A carta divulgada por Carlos Bolsonaro nesta terça-feira (13), endereçada ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão e atualmente custodiado na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, vai muito além de um gesto filial. O texto revela uma operação simbólica cuidadosamente construída: deslocar o eixo do debate da esfera jurídica para o campo emocional, moral e psicológico, numa tentativa explícita de converter uma condenação judicial em narrativa de perseguição, sacrifício e redenção política.

Sob o ponto de vista psicológico, a carta expõe um mecanismo clássico de negação da realidade jurídica. Carlos não enfrenta o mérito da condenação, tampouco menciona crimes, as fartas provas ou decisões judiciais. Ao contrário, substitui fatos por sentimentos, transformando a prisão, resultado de um longo e idôneo processo legal ,em “tortura”, “imoralidade” e “perseguição”. Trata-se de uma estratégia de defesa psíquica: quando a realidade é insuportável, ela é reescrita como injustiça absoluta.

Esse movimento emocional, no entanto, não é apenas íntimo ou familiar. Há uma clara intencionalidade política no texto. A carta funciona como instrumento de mobilização das bases bolsonaristas, num momento em que setores da extrema direita tentam pressionar o Congresso pela anulação dos vetos do presidente Lula à chamada Lei da Dosimetria, especialmente no que se refere aos crimes cometidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Ao reforçar a ideia de perseguição e injustiça, Carlos busca criar um ambiente emocional favorável à revisão das penas e à reinterpretação dos atos antidemocráticos como excessos puníveis com menor rigor ou mesmo como manifestações políticas legítimas.

Nesse mesmo movimento, a carta também opera como uma tentativa indireta de constranger o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Alexandre de Moraes. Ao descrever o cárcere como um ambiente “frio, barulhento, molhado” e dominado por “decisões arbitrárias”, Carlos constrói um apelo público para uma improvável concessão de prisão domiciliar, não com base em critérios legais objetivos, mas na comoção emocional e na pressão popular. É uma estratégia conhecida: transformar o juiz em vilão e a decisão judicial em crueldade pessoal.

Do ponto de vista psicológico, o texto também revela um processo de idealização extrema da figura paterna. Jair Bolsonaro é apresentado não como um réu condenado, mas como um homem “íntegro”, silenciado por forças externas. Essa idealização protege emocionalmente o filho da frustração e da culpa, ao mesmo tempo em que tenta preservar, junto à militância, a imagem do pai como líder moral injustiçado. É a recusa em aceitar a falibilidade da figura de autoridade, traço comum em relações familiares marcadas por forte hierarquia simbólica e dependência identitária (autoritarismo).

Outro elemento central é a inversão de papéis. O condenado torna-se vítima; o sistema de Justiça, o agressor. O Estado de Direito é retratado como instrumento de opressão, enquanto a pena aplicada é tratada como violência ilegítima. Essa inversão não é retórica inocente: ela sustenta a narrativa de mártir político necessária para manter a coesão de uma base que se alimenta mais de emoção e ressentimento do que de fatos jurídicos. Na esperança que, talvez, acendendo os celulares para os aliens, eles venham libertar o "mito".

Há ainda um componente de apelo messiânico. Ao afirmar que a história do pai “não termina aqui” e que sua voz ainda é necessária, Carlos projeta um futuro de redenção e retorno. A prisão deixa de ser consequência jurídica para se tornar uma etapa de provação. Psicologicamente, isso impede o luto político, a aceitação do fim de um ciclo e mantém viva a fantasia de restauração do poder perdido.

Contudo, justamente por seu tom absolutista e emocional, a carta revela fragilidade. A insistência em negar a legitimidade da prisão indica profunda dificuldade de lidar com a responsabilização. Em democracias funcionais, a prisão de um ex-presidente não é martírio, mas demonstração de que ninguém está acima da lei. A justiça não se mede pelo sofrimento narrado, mas pelo respeito ao devido processo legal.

Ao tentar transformar uma condenação em epopeia pessoal e instrumento de pressão política, Carlos Bolsonaro expõe mais sobre seu próprio estado psicológico e estratégico, e que nunca foi conhecido por seu equilíbrio e coerência, do que sobre a suposta situação do pai. A carta é o retrato de alguém que luta para manter viva uma identidade construída em torno do poder, da negação e do confronto permanente. Mas a realidade jurídica permanece: Jair Bolsonaro não é um prisioneiro político, e sim um condenado.

E, por mais que a retórica tente revestir a prisão de heroísmo, a justiça não se revoga por emoção, nem se anula por mobilização de base. Aceitar isso talvez seja o passo psicológico mais difícil  e que nunca será dado.

Por Eli Mariotti

Leia a íntegra da carta, se tiver o mínimo de paciência pra isso:

Pai,

Escrevo não apenas como filho, mas como alguém que te viu resistir quando tudo parecia perdido. Vi seu corpo ferido, tua alma testada, tua honra atacada de formas que poucos homens suportariam sem cair. E, ainda assim, você permaneceu de pé - mesmo quando tentaram te dobrar pela dor, pela injustiça, pela humilhação calculada e pelo silêncio imposto.

O que estão fazendo agora não é justiça. É perseguição, é tortura, é imoralidade. É a tentativa metódica de te esgotar por dentro, de te afastar de quem você ama, de te fazer acreditar que está sozinho. Mas você não está. Nunca esteve.

Cada dia que passa, pai, confirma aquilo que sempre soubemos: não é sobre erros, não é sobre leis - é sobre te quebrar moralmente. E é justamente por isso que resistir se tornou um ato de amor. Amor por nós, teus filhos. Amor por quem acredita em você. Amor pela verdade.

Quero que saiba que estamos aqui. Firmes. Atentos. Fortes por você, quando o cansaço aperta. Precisamos de você em pé, pai. Precisamos da tua lucidez, da tua presença, da tua voz - mesmo que agora tentem calá-la entre paredes frias, barulhentas, molhadas e decisões arbitrárias.

Você nos ensinou que dignidade não se negocia. Que caráter não se curva. Que a verdade pode até ser perseguida, mas nunca enterrada. É isso que nos sustenta agora. É isso que deve te sustentar.

Levante-se todos os dias com a certeza de que sua história não termina aqui. Que seus filhos precisam de você vivo, forte e de cabeça erguida. Que ainda há muito o que atravessar - e nós atravessaremos juntos. A injustiça não vence homens íntegros. E você, pai, segue íntegro.

Com amor, lealdade e esperança,

Carlos.


A detenção de 14 jornalistas durante a sessão de posse ocorrida ontem na Assembleia Nacional da Venezuela não é apenas um episódio lamentável. É um sintoma grave do Estado que passou a enxergar a informação como inimiga. Quando jornalistas são tratados como suspeitos ou criminosos por exercerem sua função, o problema já não é de segurança, mas de abuso de poder.

O Parlamento deveria ser o espaço máximo da transparência. É ali que decisões são tomadas em nome do povo, e é justamente ali que a presença da imprensa se torna indispensável. Impedir registros, vasculhar celulares, bloquear transmissões e deter profissionais sem acusação formal revela uma escolha política clara: controlar a narrativa em vez de prestar contas.

O momento político venezuelano ajuda a explicar, mas não a justificar o ocorrido. Em meio a uma transição de poder marcada por incertezas, isolamento internacional e disputas internas no chavismo, além da forte pressão norte americana, o Legislativo venezuelano opta por uma prática conhecida no Brasil: intimidar para reduzir o olhar externo. A imprensa, sobretudo a internacional, torna-se um risco porque registra aquilo que o discurso oficial não consegue sustentar.

Há ainda um aspecto mais profundo e preocupante. A apreensão de equipamentos e o acesso forçado a dados pessoais não atingem apenas os jornalistas, mas também suas fontes, muitas vezes cidadãos comuns. Esse tipo de ação cria um ambiente de medo coletivo, onde falar, denunciar ou simplesmente relatar fatos passa a ser visto como um ato perigoso.

Não se trata apenas da Venezuela. O ataque à imprensa por representantes do Estado é um fenômeno recorrente nos últimos tempos. Quando o poder deixa de dialogar com a sociedade, passa a dialogar com o silêncio. E o silêncio, sabemos que nunca é neutro, ele sempre favorece quem manda.

A presença de jornalistas estrangeiros entre os detidos agrava ainda mais o episódio. Ao agir assim, o Estado envia ao mundo uma mensagem inequívoca: prefere o isolamento à transparência. Prefere o controle à crítica. Prefere o medo ao debate público.

Na Câmara dos Deputados em Brasília, jornalistas foram violentamente expulsos por ordem do deputado Hugo Motta para impedir o registro da retirada forçada do deputado Glauber Braga da mesa diretora. O objetivo era claro: impedir que a violência política fosse documentada, registrada e tornada pública. A cena, embora em outro contexto e país, dialoga diretamente com o que ocorreu na Venezuela: quando o poder se sente ameaçado pela imprensa, o primeiro alvo é quem registra os fatos.

Ambos os casos revelam a mesma lógica: o poder prefere o silêncio à exposição, o controle à crítica, a força ao debate. Quando isso acontece, pouco importa o discurso oficial, a ideologia declarada ou o país em questão. O método é o mesmo.

É preciso afirmar com clareza: não existe democracia possível sem imprensa livre. A liberdade de imprensa não é concessão, nem favor institucional, é um direito coletivo e constitucional. Quando jornalistas são calados, não é a imprensa que perde; é a sociedade inteira que fica às cegas.

Estados, governos ou lideranças que temem jornalistas, na verdade, temem a história sendo escrita por quem não é seu correligionário.

Por
Eli Mariotti


Antes de mais nada esclareço que este é um artigo de opinião. Os fatos estão em curso e muita coisa ainda será revelada. O conteúdo desta matéria procura fazer uma soma dos fatos, questionamentos na imprensa global e a conjunção de fatores militares. A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, em 3 de janeiro de 2026, não foi apenas uma violação escancarada do direito internacional e da soberania venezuelana. Foi também um evento revelador, e talvez, o mais revelador de toda a história recente do chavismo. Não apenas pelo que aconteceu, mas, sobretudo, pelo que não aconteceu.

Um presidente removido do poder por uma força estrangeira, em um país que se orgulhava de possuir um dos aparatos de segurança mais fechados, politizados e leais do continente, sem resistência militar significativa, sem convocação à guerra popular, sem colapso institucional imediato. Isso, por si só, já exige mais do que indignação: exige análise, e até mesmo explicações.

Não se trata de relativizar a responsabilidade dos Estados Unidos. Washington agiu como agressor, sem mandato internacional, instrumentalizando acusações judiciais e o discurso do combate ao narcotráfico para executar uma operação de caráter claramente geopolítico. Isso está dado. O ponto incômodo e politicamente explosivo para a esquerda é outro:

Uma ação dessa magnitude teria sido possível sem fissuras, rearranjos ou consentimento tácito dentro do próprio chavismo?

UM ESTADO QUE NÃO CAIU E APENAS MUDOU DE MÃOS

Horas após a captura de Maduro, o Supremo Tribunal de Justiça reconheceu Delcy Rodríguez como presidente interina, que já havia sido empossada secretamente pelo Legislativo Venezuelano. O Estado não colapsou. Ministérios seguiram funcionando. O setor petrolífero permaneceu operacional. E ainda 16 petroleiros venezuelanos furaram o bloqueio militar estadunidense e ninguém sabe onde estão agora. As Forças Armadas garantiram a ordem interna, não o confronto externo.

Segundo uma investigação do "Miami Herald", a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez e o seu irmão Jorge promoveram secretamente um plano para uma transição de poder sem Nicolás Maduro, mediada pelo Qatar.

Um grupo de altos funcionários venezuelanos, liderado pela vice-presidente Delcy Rodríguez e pelo seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, promoveu discretamente nos últimos meses uma série de iniciativas para se apresentarem a Washington como uma alternativa "mais aceitável" ao regime de Nicolás Maduro.

Esse detalhe muda tudo. Golpes que destroem regimes produzem caos. O que se viu na Venezuela foi continuidade administrativa com troca de comando.

Delcy Rodríguez não é uma outsider. Advogada, filha de um histórico líder guerrilheiro e figura central do chavismo desde 2003, ela reúne duas características raras no atual cenário venezuelano: legitimidade interna e aceitabilidade externa. Como ministra do Petróleo, construiu interlocução com setores do mercado internacional de energia, incluindo canais indiretos com Wall Street e com a indústria petrolífera dos Estados Unidos.

Sua ascensão atende a interesses objetivos que são, preservar o regime, aliviar sanções, recuperar a economia petrolífera e oferecer previsibilidade institucional a investidores estrangeiros. Para Washington, Delcy representa a possibilidade de negociar com um governo chavista sem o peso simbólico, jurídico e político que Maduro se tornara.

O SILÊNCIO DE DIOSDADO CABELLO E A LÓGICA DA AUTOPRESERVAÇÃO

Se Delcy é a face externa da transição, Diosdado Cabello continua sendo o núcleo duro do poder interno. Ministro do Interior, Justiça e Paz desde 2024, controlador dos serviços de inteligência e um dos homens mais poderosos do PSUV, Cabello também é alvo direto da Justiça norte-americana, acusado de envolvimento em esquemas de narcotráfico e incluído em listas de recompensa milionária.

Seria razoável esperar dele uma reação imediata, ruidosa e radical. Afinal ele também tem um programa na tv venezuelana. Não houve. O silêncio estratégico de Cabello sugere cálculo, não fraqueza. Defender Maduro naquele momento poderia significar arriscar a sobrevivência do regime inteiro e a sua própria.

Em sistemas sob cerco, líderes tornam-se descartáveis quando passam a ameaçar a estrutura que deveriam proteger.

JORGE RODRÍGUEZ: O OPERADOR DO CONSENSO POSSÍVEL

Pouco visível ao público internacional, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional desde 2021 e irmão de Delcy, talvez seja o personagem mais decisivo do pós-Maduro. Ex-ministro da Comunicação, ex-prefeito de Caracas e estrategista da campanha presidencial de 2024, ele é reconhecido como operador político de alto nível, especialista em negociações complexas.

Jorge garante algo essencial: continuidade jurídica. Sua presença assegura que a transição não seja formalmente caracterizada como ruptura interna, mas como rearranjo institucional. Nada parece improvisado. Se houve aceitação tácita da remoção de Maduro, dificilmente ocorreu sem sua engenharia política.

O IMPRESCIDÍVEL FATOR MILITAR: VLADIMIR PADRINO E A ESCOLHA PELO SISTEMA

Nenhuma análise é completa sem Vladimir Padrino, ministro da Defesa desde 2014 e comandante efetivo das Forças Armadas. Símbolo de lealdade histórica ao chavismo por sua atuação em 2002, Padrino sempre foi o fiador da estabilidade militar do regime no Governo Chavez e no governo Maduro.

Justamente por isso, sua postura na invasão de 3 de janeiro de 2026 é decisiva e totalmente questionável. As Forças Armadas não reagiram. Houve um sequestro praticamente inviável em tese e muito bem sucedido em apenas 20 minutos. Não houve baterias antiaéreas, infantaria nas ruas, dos 5.000 Igla-S russos nenhum foi disparado, mobilização nacional, pronunciamentos inflamados conclamando a guerra ou ruptura da hierarquia. A leitura possível é dura, mas coerente: defender Maduro significaria colocar em risco as Forças Armadas e o próprio chavismo.

Entre o líder e o sistema, escolheu-se o sistema.

CORINA MACHADO: A AUSÊNCIA QUE REVELA TUDO

Talvez o dado mais revelador de todo o processo não esteja em quem assumiu o poder, mas em quem foi deliberadamente excluída.

Corina Machado, líder da oposição venezuelana, referência internacional, vencedora do Prêmio Nobel da Paz e símbolo do enfrentamento civil ao chavismo, não foi sequer cogitada pelo staff de Donald Trump como liderança de um governo de transição. Isso, à primeira vista, parece ilógico. Na prática, é profundamente revelador.

Se os Estados Unidos estivessem interessados em uma ruptura real com o chavismo, Corina seria a escolha óbvia. Sua parcial legitimidade internacional, sua oposição ao regime e seu capital simbólico a colocariam como figura natural de uma suposta "transição democrática". A justificativa divulgada na imprensa que Corina não tem apoio popular é improcedente. Se Trump quisesse, ele simplesmente imporia Corina ao povo venezuelano e ponto final.

Mas ela representa exatamente o que Washington não quis naquele momento:
  • ruptura institucional profunda,
  • revisão de acordos herdados,
  • instabilidade política prolongada,
  • e imprevisibilidade econômica.
Corina Machado não oferece garantias ao sistema petrolífero, não assegura continuidade administrativa e não negocia com o velho estado chavista. Para os EUA, ela seria uma incógnita perigosa. Para o chavismo, uma ameaça existencial.

Sua exclusão revela que o objetivo da operação não era supostamente “democratizar” a Venezuela, mas "estabilizá-la" sob novos termos.

CHAVISMO RAIZ OU CHAVISMO DE SOBREVIVÊNCIA?

Falar em “golpe do chavismo raiz” não é acusar o regime de uma traição clássica, com tanques nas ruas. Trata-se de algo mais sofisticado e contemporâneo: um golpe híbrido, em que a força externa executa o ato final, mas encontra terreno previamente preparado por disputas internas, cálculos frios e pactos silenciosos.

Maduro tornou-se um passivo político. Sua permanência inviabilizava negociações, aprofundava o isolamento e ameaçava o sistema como um todo. Sua remoção, ainda que pelas mãos do inimigo histórico, foi tolerada ou conscientemente não impedida por setores centrais do próprio chavismo.

E nisso fica uma lição dura para a esquerda latino-americana. A invasão da Venezuela é um crime internacional e deve ser denunciada como tal. Mas ignorar as contradições internas do chavismo seria um erro ainda maior. Projetos populares não fracassam apenas por ataques externos, mas porque estão sujeitos a apodrecerem quando se confundem com a simples preservação do poder.

Se, após Maduro, o que se consolida é o mesmo sistema com a mesma face, então não houve ruptura histórica, mas reciclagem do poder.

A história ainda está em curso. Mas uma coisa já se impõe com clareza desconfortável:
a queda de Maduro explica menos o imperialismo dos Estados Unidos e mais os limites, as fraturas e os pactos silenciosos de um chavismo que escolheu sobreviver, mesmo que, para isso, tivesse de sacrificar seu próprio líder e excluir sua principal adversária oposicionista.

E essa talvez seja a verdade mais difícil de aceitar.

Por
Eli Mariotti


Na madrugada deste sábado, 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram ataques militares de grande escala contra a Venezuela, atingindo alvos na capital, Caracas, e em outros estados, numa operação que culminou — segundo o presidente americano Donald Trump — na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que teriam sido levados para fora do país sob custódia americana. 

A ofensiva, marcada por explosões e aeronaves voando a baixa altitude, foi anunciada por Trump em uma rede social nas primeiras horas do dia, descrita por ele como um “grande ataque bem-sucedido” e uma resposta a acusações de narcotráfico e “crimes” atribuídos ao governo venezuelano.

Governos latino-americanos, europeus e organizações internacionais reagiram com chocante preocupação e forte condenação, classificando o episódio como uma violação sem precedentes da soberania venezuelana e do direito internacional. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os ataques e a captura de Maduro “ultrapassam uma linha inaceitável”, caracterizando-os como uma afronta grave à soberania e ao multilateralismo, além de generarem um precedente perigoso para a ordem global. 

O presidente Lula convocou convocou uma reunião emergencial e assim como outros países latinos americanos, pediu a convocação do Conselho de Segurança da ONU e ações vigorosas da Organização das Nações Unidas diante do episódio. A Rússia e Turquia, entre outros europeus também exigiram a urgência desta convocação.

Pelo lado venezuelano, o governo denunciou a operação como agressão militar imperialista, decretou estado de emergência nacional e mobilizou seus planos de defesa, afirmando que o ataque constitui uma “violação flagrante” da Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a soberania de um Estado sem autorização do Conselho de Segurança ou outra justificativa legal. 

Caracas declarou que a ação dos EUA ameaça a paz e a estabilidade tanto na Venezuela quanto em toda a América Latina e que os objetivos reais seriam apoderar-se dos recursos estratégicos, especialmente petróleo e minerais, contrariando o direito do povo venezuelano de decidir seu próprio destino.

O impacto político e militar dessa ofensiva é imenso. Analistas lembram que nunca antes na história recente um ataque desta natureza — com uma operação militar direta pela Força Delta e a captura do líder de um país soberano — havia sido perpetrado pelos Estados Unidos na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989. Essa operação inova pelo caráter de ataque direto a um país vizinho sem uma resolução clara de organismos multilaterais e sem uma justificativa aceita universalmente no direito internacional, o que representa um rompimento drástico com as normas que há décadas regem as relações entre Estados no Hemisfério.

A reação da comunidade internacional tem sido diversa, mas majoritariamente contrária à intervenção. Países como Colômbia e Cuba condenaram o ataque e pediram que a comunidade internacional responda com urgência aos eventos. Enquanto isso, alguns líderes — como o presidente argentino Javier Milei — expressaram apoio às ações dos EUA, afirmando que a queda de Maduro representa uma “vitória da liberdade”. Essa divisão evidencia que a crise pode aprofundar tensões regionais já existentes e colocar fronteiras ideológicas à prova, num momento em que o direito à autodeterminação dos povos e os princípios de não-intervenção se veem seriamente ameaçados.

Militares venezuelanos leais ao governo de Maduro apontaram que a resistência à ofensiva será firme, e ao longo do dia relatos ainda desencontrados falavam sobre mobilização nacional e possíveis confrontos. A incerteza sobre o paradeiro real de Maduro e de Cilia Flores — o governo venezuelano, na pessoa da vice-presidente Delcy Rodriguez, exigiu “prova de vida” imediata — alimenta ainda mais a tensão dentro e fora do país.

Especialistas em relações internacionais já indicam que essa ação pode desencadear uma crise de proporções imprevisíveis na região, estimulando debates sobre o papel das grandes potências, a preservação da soberania dos Estados e os limites do uso da força no sistema internacional. Enquanto os Estados Unidos defendem que agiram em nome da justiça contra um regime que consideram ilegítimo e criminoso, muitos governos e organizações veem o ataque como uma perigosa escalada de imperialismo militar, cujo efeito de longo prazo pode ser instabilidade contínua, maior polarização geopolítica e riscos humanitários para a população venezuelana e seus vizinhos.

A América Latina está em guerra.

Eli Mariotti
Imagem: ClickPB
A política paraibana caminha para 2026 como um terreno ainda em ebulição, onde nada está completamente definido e quase tudo está sendo negociado. Sob a superfície das alianças aparentemente estáveis, o que se vê é um jogo de reposicionamento em que o Partido dos Trabalhadores ocupa um lugar paradoxal: forte do ponto de vista simbólico e eleitoral, sobretudo pela ampla aprovação do presidente Lula no estado, mas ainda em busca de uma tradução clara desse capital político no tabuleiro local. A Paraíba segue sendo um dos estados onde o lulismo encontra maior ressonância popular, o que confere ao PT uma centralidade silenciosa, porém decisiva, nas articulações que se desenham.

Esse protagonismo, no entanto, não se converte automaticamente em comando. O PT paraibano, atualmente presidido pela Deputada Estadual Cida Ramos, atravessa um momento de reflexão e tensão interna, tentando equilibrar sua identidade histórica de esquerda com o pragmatismo exigido pelas disputas regionais. A legenda conversa com diferentes campos, observa os movimentos dos aliados tradicionais e evita anunciar decisões precipitadas. Há um cuidado visível em não repetir erros passados, quando alianças garantiram presença institucional, mas custaram caro em termos de narrativa, autonomia e capacidade de se apresentar como sujeito político diante do eleitorado.

No centro desse xadrez estão figuras já conhecidas do eleitor paraibano, mas também personagens cuja força reside justamente na estabilidade. O governador João Azevêdo, do PSB, mantém-se como um dos principais polos de poder, líder das pesquisas para o Senado, com forte inserção administrativa e bom trânsito junto ao governo federal. Seu nome circula tanto em projeções para o Senado quanto como referência da continuidade de um campo progressista ampliado no Congresso nacional.

Caso essa movimentação se confirme, a engrenagem institucional do estado passa a girar em torno de outro ator: o vice-governador Lucas Ribeiro. Ligado ao Progressistas e com trânsito não tão fluido entre o centro político, o empresariado e nenhum na base governista, Lucas representa uma suposta continuidade administrativa sem nenhuma identidade com a esquerda, mas com intenção de ocupar o centro do poder, deslocando o debate do eixo clássico esquerda versus direita para uma lógica de estabilidade e transição geracional.

Esse redesenho do campo governista se cruza com outra articulação de peso: a reeleição do senador Veneziano Vital do Rêgo. Veneziano surge como uma âncora política de longo curso, com base eleitoral consolidada e capacidade de diálogo tanto com o lulismo quanto com setores mais tradicionais da política paraibana, além de registrar o segundo lugar nas pesquisas ao Senado. Sua possível presença na chapa de Cícero Lucena confere densidade nacional e institucional a um projeto que, até pouco tempo, poderia ser visto apenas como local. Ao vincular Cícero a Veneziano, constrói-se uma chapa que combina força municipal, capilaridade estadual e trânsito em Brasília, reduzindo riscos eleitorais e ampliando a competitividade do campo de centro-governo.

Para o PT, essa equação está nos cálculos. Veneziano, deixando de lado rusgas passadas, é um aliado confiável do governo Lula no Senado, alguém com quem o partido dialoga sem atritos ideológicos profundos. Uma chapa Cícero–Veneziano tende a atrair naturalmente o eleitor lulista moderado, criando um ambiente em que o PT pode ser chamado a apoiar sem necessariamente liderar. O risco, novamente, é a diluição: ao aderir a uma chapa desse tipo sem contrapartida prática, e por consequência simbólica, o partido pode reforçar a percepção de que sua função é apenas somar votos e não formular projetos.

Ao mesmo tempo, essa composição pressiona o campo liderado por João Azevêdo e Lucas Ribeiro. A disputa deixa de ser apenas sobre continuidade administrativa e passa a envolver musculatura eleitoral e articulação nacional. Com Veneziano no jogo pela reeleição, 2026 tende a se transformar menos em uma eleição de enfrentamento ideológico e mais em uma competição entre arranjos políticos amplos, todos orbitando, de alguma forma, o lulismo, mas sem que o PT seja necessariamente o centro visível dessas construções.

Nesse cenário, a hipótese de múltiplos palanques para Lula na Paraíba ganha contornos ainda mais claros. O presidente aparece como ponto de convergência, enquanto as disputas reais se dão em torno de quem administra o poder local e como esse poder se organiza. O contraste entre a força eleitoral do PT nas eleições presidenciais e sua dificuldade em liderar projetos majoritários estaduais se aprofunda, revelando um partido grande demais para ser ignorado e, paradoxalmente, pouco presente na linha de frente do debate.

Pesquisas de intenção de voto reforçam esse quadro: nomes associados à continuidade, à estabilidade e à articulação institucional largam em vantagem, enquanto o discurso de ruptura perde espaço. Para a esquerda, isso impõe um desafio adicional: como disputar hegemonia política em um cenário que privilegia o consenso e penaliza o conflito programático?

Às vésperas de 2026, o Partido dos Trabalhadores na Paraíba parece viver um momento decisivo de autoavaliação. Entre a força simbólica do lulismo, a ascensão de figuras de direita como Lucas Ribeiro, a consolidação de uma possível chapa Cícero–Veneziano e a permanência de lideranças tradicionais, o partido caminha sobre uma linha estreita entre governabilidade e identidade. O desfecho dessa travessia não definirá apenas alianças eleitorais, mas o lugar que a esquerda ocupará no imaginário político paraibano nos próximos anos.


A megaoperação policial que varreu o Complexo da Penha e do Alemão nesta terça (28) entra para a história não pela eficácia, mas pelo horror. Os mais de 120 mortos, no que se tornou a ação mais letal da história do Rio de Janeiro mostra que por trás dos números, que o governo estadual tenta justificar como “confrontos” com o tráfico, há um rastro de dúvidas sobre as reais motivações, a seletividade da força e o preço pago em vidas humanas em plena temporada eleitoral.

Como se não pudesse ficar pior, no dia seguinte, os próprio moradores tiveram que resgatar dezenas de cadáveres nas matas próximas ao entorno da operação. Uma obrigação legal do Estado.

O governador Cláudio Castro, expressão da extrema direita e da política de extermínio travestida de “lei e ordem”, promoveu um verdadeiro *terrorismo de Estado*. Enquanto ele acusa o tráfico de praticar “narcoterrorismo”, o que se viu foi o Estado aterrorizando as comunidades, com um contingente de 2.500 policiais mobilizados contra uma única região Rio e uma única facção — o Comando Vermelho.

A pergunta que ecoa é simples e perturbadora: por que tamanha concentração de força? Por que a Penha/Alemão sob o domínio do CV e não uma ação mais ampla que atingisse também outras facções, como o Terceiro Comando Puro ou os Amigos dos Amigos? E, principalmente, por que não enfrentar as milícias — grupos formados em sua maioria por agentes de segurança da ativa, da reserva ou exonerados (expulsos) — que controlam vastos territórios do estado, elegem representantes nas casas legislativas, assim como prefeituras e são tratados com condescendência pelo poder público no estado?

Há uma suspeita grave pairando sobre o ensanguentado ar carioca, o uso do aparato policial como instrumento político para limpar áreas dominadas por facções rivais e abrir caminho para a expansão miliciana. Essa dinâmica perversa transforma a violência em ferramenta eleitoral e o sofrimento das favelas em palanque. Não à toa, as milícias, assim como as facções, já se infiltraram na política institucional, tecendo uma rede de poder que une o crime, a economia ilegal e o Estado.

Em meio as mortes, o governador politizou ainda mais o episódio, afirmando que o Rio “estava sozinho” e não recebeu apoio do governo federal. A acusação soa oportunista: Castro nunca solicitou ajuda ao Governo Federal e foi um dos mais duros críticos da PEC da Segurança Pública, que justamente buscava integrar esforços entre estados e União. O discurso de isolamento, portanto, registra mais uma peça de campanha do que um fato administrativo.

É justamente essa integração com o Governo Federal que se faz urgente e indispensável. O crime organizado já não é mais local — ele é interestadual e internacional. O enfrentamento eficaz exige medidas conjuntas: inteligência policial compartilhada, rastreamento de fluxos financeiros, controle integrado de fronteiras, coordenação das forças de segurança e políticas sociais permanentes que ocupem o espaço deixado pela ausência do Estado nas comunidades. Sem essa cooperação estratégica, as operações continuarão sendo paliativos brutais, produzindo mortes sem atingir o coração do problema.

A Operação Carbono Oculto foi uma megaoperação deflagrada em 28 de agosto de 2025 que tinha como alvo um sofisticado esquema de fraudes, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal no setor de combustíveis, vinculado à facção Primeiro Comando da Capital (PCC) e não teve uma morte sequer, seja do lado das forças de segurança ou do crime.

Essa operação é um importante exemplo que marca um passo decisivo no combate ao crime organizado, pois mostra como grupos criminosos passaram a se infiltrar e se beneficiar não só de atividades típicas de tráfico, mas também da economia formal — como o setor de combustíveis e o mercado financeiro — operando de maneira nacional e sofisticada.

A suspeita de que a operação no Complexo da Penha e do Alemão teve motivações eleitorais é inevitável. 
- O Doca, o chefe do tráfico e objetivo da operação nos complexos, foi preso ou morto?
- Em que circunstâncias houve tantas execuções nas matas do entorno dos complexos?
- O Complexo do Alemão e da Penha estão livres do tráfico? O estado retomou os territórios?
Não há respostas para estas perguntas nas declarações do Cláudio Castro ou do comando da operação.

Em épocas de disputa por votos, a vida nas comunidades parece perder valor. A ação na Penha soa como um recado político — um espetáculo sangrento voltado a setores do eleitorado que aplaudem o discurso da violência como solução, enquanto as famílias das vítimas choram sem voz nem justiça.

No Rio, não existe uma face do estado que ouça estas vozes, que vivem assustadas e com medo. O Crime não pode ser mais forte que o Estado, que também não pode ser mais criminoso que o Crime.

A história mostra que regimes autoritários sempre tentam vender força como sinônimo de ordem. Em 1929, o ditador fascista Benito Mussolini declarou ter “eliminado a máfia”. Quase um século depois, a máfia continua viva — assim como o crime organizado e as estruturas de poder que se alimentam dele.

Da Penha e do Alemão emerge um grito que o Brasil não pode ignorar, está mais do que na hora da população, especialmente as comunidades reféns do crime e da violência estatal, banir da política os extremistas que fazem do sangue um projeto de poder. O voto é secreto, mas a consciência é pública.

No entanto, a medida mais vital para evitar mortes é a ocupação pós-confronto. A presença do estado não pode terminar com o último tiro. É imperativa a entrada imediata e massiva de políticas públicas nas comunidades em poder do crime: segurança comunitária(UPPs), escolas, postos de saúde, programas de renda e acesso à Justiça.

Fato é que morreram 4 policiais, um deles com apenas 40 dias de corporação. A pergunta é: Quantos criminosos e quantos civis inocentes foram assassinados lado a lado nesta operação desastrada e trágica? O Estado irá fazer essa separação na contagem dos mortos?

É preciso lembrar que, além da urgente mudança nas políticas de Segurança Pública, como a PEC da Segurança que o Congresso tem obrigação de aprovar, é também nas urnas, que o país pode, enfim, romper o ciclo de fascismo, conivência e morte — e escolher um caminho onde segurança não signifique massacre, e a política não continue lavada no sangue do seu próprio povo.

É preciso banir da política a gana assassina da extrema direita, que tem na figura do Governador Cláudio Castro, um de seus mais significativos expoentes no Rio de Janeiro.

Eli Mariotti



Um clima de alianças estratégicas marcou o encontro estadual do Partido Rede Sustentabilidade (Rede) da Paraíba, realizado no último sábado. O evento, que teve como cerimônia central a passagem da gestão atual para uma nova direção, tendo sido eleitos Eduarda Almeida e Gerson Vasconcelos, como atuais porta-vozes (presidentes) estaduais da Rede Sustentabilidade na Paraíba.

A nova direção foi oficializada em um encontro em João Pessoa, neste sábado (25/10) após o qual os novos dirigentes e a formação partidária foram apresentados. Vale lembrar que Cristiane Almeida é a presidenta que deixa o cargo e passou a faixa pra filha Duda Almeida.

Transformou-se o palco num espaço mais amplo, reunindo representantes de legendas federadas e progressista, ecoando discursos uníssonos em defesa da justiça social, do fortalecimento das mulheres na política e do projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026.

A solenidade, que atraiu olhares além-muros do partido anfitrião, contou com a presença de figuras emblemáticas da esquerda paraibana. Representando o Partido dos Trabalhadores, compareceu o jornalista Eli Mariotti, secretário de Desenvolvimento Econômico da legenda no estado, convocado pessoalmente pela primeira mulher presidenta estadual do PT, a deputada Cida Ramos, para ali estar como representante do partido.

No evento defendeu a união de todos os partidos da esfera progressista para a reeleição do Presidente Lula, ao mesmo tempo em que reforçava a extrema necessidade do aumento de parlamentares da esquerda na AL, no Congresso e no Senado que fossem inequivocamente, a base fiel do um provável governo progressista na próxima gestão federal.

Como secretário de Desenvolvimento Econômico do PT Paraibano e também gestor da Feira Popular Paraibana, sua presença não foi meramente protocolar, assumiu como porta voz das empreendoras e empreendedores da economia criativa e popular e convocou a todos os partidos presentes para que se unissem em trabalhar para aprovar políticas públicas para as mulheres deste segmento econômico, cujo gênero ser faz presente em pelo menos 90% desta categoria.

O Partido Verde (PV). esteve presente, na pessoa do presidente estadual do PV, sargento Denis, reforçando os laços que unem as siglas da Federação da qual o PT faz parte.

Tárcio Teixeira, representante do PSOL paraibano e presidente da federação partidária que abriga o próprio Rede Sustentabilidade, também estava presente e discursou. A cena era clara: no tabuleiro da política paraibana, as peças se movem de forma coordenada, e o evento do Rede serviu como um momento de congraçamento e reafirmação de objetivos comuns entre essas forças progressistas.

O vice-governador Lucas Ribeiro compareceu rapidamente e antes da cerimônia começar, fez um breve discurso de pré-candidato. Também esteve presente Léo Bezerra, vice-prefeito de João Pessoa e que compôs a mesa.

O protagonismo feminino foi um dos eixos centrais dos discursos que ecoaram no encontro.

O empoderamento das mulheres como conquistadoras de seu espaço na política e em todos os setores da sociedade foi exaltado como um valor inegociável para o campo progressista. Os oradores, um após o outro, entrelaçaram essa bandeira com a defesa intransigente da justiça social e, sobretudo, com um apelo fervoroso pela reeleição do presidente Lula, visto como o pilar central para a sustentação dessas conquistas em nível nacional.

A ambição dos presentes, no entanto, não se limitou ao Planalto. Os discursos colocaram na mesa uma necessidade pragmática e urgente: a de trabalhar incansavelmente para ampliar a bancada de parlamentares progressistas.

O objetivo declarado é ambicioso – igualar ou, preferencialmente, dominar a correlação de forças no Congresso Nacional e em especial, na Assembleia Legislativa da Paraíba. A mensagem era de que a vitória presidencial é fundamental, mas terá muitas dificuldades sem uma base parlamentar sólida que permita desobstruir a agenda do governo e travar as batalhas legislativas que se avizinham.

O encontro do Rede Sustentabilidade da Paraíba, portanto, foi mais do que uma simples troca de comando partidária. Foi um microcosmo da estratégia da esquerda paraibana.

Eli Mariotti




A notícia de que a venezuelana María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz surpreendeu o mundo e supostamente até mesmo ela, que declarou: “Estou chocada”— e confesso que também me chocou. Não pelo estranho reconhecimento em si, mas pelo simbolismo político que essa escolha carrega.

Mas se eu fiquei chocado, será que Corina estava realmente chocada? Ora, se ela foi indicada para o prêmio por Marco Rubio, que todos sabemos quem é, como ela não saberia disto? A tão falada influência dos governos norte americanos no Nobel é de conhecimento geral no planeta. Mas porque o Nobel, que é europeu e tem influência direta da União Europeia, se deixa dirigir pela política externa norte americana?

Será por subserviência? Não creio. O fato é que os interesses norte americanos se enquadram exatamente na visão colonial que a Europa tem do chamado Terceiro Mundo, nesse caso em especial, a América Latina. 

A cada nova premiação, o Comitê Nobel revela mais de si do que de seus laureados. E neste caso, o prêmio parece dizer menos sobre a paz na Venezuela e mais sobre o olhar com que a Europa ainda enxerga a América Latina: um olhar de tutela, de missão civilizatória, de poder moral sobre o destino alheio.

O argumento oficial para o prêmio é conhecido: Corina teria sido agraciada por sua “luta pacífica pela democracia” e pela “resistência ao autoritarismo”. Mas, na prática, trata-se de uma figura cuja atuação política foi marcada pela polarização, pela instabilidade e pelo alinhamento direto com os interesses de Washington e Bruxelas. 

É portanto, legítimo questionar se o Nobel, nesse caso, premiou uma defensora da paz — ou apenas uma peça simbólica na engrenagem geopolítica ocidental.

Não entro aqui no mérito do governo Maduro. O que observo é o fato histórico e sociopolítico de que, mesmo com todas as dificuldades, ele tem apoio majoritário do povo venezuelano — o que o torna, ao menos sob o ponto de vista da soberania, uma expressão legítima de um projeto nacional. 

A oposição, por sua vez, tem sido minoritária e sempre dependente do respaldo externo. Então, quando a Europa escolhe Corina como “símbolo da paz”, o que ela faz é legitimar uma oposição que internamente não conseguiu legitimidade nas urnas. Isso não é diplomacia, é interferência política simbólica.

E além de tudo, esse prêmio ainda pode incentivar ou até mesmo legitimar o assédio militar que os Estados Unidos do Governo Trump vêm fazendo a Venezuela. Fato que ao contrário de promover a paz, pode gerar uma crise geopolítica de proporções inimagináveis na América Latina.

Essa não é a primeira vez que o Nobel da Paz se torna um instrumento político. Henry Kissinger o recebeu em 1973, mesmo sendo o estrategista de bombardeios no Vietnã. Barack Obama o ganhou antes mesmo de governar, como prêmio pela esperança, por ser o primeiro presidente negro do Estados Unidos. 

Aliás tenho sérias sérias suspeitas que a direita global se apropriou do identitarismo aí. Mas isso é assunto para outro artigo, e quando eleito presidente, Obama na prática não promoveu a paz. Em alguns momentos foi o contrário.

E é verdade que Yasser Arafat também recebeu o Nobel, em 1994, mas sua luta não pode e nem deve ser comparada a esses casos. Arafat ainda representa uma resistência histórica por um Estado palestino, uma causa humanitária e de justiça social que transcende fronteiras e desafia todas as escalas convencionais da política mundial. 

O Oriente Médio nesse contexto, é um território de dores e de resistências que fogem a qualquer paralelo. Arafat não foi premiado por conveniência, mas reconhecido por uma luta que até hoje, continua sendo travada no campo da dignidade humana e contra o genocídio palestino.

Já no caso de Corina, o prêmio não parece traduzir um gesto de reconhecimento à paz, mas um recado político. O Nobel da Paz historicamente reflete os dilemas do próprio Ocidente. Ora tenta reparar sua consciência, ora reafirma sua influência. 

O caso da Venezuela expõe exatamente isso — o uso do prestígio moral europeu como ferramenta de interferência nos rumos latino-americanos.

O colonialismo europeu, afinal, nunca desapareceu. Apenas trocou de roupa. A Europa que dividiu o continente em 1494 no Tratado de Tordesilhas, que saqueou o ouro do Brasil e a prata de Potosí, que impôs sua fé e sua língua aos povos nativos, continua hoje impondo sua narrativa e seu julgamento sobre o que é democracia, liberdade e paz.

Depois das independências latino americanas, os grilhões mudaram de forma, mas não de essência. No século XIX vieram os empréstimos britânicos e as ocupações francesas sob o pretexto de cobrar dívidas. No século XX, o colonialismo vestiu terno e gravata, FMI, Banco Mundial, planos de ajuste e doutrinas econômicas importadas que submeteram nossos povos à dependência. 

E no século XXI, o colonialismo se tornou simbólico — o poder de quem narra o mundo. Quando a BBC, o Le Monde ou o El País decidem o que é democracia ou autoritarismo na América Latina, estão em essência reafirmando a velha hierarquia de quem fala e quem é falado.

Premiar Corina Machado, é portanto, reafirmar o mito civilizatório europeu. A ideia de que a América Latina precisa ser “corrigida e ensinada”, guiada pela razão ocidental. 

A mesma arrogância que justificou a catequese indígena e a pilhagem de Potosí agora se disfarça de diplomacia humanitária e de reconhecimento moral. A retórica muda, mas o gesto é o mesmo, a negação da soberania e da maturidade política de nossos povos latino americanos.

Enquanto isso, seguem explorando o lítio, o nióbio, a Amazônia, o gás da Bolívia e a soja brasileira. Continuam comprando barato e vendendo caro, ensinando “democracia” e praticando protecionismo. 

E agora, premiam opositores de governos que não se curvam aos seus interesses estratégicos. O Nobel, nesse contexto não é uma celebração da paz, não passa de uma extensão da política externa colonialista.

Por isso, repito, quando Corina declarou estar “chocada” com o prêmio, confesso que me identifiquei. Também estou. Mas o meu choque é outro, meu choque é perceber como o velho colonialismo europeu disfarçado de reconhecimento moral, continua decidindo quem são os heróis e os vilões da América Latina.

E enquanto isso, seguimos tentando ser ouvidos — não como discípulos, mas como povos livres e auto determinados.

Por Eli Mariotti
Imagem criada por IA - Papo de Jacaré

O anúncio de tarifas punitivas de 20% a 50% sobre produtos brasileiros por Donald Trump, respaldado pelo Secretário de Estado Marco Rubio, representa muito mais que uma guerra comercial. É o componente econômico de uma ofensiva política orquestrada contra a democracia brasileira, cujo marco fundamental foi o golpe de estado do 8 de janeiro. Esta investida, que tem como peça do jogo, as sanções pessoais ao Ministro do STF Alexandre de Moraes, expõe uma estratégia multifacetada para intimidar as instituições que garantiram a sobrevivência da República brasileira e influenciar fortemente as eleições de 2026.

DO TARIFAÇO ÀS SANÇÕES: A ESCALADA DO ASSÉDIO ESTADUNIDENSE

A causa imediata do "tarifaço" trumpista é eleitoral - buscar votos no "Cinturão da Ferrugem" americano - mas sua motivação profunda é política. O alvo declarado do Secretário de Estado Marco Rubio, antigo crítico do Brasil e aliado de Jair Bolsonaro, é o Ministro Alexandre de Moraes. As sanções pessoais impostas ao magistrado e sua esposa, sob a acusação espúria de "perseguição política", constituem interferência inédita e grave na soberania judicial brasileira. Moraes, que como presidente do TSE garantiu eleições limpas e como relator do STF desarticulou os financiadores do 8 de janeiro, tornou-se o símbolo da resistência democrática que o bolsonarismo quer ver destruída.

A resposta do governo Lula foi um caso de escola na defesa da soberania. Ao acionar a OMC e denunciar a violação do direito internacional, Lula não defendia apenas produtos, mas o princípio de autodeterminação dos povos. A postura firme, recebendo apoio transversal no Congresso e na maioria inquestionável da população brasileira, projetou o Brasil mundialmente como bastião da democracia, contrastando com o governo Trump, que na figura do cubano Secretário de Estado, acolhe abertamente a agenda dos derrotados no 8 de janeiro. Sim, porque a consolidação das eleições presidenciais de 2022, ocorreu no dia 8 de janeiro de 2023.

O PARADOXO E A ARMADILHA: INFLAÇÃO E O ACENO ENGANOSO

Ironia do conflito, as tarifas trouxeram alívio involuntário à inflação dos alimentos no Brasil, ao segurar parte da commodity no mercado interno. Este respiro econômico, porém, é mero efeito colateral diante da armadilha maior revelada no "aceno" de Trump a Lula durante a Assembleia Geral da ONU. O gesto, que provocou inédita frenesi midiática, era isca para forçar reunião na Casa Branca onde Lula seria pressionado a negociar suas instituições - especificamente, o STF e a pessoa de Moraes - em troca de alívio comercial.

O Itamaraty, já escaldado pelas humilhações impostas ao Presidente da Ucrânia e ao Presidente da África do Sul, busca realizar esta reunião em local neutro , ou em último caso, por telefone ou por conversa de vídeo. E as negociações, se ocorrerem, serão em campo minado. Lula focará em Aviação (Embraer-Boeing), Aço (isenções tarifárias) e Tecnologia (regulação de Big Techs) - setores de interesse nacional. Mas Trump e Rubio tentarão impor pauta política ideológica com benefícios ou até mesmo anulação da sentença a Jair Bolsonaro. Ceder seria legitimar a interferência estrangeira e enterrar a soberania nacional.

Por outro lado, Trump é conhecido por ser um excelente negociador as portas fechadas, o que pode ser usado por Lula para oferecer um confortável aceno no setor das minerações de terras raras.

O DESESPERO BOLSONARISTA E A FRAQUEZA EXPOSTA

O reconhecimento tácito por Trump, colocando Lula como interlocutor legítimo no seu discurso da ONU, foi terremoto no já frágil quartel-general bolsonarista. A narrativa de "Trump salvador" desmorona quando o próprio ídolo trata com o governo que chamam de "ditadura". Em Washington, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo foram vistos em delírio de desespero, tentando sem sucesso convencer aliados republicanos de que o gesto era "falso". A cena mostrou a completa irrelevância política a que foram relegados.

Claro que a expressão de Marco Rubio na plateia da ONU, não foi nada amigável. Mas Trump é um empresário por excelência. Para ele, a ideologia da extrema direita não passa de uma ferramenta de negócios. Portanto, seria talvez de imaginar que a influência de Marco Rubio no gabinete de Trump, não seja assim tão inquestionável.

Ou que talvez, os efeitos negativos das tarifas dentro do próprio território norte americano, esteja fazendo com o Secretário de Estado veja diminuir sua influência sobre o mandatário da Casa Branca.

Enquanto isso, no Congresso Brasileiro, a base bolsonarista, que já perdera força com a prisão de Jair Bolsonaro e seus financiadores, vê definhar sua última tábua de salvação internacional.

Os eventos recentes confirmam que a investida de 8 de janeiro não terminou. Apenas migrou para uma guerra híbrida, travada em novas frentes: econômica (tarifas), diplomática (sanções) e de desinformação (a máquina de fake news amplificada por figuras internacionais).  As sanções a Moraes são, neste contexto, um 8 de janeiro por procuração, na tentativa de conseguir por pressão externa, o que não se conseguiu com quebradeira e terrorismo doméstico.

Isso explica o desespero bolsonarista em Washington e no Congresso, depois da abertura ao diálogo que Trump disponibilizou publicamente a Lula na ONU. Trump não é conhecido por “rasgar seda” para quem ele considera adversários. Portanto, há uma nova luz no fim do túnel.

O GAMBITO DA RAINHA E A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA COMO ÚNICO CAMINHO

No tabuleiro deste xadrez geopolítico, as possibilidades de sucesso nas negociações são tênues, mas possíveis. Até agora, o governo Trump tem movido só os peões para pressionar o Brasil. Mas depois da ONU, o jogo agora é das Rainhas e Reis. Cavalos, bispos e torres fazem apenas movimentos estratégicos. Nestas peças leia-se o Itamaraty e o Departamento de Estado dos EUA.

No Xadrez o Gambito da Rainha é um movimento que sacrifica uma peça para garantir a vitória no jogo pela Rainha. Qualquer avanço dependerá da capacidade brasileira em separar comercial do político, mas possível, já que Trump declarou que negocia com quem ele gosta e a suposta “química” com Lula indica isso.

No entanto, a negociação entre Lula e Trump é um jogo de alta complexidade, onde o Brasil busca converter uma crise imposta em oportunidades concretas, defendendo intransigentemente sua soberania.

Trump utiliza o "tarifaço" e as sanções ao ministro Alexandre de Moraes como um gambito – um sacrifício inicial para forçar o Brasil a ceder em suas instituições, especialmente as investigações do 8 de janeiro.

A defesa e contra ataque de Lula se baseia na defesa Incondicional da soberania, isolando o tema judicial, tratando-o como uma linha vermelha intocável.

As negociações devem focar numa agenda de oportunidades estratégicas. Lula redireciona o diálogo para interesses nacionais vitais, focando em revogação das tarifas do aço, alumínio e etanol.

Na aviação, retomar a parceria estratégica entre Embraer e Boeing e na tecnologia, atrair investimentos de Big Techs em data centers e pesquisa radicados no Brasil, sem abrir mão da sua regulamentação imprescindível para os interesses brasileiros, tanto econômicos como políticos. E finalmente, a trunfo magnífico das Terras Raras, oferecendo este ativo estratégico – crucial para a tecnologia de ponta e a defesa dos EUA – não como commodity bruta, mas como base para uma parceria que inclua refino e industrialização no Brasil, com transferência de tecnologia.

O resultado tático será, caso a postura firme de Lula se mantenha e somada ao trunfo das terras raras, esvazie politicamente o bolsonarismo e coloca o Brasil em posição de barganha única. O sucesso será medido pela capacidade de obter avanços setoriais sem negociar um milímetro da soberania nacional, transformando uma investida hostil em alavanca para o desenvolvimento.

OS DESDOBRAMENTOS, PORÉM, JÁ MOLDAM O CENÁRIO PARA 2026

A postura intransigente na defesa de Moraes e do STF fortalece Lula perante o eleitorado que vê na democracia valor inegociável. Mostra que sua liderança é dique contra o avanço do autoritarismo global. Para a oposição bolsonarista, é o fim do mundo: seu principal aliado externo negocia com o governo que juram destruir.

A lição é clara: a soberania brasileira esteve e ainda está sob ataque, mas cada tentativa de quebrá-la - seja pelo terrorismo de 8 de janeiro ou pelas sanções de Washington - só tem servido para fortalecer as instituições e unir o país em torno da defesa incondicional de sua democracia. O Brasil não negociará seus juízes, suas leis ou sua verdade em troca de tarifas. Essa é a linha que não será cruzada - e que define o futuro não apenas do governo Lula, mas da própria continuidade democrática brasileira.

E o maior gambito sacrificado será Jair Bolsonaro e o bolsonarismo, em favor da jogada maior da Rainha, que é a Democracia Brasileira.

Eli Mariotti



O Partido dos Trabalhadores (PT) da Paraíba, sob a nova gestão liderada pela Deputada Estadual Cida Ramos, enfrenta um cenário político desafiador e decisivo em 2026. Com a missão de reposicionar a legenda no estado, o partido precisa equilibrar alianças estratégicas, garantir protagonismo nas decisões políticas e fortalecer sua identidade programática. Este artigo analisa com humildade as dinâmicas internas e externas em todos os cenários possíveis que moldarão o futuro do PT na Paraíba.

O NOVO CENÁRIO POLÍTICO NACIONAL E SEUS REFLEXOS NA PARAÍBA

Em 2022, o PT conquistou a presidência da República com Luiz Inácio Lula da Silva, estabelecendo uma ampla coalizão que incluiu partidos de centro e centro-direita. Uma aliança que tem sido ao longo de quase três anos da gestão Lula, impregnada de atropelos e desavenças em votações dos projetos governamentais tanto na Câmara quanto no Senado Federal.

No entanto, o Centrão ao aliar-se ao bolsonarismo na Câmara Federal, tentou aprovar a chamada "PEC da Bandidagem", que visava blindar parlamentares contra investigações criminais, que além de criar dois códigos penais, uma para o cidadão comum e outro para a elite política, foi implodida por dentro e por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Essa derrota, que com certeza teve como maior motor a mobilização popular nas ruas, pela opinião pública de esquerda ou não, enfraqueceu o Centrão e mais ainda o bolsonarismo. Este importante fato político somado as defecções da base aliada de Lula, abriu espaço para uma candidatura presidencial com bases mais progressistas em 2026.

Na Paraíba, é preciso que se diga, se faz necessário que a nova direção do PT busque aproveitar esse momento para fortalecer a presença política do partido, distanciando-se das alianças fisiológicas de gestões passadas e alcance um protagonismo mais alinhado com sua base social e seus princípios programáticos.

CIDA RAMOS, A PRIMEIRA MULHER ELEITA PRESIDENTA ESTADUAL DO PT-PB E A RESPONSABILIDADE QUE ISSO REPRESENTA

Eleita presidenta do PT da Paraíba, Cida Ramos se tornou a primeira mulher a comandar a legenda no estado. Sua gestão que inicia, é vista como uma oportunidade sólida para reposicionar o partido, unificar suas alas internas e estabelecer uma estratégia eleitoral sólida para 2026. Em declarações recentes, Cida enfatizou a importância do PT ter voz ativa nas articulações políticas, garantindo que qualquer aliança respeite a identidade e os princípios do partido. É preciso que isso se reflita rm ações e e estratégias do partido à partir de agora.

A unificação do partido no estado não representa abrir mão de sua diversidade de opiniões e visões, representadas tradicionalmente pelas diversas correntes internas. Mas com certeza passa pelo pleno diálogo interno, sentando a mesa com todas as tendências, ouvindo as demandas de todos o setores do partido e encontrar, aí sim, o caminho da Unidade Partidária, de modo que todos estejam na mesma sintonia, mesmo que com todas as suas diferenças.

Sem me arrogar a ser um professor de gestão partidária aqui, e tenho muito a aprender sobre isso, ouso dizer do alto da minha ignorância, que o melhor caminho é registrar as diferenças internas, oferecendo a todas as correntes, a equidade no atendimento de suas demandas, objetivando sempre o fortalecimento do Partido na Paraíba.

Não é fácil. Mas é possível, assim como foi possível o partido ter uma presidenta mulher em um estado nordestino. A responsabilidade é grande.

PROTAGONISMO. ALIANÇAS ESTRATÉGICAS E CONDIÇÕES PARA APOIO EM 2026

É necessário e amplamente reivindicado por sua militância e filiados que o PT da Paraíba adote uma postura muito mais criteriosa que as gestões anteriores com relação às alianças para 2026. A legenda tem que buscar ou esperar parcerias que compartilhem de seu compromisso com a democracia, justiça social e desenvolvimento sustentável.

No entanto, qualquer apoio a uma chapa majoritária não pode ser automático, como tem sido tratado pelo Governador João Azevedo e até mesmo lideranças municipais, como o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena. Não é possível, muito menos aceitável que essa postura se mantenha e nem que negociações se façam as escuras e sem transparência, como tem acontecido no PT-PB nos últimos anos, que resultou em privilégios pessoais para alguns quadros do partido, ou pior ainda, que o partido seja instrumentalizado para projetos políticos pessoais, abrindo caminho para a descrédito no PT da Paraíba.

Essas práticas se não coadunam com os princípios históricos do partido, que é conhecido pela tão bem aplicada Democracia Petista. Com suas falhas é claro, mas sempre se aperfeiçoando.

É fundamental que o PT negocie sua participação na política paraibana de forma equitativa, buscando garantir pelo menos uma vaga na chapa majoritária, seja como vice-governador ou como um dos senadores, nem que seja a segunda vaga. Existe sim, essa possibilidade real.

Além disso, é essencial que o programa de governo das alianças inclua questões programáticas do PT e que essas áreas sejam conduzidas por quadros capacitados do partido, em qualquer setor da administração, seja no primeiro, segundo ou terceiro escalão. E o partido tem que ter lugar em todas estas três camadas. O objetivo é garantir que o PT não apenas ocupe espaços de poder, mas também tenha influência real na implementação de políticas públicas.

O CASO ADRIANO GALDINO: DESAFIOS E OPORTUNIDADES

Adriano Galdino, atual presidente da Assembleia Legislativa da Paraíba e filiado ao Republicanos, manifestou interesse em disputar o governo do estado em 2026. Ele também indicou que consideraria mudar de partido caso fosse convidado pelo presidente Lula para concorrer pelo PT.

Esse cenário apresenta ao mesmo tempo, contradições, desafios e oportunidades para o PT da Paraíba. Por um lado, as declarações recentes de Galdino, claramente pejorativas a atual Presidenta do partido consequentemente geraram resistências internas, mas por outro lado, a reação do PT exige cautela nas negociações das alianças, podendo até mesmo aventar, mesmo que a uma certa distância de ser possível, a adesão de Galdino ao partido, fato que poderia fortalecer a legenda em termos de representatividade e apoio político. Não se pode virar as costas a uma liderança política de peso, sem falar que a preço de hoje, Cícero é uma possibilidade de alianças, assim como Lucas Ribeiro, que no caso já foi citado como primeira opção por parte da liderança do partido. Haja visto as presenças e os discursos na posse da atual gestão.

O que é fundamental não esquecer, é o fato de que cada diretório estadual tem seu lugar de fala e autonomia, garantida pelo Estatuto, mesmo que a instância superior tenha prioridade e queira ir por caminhos diferentes, isso não invalida posicionamentos locais e o correto é a mesa de negociações, sem deixar de escutar a voz da militância das ruas e seus filiados.

É preciso que a nova direção do PT Paraíba esteja aberta ao diálogo com todos na política, excluindo a extrema direita, é claro, independente de declarações impensadas ou feitas no arroubo de um sentimento de indignação momentânea. Afinal a reeleição de Lula é o foco central do PT de todo o país, portanto, apoios não podem ser relegados a rejeição, pura e simplesmente.

Cida Ramos, em entrevista recente ao ReporterPB, afirmou: "É da política e devemos estar sempre abertos ao diálogo, mesmo que em algum momento se mostre impossível atender à demanda específica”.

UM CENÁRIO GERAL DE POSSIBILIDADES DE ALIANÇAS DO PT NA PARAÍBA EM 2026

Na possibilidade de apoio a uma chapa definida pelo governador João Azevêdo (PSB) ou seu grupo político, nota-se que o PSB é aliado histórico do PT, embora com tensões em alguns momentos. E há grande possibilidade do PT negociar a vice-governadoria ou uma vaga ao Senado, mesmo que seja a segunda vaga.

Mas não se pode mais negociar com João na forma como tem sido feito nas últimas eleições. Sempre existiu a impressão de que estes interlocutores já contavam o apoio automático do PT. Isso acarretou enormes prejuízos ao partido .Em qualquer negociação é preciso incluir pautas do PT no programa de governo, assim como a gestão de secretarias estratégicas (ex.: Desenvolvimento Humano, Cultura, Educação, Agricultura Familiar).

E um possível diálogo com Adriano Galdino (atualmente Republicanos, presidente da ALPB) que já manifestou interesse em disputar o governo e até cogitou migrar para o PT, mesmo que não seja provável uma candidatura nesse contexto do atual cenário político paraibano, o fato é que não deixa de ser uma oportunidade para o partido ensejar seu caminho para o protagonismo político no estado.

Com Galdino, existe a possibilidade de candidatura própria do PT ou composição em que o partido garanta espaço relevante (vice ou Senado). Apesar das resistências internas no PT, é preciso ter abertura ao diálogo, com garantias programáticas e respeito à identidade petista.

POSSÍVEL REAPROXIMAÇÃO COM VENEZIANO VITAL DO RÊGO (MDB)

Veneziano foi vice-presidente do Senado, teve o apoio do PT em sua candidatura a Governador na Paraíba em 2022, tem proximidade com Lula e o PT Nacional, sempre apoiando as pautas do Governo Federal no Senado. Há a possibilidade de composição majoritária, especialmente se o MDB decidir apostar em candidatura própria ou em aliança estratégica, desde que exista uma definição clara de compromissos progressistas e espaço para quadros do PT na gestão.

UMA ALIANÇA TRADICIONAL COM A FEDERAÇÃO DO PT, PCDOB E REDE, INCLUINDO O PSOL

Além das questões de viabilidade eleitoral e força política nas alianças, essa é uma união, que em tese, não há basicamente conflitos. São 3 partidos de uma mesma federação e o outro com afinidade programática, facilitando a convergência de propostas sociais, ambientais e de participação popular. Há a possibilidade de uma frente progressista estadual com candidatura própria ou apoio conjunto a uma chapa ampla. Nesse cenário é fundamental que o PT assuma protagonismo, que responda ao tamanho de sua estatura e que não se dilua em acordos pragmáticos.

NEGOCIAÇÕES COM SETORES INDEPENDENTES E NOVOS ATORES POLÍTICOS

Prefeitos e lideranças emergentes podem e devem compor alianças em 2026, ampliando a possibilidade de ampliar a base municipalista do PT em 2028, garantindo maior apoio no interior. E sempre garantindo o alinhamento com pautas de desenvolvimento regional e inclusão social. É inegável que a realidade política do interior paraibano de maioria conservadora e oligarca, é muito mais complexa com seus grupos políticos locais e na disputa por espaço. Mas são desafios que é preciso superar, principalmente fortalecendo os diretórios e comissões do interior.

CONCLUSÃO

Vendo a importância do protagonismo que tem que ser reconquistado pelo PT, a conclusão é óbvia. O partido não pode se restringir a ser um partido coadjuvante. Mesmo que não apresente candidato próprio ao governo estadual, deve garantir sua participação efetiva na chapa majoritária (vice ou Senado), além de obter secretarias estratégicas sob comando de quadros do partido, garantindo a inserção programática das propostas do PT conduzidas por quadros técnicos e lideranças políticas da legenda.

É fundamental voltar às Bases e conquistar as ruas da Paraíba, porque mais do que articulações de cúpula, o PT precisa se reconectar com sua força original: o povo e seus trabalhadores, para isso instrumentalizando sindicatos e movimentos sociais, coletivos da juventude, fortalecendo o diálogo e mobilizando a militância para além das redes sociais.

A classe artística e cultural tem fundamental importância neste processo, mas vai além, garantindo protagonismo da cultura como ferramenta de resistência e mobilização. A história mostra que grandes mobilizações democráticas no Brasil tiveram forte participação dos artistas, músicos, atores e intelectuais, e agora, o pontapé inicial para esse resgate veio nas manifestações em todo o país, realizadas no domingo, dia 21 de setembro.

A nova direção do PT paraibano tem a missão de fazer o chamamento da juventude e das periferias, investindo em pautas que dialoguem diretamente com as demandas sociais – emprego, educação, habitação, transporte e segurança cidadã, mas principalmente com suas expressões culturais atuais. Esse é um lugar de fala que merece toda e imprescindível atenção nas políticas públicas do partido.

O partido precisa crescer e vencer na Paraíba, e para isso, precisa ser mais que aliado de gabinetes, deve voltar a ser o partido do chão das fábricas, das ruas, das praças, dos palcos e dos artistas. Só assim reconquistará a esperança popular e consolidará seu protagonismo no estado como um todo.

O PT da Paraíba, sob a direção de Cida Ramos, está diante de uma oportunidade histórica; que é reposicionar-se como uma força política relevante e autêntica no estado. Para isso, é crucial que o partido mantenha sua identidade programática, recuse alianças que comprometam seus princípios, e quando negociar seja estratégico, garantindo participação efetiva nas decisões políticas. Que não busque protagonismo apenas em cargos, mas também na implementação de políticas públicas que atendam às necessidades da população.

Ao adotar essa abordagem, o PT da Paraíba poderá fortalecer sua base, ampliar sua representatividade e contribuir significativamente para o desenvolvimento do estado, alinhando-se aos valores progressistas que sempre nortearam sua trajetória.

Este humilde jornalista deseja muita luz e sabedoria a nova gestão da Deputada Cida Ramos, para que o partido possa superar vencer os grandes desafios do atual cenário político paraibano.

Eli Mariotti