançá-lo.

Depois dele, surgiu outra possibilidade:

Tarcísio continua na frente, mas Haddad mostrou que pode enfrentá-lo.

Parece pouco.

Não é.

Para quem está atrás, transformar uma eleição aparentemente decidida em uma eleição disputável pode ser o primeiro grande passo.

Haddad não precisava sair do debate como líder. Precisava sair como alguém capaz de derrotar o líder.

E, nesse primeiro round, conseguiu.

Eli Mariotti


 


Quando cheguei a João Pessoa, no dia em que minha filha Maria Isabel nasceu, eu já não escrevia mais contos nem poesias. Até meu saxofone, companheiro desde os meus 9 anos de idade, estava esquecido num canto.

Paulinho da Viola canta que violão esquecido num canto é tristeza. Eu não poderia estar triste. Havia acabado de chegar a Jampa, empolgadíssimo. Estava mais envolvido com a comunicação política e com a agência de propaganda. Passei um bom tempo longe do jornalismo, sem escrever e sem ser músico.

Mas, quando conheci Sérgio de Castro Pinto, o desejo de escrever retornou, talvez num ímpeto criativo que eu mesmo não esperava.

Um dos poemas que mais me marcou foi o de título Tamanduá. Genial, sob a minha perspectiva. Do lugar mental que eu ocupava naquele momento em que o li. 

E é justamente sobre isso que fala o poema.

Que bela síntese. Sérgio de Castro Pinto consegue fazer parecer que a graça nasce naturalmente da lógica do verso, e só no final percebemos que havia uma ironia escondida. O poema começa quase como um aforismo filosófico:

 

"tudo é uma questão
de peso e medida:"

 

e desemboca numa verdade absolutamente particular do tamanduá. Esse deslocamento é o encanto.

Há muito tempo venho radiografando os lugares a que a psique humana pode ir quando vê, fala ou lê determinado tema, assunto ou debate. Uma mesma coisa pode ser vista de muitas formas, dependendo do lugar de onde é observada. Para mim, é aí que está a genialidade do poema.

Do lugar em que estou, por exemplo, analiso que a primeira leitura é zoológica: o tamanduá é feliz porque come formigas. Mas o poema está dizendo algo maior. A primeira frase cria uma expectativa filosófica.

Quando chega ao final:

"o tamanduá é feliz
com a boca cheia de formiga."


percebo que "feliz" depende da medida de quem observa. Para mim, estar com a boca cheia de formigas seria um pesadelo; para o tamanduá, é a própria felicidade.

Ou seja, o poema revela que o valor das coisas não está nelas mesmas, mas na relação entre elas e quem as experimenta.

É uma pequena lição sobre a relatividade do ponto de vista, expressa com uma ironia bem-humorada. Isso me lembra um pensamento de Fernando Pessoa: não vemos o mundo como ele é; vemos o mundo conforme somos.

E, pedindo licença ao poeta-mestre, quero imitá-lo descaradamente, respeitando as proporções das minhas falhas e limitações, homenageando-o como forma de gratidão por despertar em mim os melhores sentimentos de humanidade e ao mesmo tempo, ao me resgatar, mesmo sem saber e por meio de suas belas e engraçadas poesias, de volta ao mundo da literatura.

Com todo o respeito e admiração, envio aqui minha homenagem pessoal ao Mestre, tentando expressar, com muito esforço, o quanto a poesia de Sérgio me influenciou e me resgatou.
 

Caramujo

sempre devagar.
nunca teve pressa
de chegar:
sabia
que já estava em casa.


Eli Mariotti



Na política, existem decisões que elegem governos e outras que definem o rumo deles. A escolha do candidato a vice-governador na chapa encabeçada por Lucas Ribeiro (PP) pertence à segunda categoria. Não se trata apenas de preencher um espaço na fotografia da campanha. Trata-se de definir qual projeto político terá maior capacidade de sustentação até 2030.

E, sob esse ponto de vista, há uma conclusão clara: a vaga de vice-governador deve ser do Partido dos Trabalhadores.

Essa não é apenas uma questão de prestígio partidário. É uma decisão estratégica para o próprio grupo governista.

O Republicanos é, sem dúvida, um dos maiores partidos da Paraíba. Possui forte bancada na Assembleia Legislativa, grande número de prefeitos, vereadores e uma liderança nacional consolidada com Hugo Motta na presidência da Câmara dos Deputados.

Justamente por isso, o Republicanos não depende da vice-governadoria para continuar sendo protagonista.

O mesmo não pode ser dito do PT.

Embora seja o partido do presidente Lula e governe o Brasil, o PT paraibano ainda não ocupa, dentro da estrutura estadual, um espaço equivalente ao peso político que possui nacionalmente. Entregar-lhe a vice-governadoria seria muito mais do que contemplar um aliado. Seria integrar definitivamente os dois principais níveis de poder que hoje caminham na mesma direção: o Governo Federal e o Governo da Paraíba.

Essa aproximação teria efeitos concretos.

A Paraíba tem forte dependência dos investimentos federais em infraestrutura, habitação, saúde, educação, mobilidade e desenvolvimento regional. Ter o partido do presidente compondo oficialmente a chapa majoritária fortalece o diálogo institucional, amplia a capacidade de articulação política em Brasília e cria um ambiente de maior estabilidade entre os governos estadual e federal.

Num país de presidencialismo de coalizão, isso faz diferença.

Há outro aspecto pouco observado.

As eleições de 2026 não serão vencidas apenas no interior ou apenas nas grandes cidades. Elas serão decididas pela soma de diferentes eleitorados.

O PP possui tem capilaridade administrativa, já que herda o governo de João Azevedo (PSB), prestigiado no estado por obras e outras políticas públicas.

Portanto, O PSB conserva a herança política da gestão João Azevêdo.

O Republicanos mantém uma das maiores estruturas municipais do Estado.

Mas é o PT que agrega um eleitorado altamente identificado com Lula, especialmente nas periferias urbanas, entre os movimentos feministas, no eleitorado feminino, nos setoriais de diversidade, movimentos sociais, sindicatos, agricultura familiar, juventude universitária e setores populares que historicamente acompanham o projeto nacional petista.

Em outras palavras: o PT amplia a frente eleitoral sem disputar o mesmo eleitor dos demais partidos da base.

É um ganho líquido e certo.

Existe ainda um componente simbólico.

A política brasileira atravessa um período de crescente polarização. Em vários estados, partidos de centro têm buscado aproximação com o governo federal justamente para reduzir conflitos institucionais e ampliar investimentos.

Na Paraíba, colocar o PT na vice-governadoria seria transformar essa aproximação em compromisso político permanente.

Seria uma demonstração de maturidade da aliança.

Também seria um reconhecimento.

Desde o início das articulações, o PT manifestou disposição de permanecer ao lado do projeto liderado por João Azevedo e agora por Lucas Ribeiro. Não fez oposição ao governo estadual, participou das principais votações de interesse da gestão, na convenção partidária consolidou apoio a chapa da situação e tem construído uma relação de estabilidade política que merece reciprocidade.

A vice-governadoria seria esse reconhecimento.

Naturalmente, há quem argumente que o Republicanos tem tamanho suficiente para reivindicar legitimamente essa indicação.

Mas exatamente por ser um partido grande, consolidado e com enorme influência institucional, o Republicanos continuará forte qualquer que seja a composição da chapa.

O PT, por outro lado, transforma a vice em um ativo político capaz de fortalecer toda a coligação. A escolha deixa de ser uma compensação partidária para se tornar uma decisão eleitoral.

Se Lucas Ribeiro pretende construir uma candidatura ampla, competitiva e capaz de unir o centro político ao campo progressista, dificilmente encontrará um gesto mais eficiente do que entregar ao PT a vaga de vice-governador.

Porque, no fim das contas, a pergunta não é qual partido merece mais a vaga.

A pergunta é qual escolha torna a chapa mais forte.

E hoje, olhando o cenário estadual, nacional e eleitoral, a resposta parece evidente.

Uma chapa com PP e PT representa muito mais do que uma composição de partidos. Representa a união entre a força administrativa da Paraíba e a força política do Governo Federal.

E isso pode ser decisivo nas urnas e, principalmente, na governabilidade dos próximos quatro anos.

Eli Mariotti

Foto: Ricardo Stuckert

A Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada neste domingo, produziu uma imagem política que dificilmente passará despercebida durante a campanha eleitoral. Em meio a problemas de organização do evento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou a primeira-dama Janja para discursar, reforçando uma estratégia de aproximação com o eleitorado feminino. Também fez uma declaração que ganhou ampla repercussão: "Quem bate em mulher não precisa votar em mim", vinculando sua campanha ao enfrentamento da violência de gênero.

A fala não foi casual. Em um cenário eleitoral polarizado, as mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro e tendem a ocupar posição decisiva na disputa presidencial. A estratégia do PT é evidente: fortalecer uma pauta que dialoga diretamente com esse segmento, ao mesmo tempo em que busca explorar fragilidades do adversário junto ao voto feminino.

Entretanto, se, nacionalmente, o discurso foi de valorização da mulher, na Paraíba a convenção estadual transmitiu uma impressão diferente.

Durante o evento, apenas uma candidata teve espaço para discursar, logo no início da programação, quando o público ainda era reduzido. Já na parte final, a única mulher a falar foi a presidente estadual do partido, Cida Ramos. A escassez de vozes femininas no palco foi percebida por militantes e lideranças presentes, gerando comentários entre representantes dos movimentos de mulheres.

O contraste chama atenção porque o próprio PT construiu sua identidade política defendendo a ampliação da participação feminina nos espaços de poder. Na Paraíba, o partido vive um momento histórico ao ser presidido, pela primeira vez, por uma mulher. Ainda assim, justamente no principal evento eleitoral da legenda no estado, a presença feminina na programação foi bastante limitada, abrindo espaço para questionamentos inevitáveis.

A discussão, porém, vai além da convenção.

Outro fato que passou a circular entre filiados e dirigentes é a dificuldade do PT da Paraíba em preencher integralmente a cota mínima de candidaturas femininas para a Assembleia Legislativa, situação que resultou na redução da chapa proporcional. A legislação eleitoral exige um percentual mínimo de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais, e o seu descumprimento pode acarretar consequências para o registro da chapa.

A pergunta que começa a ecoar nos grupos internos do partido é simples:

E por que o PT da Paraíba não conseguiu atrair mulheres suficientes para completar sua chapa?

A resposta não parece ser apenas burocrática.

Ela pode envolver dificuldades de organização partidária, falta de renovação dos quadros, baixa disposição de lideranças femininas para disputar eleições ou problemas estruturais de incentivo à participação das mulheres. Seja qual for a explicação, o fato político existe e passou a ser debatido internamente.

Na política, símbolos têm peso semelhante ao dos discursos.

Lula compreendeu isso ao transformar a defesa das mulheres em uma das mensagens centrais da convenção nacional. Mas o simbolismo perde parte de sua força quando, na esfera estadual do próprio partido, a participação feminina não encontra a mesma visibilidade.

Não se trata apenas de cumprir cotas previstas em lei ou reservar alguns minutos de fala durante uma convenção. Trata-se de coerência entre discurso e prática.

Se o voto feminino pode ser determinante na eleição presidencial, como indicam diversas pesquisas, os partidos de esquerda, entre eles o PT, precisarão demonstrar na prática, que as mulheres ocupam espaços reais de protagonismo, tanto nas candidaturas quanto nas instâncias de decisão e não apenas nas peças de campanha.

No caso da Paraíba, a convenção estadual deixou uma pergunta que dificilmente será respondida apenas com discursos: se o PT pretende dialogar com o eleitorado feminino durante a campanha, por que as mulheres tiveram tão pouca visibilidade justamente no palco que deveria simbolizar a força e a diversidade do partido? 

Essa é uma questão política legítima, cuja resposta caberá ao próprio PT apresentar ao longo do processo eleitoral.


O escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro não é apenas mais um episódio constrangedor do universo bolsonarista. Trata-se da materialização de uma crise moral, política e ideológica que há anos corrói a direita brasileira por dentro. O editorial publicado pelo Estadão deixou evidente aquilo que parte do conservadorismo tradicional já não consegue mais esconder: o bolsonarismo deixou de ser um ativo eleitoral e se transformou em um fardo tóxico para qualquer projeto de direita no Brasil.

As revelações publicadas pelo Intercept Brasil apontam que Flávio Bolsonaro teria negociado cerca de US$ 24 milhões com Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Parte dos recursos, segundo os documentos divulgados, já teria sido paga ao longo de 2025. Mais grave do que a dimensão financeira do caso é o simbolismo político da relação. O filho do ex-presidente, tratado há anos como herdeiro natural do bolsonarismo, aparece em conversas amistosas com um banqueiro investigado por fraudes bilionárias e suspeitas de influência nos Três Poderes. A imagem desmonta por completo o discurso moralista que sustentou o bolsonarismo desde sua ascensão em 2018.

Durante anos, o movimento bolsonarista construiu sua identidade pública sobre a promessa de ruptura ética com a chamada “velha política”. O discurso era baseado em patriotismo, combate à corrupção, defesa da família e regeneração moral do Estado brasileiro. No entanto, o grupo que chegou ao poder prometendo destruir os vícios históricos da política nacional acabou reproduzindo muito pior, exatamente aquilo que dizia combater. Relações obscuras com empresários, suspeitas sobre movimentações financeiras, personalismo familiar, ataques constantes às instituições e uso político da radicalização ideológica passaram a compor o núcleo da experiência bolsonarista no poder.

O caso envolvendo Flávio Bolsonaro reforça justamente essa percepção de continuidade do pior da política brasileira. Não se trata mais de episódios isolados ou desvios individuais, mas de um padrão político consolidado, marcado pela mistura entre interesses privados, poder institucional e lealdade familiar. A retórica anticorrupção do bolsonarismo perdeu credibilidade porque foi engolida pelas próprias contradições do grupo.

O aspecto mais revelador do editorial do Estadão talvez nem seja a denúncia em si, mas o movimento de distanciamento promovido por setores tradicionais da direita brasileira, a começar peço próprio jornal. Ao defender o surgimento de uma “alternativa conservadora séria”, o Estadão admite implicitamente aquilo que parte da elite econômica e política demorou anos para reconhecer: Jair Bolsonaro nunca representou um projeto democrático consistente de direita. Representou, na prática, um populismo autoritário sustentado pela guerra cultural, pelo ressentimento social e pela exploração permanente da polarização política.

A questão é que muitos dos setores que agora tentam abandonar o bolsonarismo ajudaram diretamente a construir esse fenômeno. Empresários, agentes do mercado financeiro, lideranças liberais e parcelas importantes da mídia conservadora toleraram ataques às instituições democráticas porque enxergavam no bolsonarismo uma ferramenta útil contra a esquerda. Durante anos minimizaram ameaças autoritárias, normalizaram discursos extremistas e relativizaram comportamentos incompatíveis com a democracia em troca de ganhos políticos e econômicos.

Agora, diante do desgaste crescente do clã Bolsonaro, tentam reconstruir uma direita institucional sem carregar o peso do radicalismo que ajudaram a alimentar. Mas a ruptura está longe de ser simples. O bolsonarismo deixou marcas profundas no campo conservador brasileiro. Normalizou teorias conspiratórias, transformou a agressividade política em método permanente de mobilização e substituiu o debate racional por uma lógica emocional baseada em medo, ressentimento e culto à personalidade.

Nesse contexto, o caso Flávio Bolsonaro funciona como símbolo da falência moral da direita brasileira A proximidade com Daniel Vorcaro não representa apenas um problema jurídico ou reputacional. Representa o colapso definitivo da narrativa de pureza ética construída desde 2018. A frase atribuída ao senador — “Irmão, estou e estarei contigo sempre” — sintetiza a a verdadeira face de um movimento que prometia combater privilégios em um grupo político fechado, personalista e cercado por figuras controversas e suspeitas.

O bolsonarismo chegou ao poder explorando a indignação popular contra corrupção e decadência institucional. Hoje, mostra que sempre fez parte do mesmo sistema que dizia combater. A diferença é que já não existe mais o discurso de outsider capaz de esconder a realidade. O que resta é uma direita fragmentada, desgastada moralmente, mergulhada em uma disputa interna feroz pelo controle do espólio político deixado por Jair Bolsonaro.

Eli Mariotti

 


O militante histórico do Partido dos Trabalhadores, Lenildo Morais, liderança da corrente Movimento PT, assumiu oficialmente nesta segunda-feira a presidência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), reforçando o espaço da Paraíba no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ex-prefeito de Patos e ex-diretor da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Lenildo chega ao comando da Funasa com a missão de fortalecer as políticas públicas voltadas à saúde, ao saneamento básico e à melhoria da qualidade de vida da população brasileira, especialmente nas regiões mais vulneráveis do país.

Ao assumir o cargo, Lenildo Morais destacou o compromisso com uma gestão humanizada e voltada ao interesse público.

“Recebo com muita responsabilidade e compromisso a missão de assumir a presidência da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).

Seguiremos trabalhando pelo fortalecimento das políticas públicas de saúde, do saneamento e da qualidade de vida da população brasileira, especialmente das comunidades que mais precisam da presença do Estado.

Agradeço a confiança ao nosso grande Presidente Lula, além do companheiro e Ministro Padilha, e reafirmo meu compromisso com uma gestão dedicada, humana e voltada ao interesse público”, afirmou.

A nomeação é vista como reconhecimento à trajetória política e administrativa de Lenildo Morais, que ao longo dos anos construiu forte atuação nos movimentos sociais e dentro do PT, consolidando-se como uma das principais lideranças políticas da Paraíba ligadas ao campo popular e democrático.

A Funasa desempenha papel estratégico na execução de ações de saneamento e promoção da saúde pública em municípios brasileiros, sobretudo nas cidades de pequeno porte e em comunidades historicamente carentes de investimentos públicos.

Eli Mariotti

O Movimento PT da Paraíba divulgou, nesta sexta-feira (9), uma nota política na qual manifesta insatisfação com a condução da direção estadual do Partido dos Trabalhadores e denuncia o que classificou como um processo de exclusão sistemática da corrente interna dos principais espaços de decisão partidária.


Intitulada “A Necessidade Real de Unificação do Partido Respeitando Todas as Correntes”, a nota afirma que o grupo vem sendo afastado dos debates estratégicos e das articulações políticas do PT na Paraíba, apesar de possuir representação legítima dentro da estrutura partidária.


O documento relembra que, no último Processo de Eleições Diretas (PED) do partido, o Movimento PT conquistou o segundo lugar na disputa interna, mas, segundo a corrente, não recebeu o reconhecimento proporcional dentro da Executiva Estadual.


Entre os episódios apontados como exemplos de isolamento político, o Movimento cita a ausência de representantes da corrente em uma reunião entre dirigentes petistas e o governador do Estado para tratar das articulações visando as eleições de 2026.


A nota também critica a exclusão do grupo da mesa política do encontro realizado no Sindicato dos Bancários entre a militância paraibana e o presidente nacional do PT.


Outro ponto destacado pelo Movimento PT foi a discussão em torno da possível aliança para as eleições estaduais de 2026. Segundo a corrente, houve concordância inicial com a resolução apresentada pela presidência estadual em defesa do apoio à possível candidatura de Lucas Ribeiro ao Governo do Estado, desde que fosse garantida ao PT da Paraíba a reivindicação da vaga de vice-governador.


No texto, o Movimento afirma que considera insuficiente a oferta de apenas uma secretaria estadual para o partido e defende que a vice-governadoria seria fundamental para ampliar a representatividade política do PT no estado.


A corrente interna também demonstrou preocupação com o cenário eleitoral proporcional para 2026, alertando para o risco de redução da bancada petista na Assembleia Legislativa da Paraíba. Segundo o documento, a falta de diálogo com parlamentares e lideranças políticas teria contribuído para o enfraquecimento do partido e para a saída de importantes quadros políticos.


“O partido vem se apequenando politicamente no estado, sem apresentar um projeto consistente de crescimento e fortalecimento partidário”, afirma trecho da nota.


Apesar das críticas, o Movimento PT reafirmou compromisso com a unidade partidária, com o fortalecimento e a reeleição do presidente Lula, além da defesa de um PT “forte, democrático e protagonista” na Paraíba.


Ao final, a corrente cobra da direção estadual uma mudança de postura, com maior diálogo interno e respeito à pluralidade de forças que compõem o partido.


A nota foi divulgada oficialmente pelo Movimento PT – Paraíba e tem potencial de ampliar o debate interno sobre os rumos políticos do Partido dos Trabalhadores no estado às vésperas das articulações para as eleições de 2026.


Eli Mariotti

Leia a nota na íntegra:


A NECESSIDADE REAL DE UNIFICAÇÃO DO PARTIDO RESPEITANDO TODAS AS CORRENTES

O Movimento PT da Paraíba vem a público manifestar sua profunda preocupação e insatisfação diante da forma como nossa corrente interna vem sendo sistematicamente excluída dos principais espaços de debate, formulação política e tomada de decisões no âmbito da direção estadual do Partido dos Trabalhadores.

Somos parte legítima da construção histórica do PT na Paraíba e no Brasil. No último PED, o Movimento disputou as eleições internas do partido e alcançou o segundo lugar no pleito com méritos próprios. Mesmo assim, não obtivemos o reconhecimento adequado ao nosso espaço na Executiva Estadual, sendo inclusive preteridos em favor da corrente que ficou em terceiro lugar na disputa.

Defendemos um partido democrático, plural, coletivo e comprometido com a participação efetiva de todas as suas correntes e militâncias. No entanto, os acontecimentos recentes demonstram um preocupante processo de isolamento político do Movimento PT dentro da atual gestão estadual partidária.


Entre os fatos que evidenciam essa prática, destacamos:

a) O Partido participou de reunião com o atual governador do Estado para tratar das negociações políticas e do apoio para as eleições de 2026, sem que qualquer representante do Movimento PT na Executiva Estadual fosse convidado a participar das discussões, apesar de integrarmos legitimamente os espaços de direção partidária.

b) No último encontro realizado no Sindicato dos Bancários entre a militância paraibana e o presidente nacional do PT, novamente o Movimento PT estadual foi completamente excluído da composição da mesa política do evento, demonstrando ausência de reconhecimento à nossa representatividade e trajetória dentro do partido.

c) Na última reunião do Diretório Estadual do PT, realizada no Hotel Litoral, o Movimento PT não abriu divergência à resolução apresentada pela presidência estadual do partido acerca do apoio à possível candidatura de Lucas Ribeiro ao Governo do Estado, desde que esse apoio estivesse condicionado à garantia de plena reinvidicação para a vaga de vice-governador para o PT da Paraíba.


O Movimento PT entende que a oferta de apenas uma secretaria estadual é insuficiente para a dimensão política e institucional do Partido dos Trabalhadores, que governa o Brasil sob a liderança do presidente Lula de forma democrática, popular e inclusiva.

Defendemos que a vice-governadoria representa um espaço estratégico de visibilidade, fortalecimento político e afirmação institucional do PT perante o povo paraibano, elevando o partido à condição de protagonismo e plena representatividade no estado.

Também nos preocupa profundamente a fragilidade do projeto eleitoral do PT para as eleições proporcionais. Entramos no próximo processo eleitoral com reduzidas perspectivas de eleger a quantidade necessária de parlamentares para a Assembleia Legislativa da Paraíba.

Entendemos que esse cenário é consequência direta da ausência de diálogo político com parlamentares do partido, fato que contribuiu, inclusive, para a evasão de um importante deputado estadual que poderia fortalecer nossa chapa proporcional.

Ao mesmo tempo, não observamos iniciativas concretas da direção estadual para incentivar a entrada de novas lideranças e pré-candidaturas capazes de ampliar e fortalecer a chapa de deputados estaduais do PT.

Infelizmente, o partido vem se apequenando politicamente no estado, sem apresentar um projeto consistente de crescimento e fortalecimento partidário. O que temos observado é a predominância de projetos políticos pessoais conduzidos de forma unilateral, sem o devido debate coletivo e sem a construção democrática necessária dentro do partido.

O Movimento PT reafirma seu compromisso com a unidade partidária, com o fortalecimento e reeleição do governo do presidente Lula e com a construção de um PT forte, democrático e protagonista na Paraíba. Contudo, unidade não pode significar silêncio diante da exclusão política, nem submissão a decisões construídas sem diálogo.

Esperamos que a direção estadual reveja urgentemente sua postura e restabeleça uma relação baseada no respeito político, na participação democrática e na valorização de todas as forças que constroem diariamente o Partido dos Trabalhadores na Paraíba.


Paraíba. 9 de maio de 2026

Movimento PT – Paraíba


Coordenadores:

Lenildo Morais - Coordenador Nacional e ex-prefeito de Patos

Carlinhos Guedes - Coordenador Estadual


Executiva do PT da Paraíba

Eli Mariotti - Secretário de Desenvolvimento Econômico

Edna Ribeiro - Vogal


Diretório Estadual

Zé Campina

A corrente Movimento PT, do Partido dos Trabalhadores (PT) na Paraíba, divulgou nesta semana uma nota pública em que conclama a militância, filiados e a sociedade a se mobilizarem diante dos desafios políticos que se aproximam no cenário eleitoral.

No documento, a tendência destaca que o Brasil segue marcado por forte polarização política, o que, segundo o grupo, exige “maturidade, unidade e capacidade de mobilização” das forças progressistas. A nota reforça ainda a necessidade de defesa da democracia e da continuidade de um projeto nacional voltado à justiça social.

Entre as prioridades apontadas está a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com o Movimento PT, a atual gestão federal é caracterizada pela reconstrução de políticas públicas e pela atenção aos setores mais vulneráveis da população, elementos que devem ser apresentados à sociedade durante o processo eleitoral.

No âmbito estadual, a corrente manifesta apoio ao nome do vereador Marcos Henrique para compor a vaga de vice na chapa ao governo apoiada pelo PT. A justificativa, segundo a nota, é a importância de garantir representação partidária no palanque majoritário.

Já na disputa pelo Senado, o grupo cita como estratégicos nomes como o do senador Veneziano Vital do Rêgo, considerado peça importante para a formação de maioria no Congresso em apoio ao governo federal. Para a Câmara dos Deputados, a nota também menciona o ex-governador Ricardo Coutinho como um nome relevante para fortalecer uma bancada alinhada a pautas progressistas.

O documento ainda ressalta a importância da eleição para a Assembleia Legislativa da Paraíba, destacando candidaturas como a de Flávio Tavares Brasileiro, apontado como representante de renovação política ao combinar juventude e experiência.

Por fim, o Movimento PT defende a intensificação da atuação nas ruas e nas redes sociais, o fortalecimento da base partidária e o engajamento nas pré-campanhas. A corrente conclui afirmando confiança na construção de uma campanha competitiva e na conquista de avanços políticos no estado e no país.

A nota encerra com a reafirmação do compromisso da tendência com a luta política e com o que considera ser o desenvolvimento social da Paraíba e do Brasil.

Eli Mariotti

Leia a Nota na Integra:

Partido dos Trabalhadores – Paraíba

NOTA PÚBLICA - MOVIMENTO PT – PARÁIBA

A Tendência Movimento PT do Partido dos Trabalhadores na Paraíba vem a público dirigir-se à militância, aos filiados e à sociedade em geral diante dos desafios políticos que se aproximam.

O ano em curso aponta para um pleito eleitoral desafiador. O Brasil permanece profundamente dividido e polarizado, o que exige de todos nós maturidade política, unidade e capacidade de mobilização. Mais do que nunca, será fundamental reafirmar nosso compromisso com a democracia e com um projeto de país orientado pela justiça social.

Temos como tarefa central contribuir para a reeleição do presidente Lula, demonstrando à população os avanços de sua gestão, marcada pela reconstrução do Brasil, pela retomada de políticas públicas e pelo compromisso com os segmentos mais vulneráveis da sociedade.

Com essa perspectiva, endossamos o nome do vereador Marcos Henrique a vaga de vice na chapa apoiada pelo PT ao governo do estado, pois consideramos de vital importância, o partido estar bem representado no palanque da majoritária.

A eleição ao senado, também não pode ser negligenciada. Nomes como o do senador Veneziano Vital do Rêgo são indispensáveis para Lula compor a sua maioria no senado no seu quarto mandato. Assim como o nome do ex-governador Ricardo Coutinho, são fundamentais para termos uma Câmara dos Deputados, progressista e comprometida com as pautas populares.

E é claro, não podemos esquecer, do pleito a Assembleia Legislativa da Paraíba, espaço privilegiado para o debate das questões estaduais, buscando o desenvolvido regional. O PT tem nomes na sua chapa a deputado estadual como o companheiro, Flávio Tavares Brasileiro, que casa perfeitamente no seu perfil, os atributos da juventude e experiência, significando uma possibilidade de renovação do nosso parlamento paraibano.

É urgente intensificar a disputa das ruas e redes, fortalecer nossa base e ampliar o engajamento nas pré-campanhas de nossos candidatos e candidatas, tanto no âmbito estadual quanto federal. Com organização, militância ativa e diálogo permanente com o povo, construiremos uma campanha forte, vitoriosa e ampliaremos nossa representação.

Seguimos firmes na luta, com coragem e determinação, convictos de que é possível avançar e conquistar vitórias importantes para o povo da Paraíba e do Brasil.

Paraíba, 25 de abril de 2026.




A carta divulgada por Carlos Bolsonaro nesta terça-feira (13), endereçada ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão e atualmente custodiado na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, vai muito além de um gesto filial. O texto revela uma operação simbólica cuidadosamente construída: deslocar o eixo do debate da esfera jurídica para o campo emocional, moral e psicológico, numa tentativa explícita de converter uma condenação judicial em narrativa de perseguição, sacrifício e redenção política.

Sob o ponto de vista psicológico, a carta expõe um mecanismo clássico de negação da realidade jurídica. Carlos não enfrenta o mérito da condenação, tampouco menciona crimes, as fartas provas ou decisões judiciais. Ao contrário, substitui fatos por sentimentos, transformando a prisão, resultado de um longo e idôneo processo legal ,em “tortura”, “imoralidade” e “perseguição”. Trata-se de uma estratégia de defesa psíquica: quando a realidade é insuportável, ela é reescrita como injustiça absoluta.

Esse movimento emocional, no entanto, não é apenas íntimo ou familiar. Há uma clara intencionalidade política no texto. A carta funciona como instrumento de mobilização das bases bolsonaristas, num momento em que setores da extrema direita tentam pressionar o Congresso pela anulação dos vetos do presidente Lula à chamada Lei da Dosimetria, especialmente no que se refere aos crimes cometidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Ao reforçar a ideia de perseguição e injustiça, Carlos busca criar um ambiente emocional favorável à revisão das penas e à reinterpretação dos atos antidemocráticos como excessos puníveis com menor rigor ou mesmo como manifestações políticas legítimas.

Nesse mesmo movimento, a carta também opera como uma tentativa indireta de constranger o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Alexandre de Moraes. Ao descrever o cárcere como um ambiente “frio, barulhento, molhado” e dominado por “decisões arbitrárias”, Carlos constrói um apelo público para uma improvável concessão de prisão domiciliar, não com base em critérios legais objetivos, mas na comoção emocional e na pressão popular. É uma estratégia conhecida: transformar o juiz em vilão e a decisão judicial em crueldade pessoal.

Do ponto de vista psicológico, o texto também revela um processo de idealização extrema da figura paterna. Jair Bolsonaro é apresentado não como um réu condenado, mas como um homem “íntegro”, silenciado por forças externas. Essa idealização protege emocionalmente o filho da frustração e da culpa, ao mesmo tempo em que tenta preservar, junto à militância, a imagem do pai como líder moral injustiçado. É a recusa em aceitar a falibilidade da figura de autoridade, traço comum em relações familiares marcadas por forte hierarquia simbólica e dependência identitária (autoritarismo).

Outro elemento central é a inversão de papéis. O condenado torna-se vítima; o sistema de Justiça, o agressor. O Estado de Direito é retratado como instrumento de opressão, enquanto a pena aplicada é tratada como violência ilegítima. Essa inversão não é retórica inocente: ela sustenta a narrativa de mártir político necessária para manter a coesão de uma base que se alimenta mais de emoção e ressentimento do que de fatos jurídicos. Na esperança que, talvez, acendendo os celulares para os aliens, eles venham libertar o "mito".

Há ainda um componente de apelo messiânico. Ao afirmar que a história do pai “não termina aqui” e que sua voz ainda é necessária, Carlos projeta um futuro de redenção e retorno. A prisão deixa de ser consequência jurídica para se tornar uma etapa de provação. Psicologicamente, isso impede o luto político, a aceitação do fim de um ciclo e mantém viva a fantasia de restauração do poder perdido.

Contudo, justamente por seu tom absolutista e emocional, a carta revela fragilidade. A insistência em negar a legitimidade da prisão indica profunda dificuldade de lidar com a responsabilização. Em democracias funcionais, a prisão de um ex-presidente não é martírio, mas demonstração de que ninguém está acima da lei. A justiça não se mede pelo sofrimento narrado, mas pelo respeito ao devido processo legal.

Ao tentar transformar uma condenação em epopeia pessoal e instrumento de pressão política, Carlos Bolsonaro expõe mais sobre seu próprio estado psicológico e estratégico, e que nunca foi conhecido por seu equilíbrio e coerência, do que sobre a suposta situação do pai. A carta é o retrato de alguém que luta para manter viva uma identidade construída em torno do poder, da negação e do confronto permanente. Mas a realidade jurídica permanece: Jair Bolsonaro não é um prisioneiro político, e sim um condenado.

E, por mais que a retórica tente revestir a prisão de heroísmo, a justiça não se revoga por emoção, nem se anula por mobilização de base. Aceitar isso talvez seja o passo psicológico mais difícil  e que nunca será dado.

Por Eli Mariotti

Leia a íntegra da carta, se tiver o mínimo de paciência pra isso:

Pai,

Escrevo não apenas como filho, mas como alguém que te viu resistir quando tudo parecia perdido. Vi seu corpo ferido, tua alma testada, tua honra atacada de formas que poucos homens suportariam sem cair. E, ainda assim, você permaneceu de pé - mesmo quando tentaram te dobrar pela dor, pela injustiça, pela humilhação calculada e pelo silêncio imposto.

O que estão fazendo agora não é justiça. É perseguição, é tortura, é imoralidade. É a tentativa metódica de te esgotar por dentro, de te afastar de quem você ama, de te fazer acreditar que está sozinho. Mas você não está. Nunca esteve.

Cada dia que passa, pai, confirma aquilo que sempre soubemos: não é sobre erros, não é sobre leis - é sobre te quebrar moralmente. E é justamente por isso que resistir se tornou um ato de amor. Amor por nós, teus filhos. Amor por quem acredita em você. Amor pela verdade.

Quero que saiba que estamos aqui. Firmes. Atentos. Fortes por você, quando o cansaço aperta. Precisamos de você em pé, pai. Precisamos da tua lucidez, da tua presença, da tua voz - mesmo que agora tentem calá-la entre paredes frias, barulhentas, molhadas e decisões arbitrárias.

Você nos ensinou que dignidade não se negocia. Que caráter não se curva. Que a verdade pode até ser perseguida, mas nunca enterrada. É isso que nos sustenta agora. É isso que deve te sustentar.

Levante-se todos os dias com a certeza de que sua história não termina aqui. Que seus filhos precisam de você vivo, forte e de cabeça erguida. Que ainda há muito o que atravessar - e nós atravessaremos juntos. A injustiça não vence homens íntegros. E você, pai, segue íntegro.

Com amor, lealdade e esperança,

Carlos.


A detenção de 14 jornalistas durante a sessão de posse ocorrida ontem na Assembleia Nacional da Venezuela não é apenas um episódio lamentável. É um sintoma grave do Estado que passou a enxergar a informação como inimiga. Quando jornalistas são tratados como suspeitos ou criminosos por exercerem sua função, o problema já não é de segurança, mas de abuso de poder.

O Parlamento deveria ser o espaço máximo da transparência. É ali que decisões são tomadas em nome do povo, e é justamente ali que a presença da imprensa se torna indispensável. Impedir registros, vasculhar celulares, bloquear transmissões e deter profissionais sem acusação formal revela uma escolha política clara: controlar a narrativa em vez de prestar contas.

O momento político venezuelano ajuda a explicar, mas não a justificar o ocorrido. Em meio a uma transição de poder marcada por incertezas, isolamento internacional e disputas internas no chavismo, além da forte pressão norte americana, o Legislativo venezuelano opta por uma prática conhecida no Brasil: intimidar para reduzir o olhar externo. A imprensa, sobretudo a internacional, torna-se um risco porque registra aquilo que o discurso oficial não consegue sustentar.

Há ainda um aspecto mais profundo e preocupante. A apreensão de equipamentos e o acesso forçado a dados pessoais não atingem apenas os jornalistas, mas também suas fontes, muitas vezes cidadãos comuns. Esse tipo de ação cria um ambiente de medo coletivo, onde falar, denunciar ou simplesmente relatar fatos passa a ser visto como um ato perigoso.

Não se trata apenas da Venezuela. O ataque à imprensa por representantes do Estado é um fenômeno recorrente nos últimos tempos. Quando o poder deixa de dialogar com a sociedade, passa a dialogar com o silêncio. E o silêncio, sabemos que nunca é neutro, ele sempre favorece quem manda.

A presença de jornalistas estrangeiros entre os detidos agrava ainda mais o episódio. Ao agir assim, o Estado envia ao mundo uma mensagem inequívoca: prefere o isolamento à transparência. Prefere o controle à crítica. Prefere o medo ao debate público.

Na Câmara dos Deputados em Brasília, jornalistas foram violentamente expulsos por ordem do deputado Hugo Motta para impedir o registro da retirada forçada do deputado Glauber Braga da mesa diretora. O objetivo era claro: impedir que a violência política fosse documentada, registrada e tornada pública. A cena, embora em outro contexto e país, dialoga diretamente com o que ocorreu na Venezuela: quando o poder se sente ameaçado pela imprensa, o primeiro alvo é quem registra os fatos.

Ambos os casos revelam a mesma lógica: o poder prefere o silêncio à exposição, o controle à crítica, a força ao debate. Quando isso acontece, pouco importa o discurso oficial, a ideologia declarada ou o país em questão. O método é o mesmo.

É preciso afirmar com clareza: não existe democracia possível sem imprensa livre. A liberdade de imprensa não é concessão, nem favor institucional, é um direito coletivo e constitucional. Quando jornalistas são calados, não é a imprensa que perde; é a sociedade inteira que fica às cegas.

Estados, governos ou lideranças que temem jornalistas, na verdade, temem a história sendo escrita por quem não é seu correligionário.

Por
Eli Mariotti