Mostrando postagens com marcador Conduta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Conduta. Mostrar todas as postagens
foto Internet   

“Foi apenas um aniversário”, disse Efraim Filho ao explicar a fotografia em que aparece ao lado do advogado Willer Tomaz, citado nas investigações do caso do INSS. A frase pode explicar a fotografia, mas não explica a política. E é justamente aí que está o debate.

Efraim escolheu seu campo. É senador pelo PL, legenda do bolsonarismo, e lançou-se candidato ao Governo da Paraíba com o apoio de figuras como Flávio Bolsonaro. Essa escolha política permite ao eleitor perguntar não apenas quem estava numa festa, mas que projeto de poder está sendo oferecido à Paraíba.

O debate é especialmente importante quando se observa a relação da política brasileira com o dinheiro público. Emendas parlamentares se transformaram em uma das principais moedas de poder do Congresso, enquanto investigações recentes continuam revelando suspeitas de irregularidades envolvendo recursos públicos. O problema não é exclusivo de um partido, mas é impossível ignorar a presença recorrente de figuras do bolsonarismo e do Centrão nesses episódios.

É aí que aparece uma contradição que precisa ser enfrentada: para o cidadão pobre, a receita apresentada muitas vezes é a meritocracia — trabalhar mais, estudar mais e vencer pelo próprio esforço. Para a política profissional, entretanto, existe uma disputa permanente por emendas, verbas públicas, cargos e influência.

Que meritocracia é essa?

A Paraíba é um estado que ainda precisa de políticas públicas para reduzir desigualdades, ampliar o acesso à educação e à saúde, gerar oportunidades e permitir que milhares de jovens tenham condições reais de construir um futuro. Não existe meritocracia quando pessoas começam a vida em condições completamente diferentes. Antes de cobrar mérito, é preciso garantir oportunidade.

E é justamente nesse ponto que o discurso bolsonarista entra em choque com a realidade de um estado pobre e desigual. Políticas sociais não são privilégios. São instrumentos para que o cidadão possa estudar, trabalhar, empreender e conquistar autonomia.

O problema, portanto, não é simplesmente Efraim ter aparecido em uma fotografia. Ele tem todo o direito de escolher seus aliados. Mas, ao escolher o PL e o campo bolsonarista, precisa também responder pelo projeto político que representa, explicar todas as emendas que encaminhadas por ele, explicar porque suas companhias preferenciais são investigadas em crimes graves contra o erário.

A Paraíba precisa discutir se quer um Estado comprometido com redução das desigualdades, políticas sociais e desenvolvimento ou se aceitará uma política baseada na guerra cultural, no preconceito, no discurso de meritocracia para os pobres e, ao mesmo tempo, na disputa permanente pelos recursos públicos, melhor dizendo, apropriação do dinheiro público e dos aposentados

Em tese uma fotografia dura um instante, não é o caso desta.

O voto do eleitor, porém, pode definir o futuro de um estado inteiro.

O eleitor escolhe se quer ser governado pela corrupção ou pelo desenvolvimento e justiça social.

Eli Mariotti
Foto:IA/Photoshop   

Existe uma pergunta que o PT da Paraíba precisa enfrentar, mesmo que prefira não fazê-lo: o que fará o eleitor de esquerda quando chegar à urna e perceber que o partido ao qual historicamente entrega seu voto não lhe ofereceu, na disputa pelo Governo do Estado, uma candidatura que represente aquilo que entende como um projeto progressista?

A pergunta ganhou força depois que o PT paraibano confirmou apoio a Lucas Ribeiro para o Governo, ao mesmo tempo em que reafirmou João Azevêdo e Veneziano Vital do Rêgo como seus candidatos ao Senado. A própria direção partidária precisou explicar a aparente contradição entre a ata da convenção, que registrou Nabor Wanderley na composição, e a posição política posteriormente reafirmada em favor de João e Veneziano.

Formalmente, a questão está explicada. Politicamente, entretanto, permanece aberta.

Para o do eleitorado progressista do estado, a eleição de 2026 produziu uma situação desconfortável. O partido de Lula está aliado ao candidato que representa a continuidade do atual grupo governista, mas Lucas Ribeiro, do Progressistas, é percebido por esse eleitor como um político de centro, e não como alguém identificado com a esquerda. Sua relação com João Azevêdo e sua participação na atual gestão podem representar continuidade administrativa, mas continuidade administrativa não significa, necessariamente, identidade ideológica.

Esse detalhe é importante para quem vota em Lula.

O eleitor de esquerda não vota apenas em siglas ou alianças. Procura também alguma coerência entre o projeto nacional que apoia e o projeto estadual que pretende escolher. E é justamente aí que surge o desconforto.

Do outro lado, também não encontra uma alternativa natural. Cícero Lucena, embora esteja na oposição ao grupo governista, é igualmente percebido por setores progressistas como um político de centro-direita e mantém alianças com forças que se aproximam do bolsonarismo. Para esse eleitor, portanto, trocar Lucas por Cícero não significa necessariamente encontrar uma candidatura mais próxima de suas convicções.

Nabor Wanderley tampouco oferece essa identificação. Candidato do Republicanos ao Senado e pai do presidente da Câmara, Hugo Motta, está inserido justamente no universo político que boa parte da militância de esquerda associa ao Centrão.

O resultado é uma espécie de vazio eleitoral.

O eleitor progressista pode não querer votar em Lucas porque não o considera suficientemente identificado com a esquerda; pode não querer Cícero porque o enxerga como igualmente distante de seu campo político; e certamente pode não se sentir representado pelo universo político de Nabor.

No Senado, entretanto, a situação é diferente.

João Azevêdo e Veneziano são os dois nomes que o PT paraibano reafirmou como candidatos prioritários. A posição coincide com a orientação da direção nacional do partido e com o apoio declarado de Lula. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, já havia afirmado que o presidente apoiaria João e Veneziano na disputa pelas duas vagas.

Para o eleitor progressista, portanto, existe uma distinção clara: no Senado, há dois nomes que o próprio PT apresenta como aliados prioritários de Lula; no Governo, há um candidato que parte de sua própria base não identifica como pertencente ao campo da esquerda.

Daí pode surgir uma consequência eleitoral perfeitamente possível: o eleitor votar em João e Veneziano para o Senado e, ao chegar ao Governo, não escolher nenhum dos candidatos.

Não necessariamente por querer beneficiar a oposição. Mas por não encontrar uma alternativa que represente sua identidade política.

O voto nulo, nesse contexto, pode ser entendido por esse eleitor como uma manifestação de insatisfação com a ausência de uma candidatura ao Governo capaz de representar aquilo que considera um projeto progressista.

Essa possibilidade deveria preocupar o PT porque o partido corre o risco de confundir fidelidade à legenda com fidelidade automática às alianças construídas por sua direção.

O eleitor de esquerda pode ser fiel a Lula sem ser obrigado a ser fiel a todas as escolhas feitas pelo PT nos Estados. Pode votar em Lula para presidente, em João e Veneziano para o Senado e, ainda assim, deixar a escolha para governador em branco ou nula.

A política brasileira já mostrou diversas vezes que o eleitor não necessariamente reproduz na urna a fotografia dos palanques. Ele pode construir sua própria chapa.

A Paraíba oferece um exemplo particularmente complexo disso.

O Republicanos decidiu nacionalmente pela neutralidade na disputa presidencial, mas Hugo Motta anunciou apoio à reeleição de Lula na Paraíba. Isso produz uma situação curiosa: Hugo Motta pode estar com Lula na eleição presidencial, Nabor pode estar no campo governista e Lucas pode ser apoiado pelo PT ao Governo, mas Lula não apresenta Nabor como um de seus dois candidatos prioritários ao Senado.

As alianças, portanto, não se reproduzem automaticamente entre os diferentes cargos.

E se os partidos podem estabelecer alianças diferentes para presidente, governador e Senado, por que o eleitor deveria ser obrigado a reproduzi-las integralmente na urna?

Essa talvez seja a pergunta mais incômoda para o PT paraibano.

Durante anos, o PT construiu sua identidade eleitoral em torno de uma ideia relativamente simples: existe um campo político progressista e existe um campo conservador ou liberal, e o eleitor precisa escolher de que lado está.

Em 2026, entretanto, a própria estratégia partidária estadual embaralha essas fronteiras. Para a direção partidária, pode ser uma engenharia necessária, mas para o eleitor, apenas parece perda de identidade.

E é nesse espaço entre a necessidade de fazer política e a necessidade de preservar identidade que o PT corre o risco de perder não necessariamente votos para adversários, mas algo mais silencioso: a disposição de sua própria base de seguir as orientações partidárias.

A eleição para o Senado demonstra que a identidade política ainda funciona. João Azevêdo e Veneziano foram apresentados pelo PT como os dois nomes prioritários de Lula. Ali, a mensagem é direta.

O eleitor de esquerda pode, então, acabar diante de uma escolha que não deseja fazer, que é quando nenhuma alternativa parece representar aquilo que se procura, o voto nulo deixa de ser apenas ausência de escolha e pode se transformar numa decisão consciente de não legitimar nenhuma delas.

É preciso reconhecer, entretanto, a consequência objetiva: voto nulo não elege ninguém e não altera diretamente a disputa entre os candidatos. Se essa estratégia ganhar força entre eleitores progressistas, pode acabar beneficiando indiretamente quem vencer a eleição com os votos válidos.

Só que reconhecer essa consequência não elimina a insatisfação que pode estar por trás da decisão. E é justamente por isso que o PT tem que prestar atenção ao que está acontecendo.

Porque esmagadora parcela do eleitorado que se identifica com Lula e com a esquerda pode estar chegando a uma conclusão incômoda: na eleição para o Senado, sabe exatamente em quem pretende votar; na eleição para o Governo, não há ninguém que considere verdadeiramente seu.

E, se essa percepção se consolidar, o maior problema do PT não será necessariamente perder votos para um adversário. Será perder a capacidade de dizer ao próprio eleitor por que ele deveria continuar seguindo o partido quando a urna o coloca diante de alianças que já não parecem caber dentro da mesma identidade política.

Para finalizar, continuo batendo na mesma tecla, Se o PT e sua Federação na Paraíba quiserem unificar a maior parte dos votos dos eleitores progressistas em torno da candidatura governista, precisavam ter disputado sem aceitar um não como resposta, a presença na chapa majoritária, especialmente na vaga de vice-governador. Mas não houve essa dedicação por parte da direção.

Uma secretaria bastou.

A presença de um nome progressista, com identidade política, credibilidade e participação efetiva na construção de um eventual próximo governo, não resolverá inteiramente o desconforto desse eleitor. Mas poderia diminuir a distância entre a identidade histórica do PT e a aliança que o partido construiu para 2026. Mais do que ocupar um cargo, seria uma forma de oferecer ao eleitor de esquerda uma razão política para continuar acreditando que, dentro da aliança, também existe espaço para o projeto que ele defende.

Mas pelo jeito, Lucas Ribeiro já decidiu por uma chapa com a cara do Centrão.

Eli Mariotti

Foto: PBAgora   

O debate entre Lucas Ribeiro, Cícero Lucena e Efraim Filho mostrou uma coisa que pode ser decisiva nesta eleição: Lucas tem muito governo para mostrar, mas boa parte desse governo foi construída quando a caneta estava na mão de João Azevêdo.

E esse é o paradoxo da candidatura.

Lucas não está começando do zero. Pelo contrário. Ele chega à eleição como sucessor de uma administração que tem obras, investimentos, programas e entregas para apresentar em praticamente todas as regiões da Paraíba. Foi vice-governador durante boa parte desse período e assumiu o Governo do Estado em abril deste ano, depois da saída de João para disputar o Senado.

Portanto, Lucas tem todo o direito político de defender esse legado.

Mas existe uma diferença entre ter participado do governo e ser o autor das decisões que produziram suas principais entregas.

E é justamente aí que seus adversários vão apertar.

Quando Lucas apresentar uma obra, Cícero e Efraim poderão perguntar: quem decidiu? Quem assinou? Quem estava no Palácio quando aquilo foi planejado, contratado e executado?

A resposta, na maioria das vezes, será João Azevêdo.

Isso não diminui a participação de Lucas como vice-governador nem sua ligação com o projeto. Mas muda a maneira como o eleitor pode enxergar a disputa.

Lucas não pode simplesmente dizer que fez.

João Azevêdo, além do gigantesco legado que herdou de Ricardo Coutinho, também construiu uma marca administrativa própria. Foi ele quem comandou o Executivo durante a maior parte do período em que essas políticas foram planejadas e executadas. Mesmo assim, o próprio governo chegou a apresentar a sucessão como uma continuidade, com João afirmando que mudaria o governador, mas o governo seria o mesmo.

Mas esse patrimônio tem a assinatura de João, que por sua vez herdou o legado do ex-governador Ricardo Coutinho.

E esse talvez seja o ponto mais delicado da campanha. Lucas precisa convencer o eleitor de que pode continuar aquilo que João continuou sem parecer simplesmente um candidato que está vivendo do trabalho do antecessor. Precisa mostrar que conhece o governo por dentro, participou dele, ajudou a construí-lo e agora tem condições de colocar sua própria marca na próxima etapa.

E aí entra o outro problema: o sobrenome Ribeiro.

Para uma parcela do eleitorado paraibano, especialmente no campo da esquerda, o nome carrega uma memória política que pode provocar resistência. Lucas não disputa apenas contra Cícero e Efraim. Disputa também contra a imagem que parte do eleitorado já formou sobre o grupo político ao qual pertence.

Aguinaldo Ribeiro é seu tio e uma das principais lideranças políticas da família. As articulações do grupo também já são pensadas para além de 2026, alimentando especulações sobre uma possível composição familiar para a eleição de 2030.

Lucas tem a árdua tarefa de convencer o eleitor de que não é apenas um Ribeiro pedindo voto e precisa convencer que não é apenas o herdeiro de João Azevêdo pedindo continuidade.

Só que há uma ironia nisso tudo: justamente aquilo que ele tem de mais concreto para mostrar — as obras, os investimentos e as realizações do governo — também é aquilo que mais o remete a João.

É como se Lucas chegasse à eleição com uma excelente vitrine, mas precisasse explicar quem colocou os produtos nela.

E isso não é pouca coisa.

Cícero tem sua própria história política e pode dizer que faria diferente, porque a Paraíba já conhece sua trajetória. Efraim pode se apresentar como alternativa e defender uma mudança de rumo mais à direita. O que também pode ser um fator de rejeição para parte do eleitorado.

Mesmo que Lucas diga o que foi feito, a pergunta que virá é inevitável:

“Feito por quem?”

E a resposta não pode ser apagada pela campanha. Foi feito por um governo do qual Lucas participou, mas que teve João Azevêdo como governador durante a maior parte desse período.

É justamente por isso que a eleição será interessante.

Lucas terá de defender um legado que não é exclusivamente dele e, ao mesmo tempo, convencer o eleitor de que merece receber crédito suficiente para comandar a próxima etapa.

No fim, talvez essa seja a verdadeira disputa da candidatura, Lucas precisa transformar a herança administrativa de João Azevêdo em um projeto próprio. Se conseguir, terá uma base concreta para pedir continuidade.

Se não conseguir, corre o risco de ficar no meio do caminho: para uns, será apenas “mais um Ribeiro”; para outros, apenas o candidato que está tentando colher os frutos de um governo cuja principal assinatura é a de João Azevêdo.

E essa talvez seja a pergunta que acompanhará Lucas durante toda a campanha:

O eleitor estará votando no que João Azevêdo fez ou no que Lucas Ribeiro será capaz de fazer?

Além disso, existe outro desafio: parte importante do eleitorado de esquerda tende a apresentar resistência ao nome de Lucas Ribeiro, justamente pelo peso político do sobrenome que carrega. Para reduzir essa distância, sua chapa precisará dialogar de maneira convincente com esse segmento e apresentar uma composição que represente também esse campo político.

Eli Mariotti

ISAAC FONTANA/CJPRESS   
Se debate se ganha colocando o adversário na defensiva, Haddad venceu o primeiro confronto com Tarcísio.

Não porque o governador tenha ido totalmente mal. Pelo contrário. Tarcísio tentou mostrar um suposto domínio dos números e defendeu seu governo. Mas esse talvez tenha sido justamente o problema: Haddad conseguiu fazê-lo passar boa parte do debate explicando o que fez.

E quem está no governo sabe que debate eleitoral também é prestação de contas.

Haddad foi para cima. Levou segurança, educação, privatizações, Sabesp e resultados da gestão paulista para o centro da conversa. Tarcísio tentou responder a altura. Mas em vários momentos, precisou justificar decisões e defender o próprio desempenho, inclusive citando números improváveis.

Para quem está atrás nas pesquisas, isso já é uma vitória importante.

Haddad também acertou ao explorar o estilo excessivamente técnico do governador. A provocação do “concurseiro” pode parecer apenas uma ironia, mas tinha um alvo claro: transformar a conhecida capacidade de Tarcísio de despejar números em uma pergunta mais simples — tá bom, mas e o resultado disso na vida do paulista?

Tarcísio, por sua vez, tentou levar a discussão para Lula, Bolsonaro e a política nacional. Chegou a dizer a Haddad que ele “não está mais competindo com Bolsonaro”. A frase, curiosamente, também revela o desconforto do governador com uma eleição que Haddad tenta transformar em julgamento de sua própria administração. Aliás Bolsonaro praticamente não fez parte do debate. Um claro sintoma de que Tarcísio, pelo menos para o front da opinião pública tem a intenção de não ser associado totalmente ao clã. Fazer isso com equilíbrio é onde está o problema, já que o governador também depende destes votos para se reeleger.

Para concluir, o ponto central foi a condução do debate dominada por Haddad, que tentou mostrar ao telespectador que é preciso avaliar o rtesultado das políticas do atual governador ao dia a dia do cidadão comum do maior colégio eleitorl do país

Haddad não precisava provar que Tarcísio é um mau governador. Precisava apenas começar a fazer o eleitor duvidar de que ele seja tão bom quanto a propaganda sugere.

Foi isso que o debate começou a fazer.

O governador continua na frente nas pesquisas. Mas debate não é pesquisa. Uma pesquisa mostra quem o eleitor pretende votar; um debate pode começar a mudar a imagem que esse eleitor tem dos candidatos.

Antes do confronto, a narrativa era: Tarcísio está na frente e Haddad tenta alcançá-lo.

Depois dele, surgiu outra possibilidade:

Tarcísio continua na frente, mas Haddad mostrou que pode enfrentá-lo.

Parece pouco.

Não é.

Para quem está atrás, transformar uma eleição aparentemente decidida em uma eleição disputável pode ser o primeiro grande passo.

Haddad não precisava sair do debate como líder. Precisava sair como alguém capaz de derrotar o líder.

E, nesse primeiro round, conseguiu.

Eli Mariotti


Foto: Ricardo Stuckert

A Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada neste domingo, produziu uma imagem política que dificilmente passará despercebida durante a campanha eleitoral. Em meio a problemas de organização do evento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou a primeira-dama Janja para discursar, reforçando uma estratégia de aproximação com o eleitorado feminino. Também fez uma declaração que ganhou ampla repercussão: "Quem bate em mulher não precisa votar em mim", vinculando sua campanha ao enfrentamento da violência de gênero.

A fala não foi casual. Em um cenário eleitoral polarizado, as mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro e tendem a ocupar posição decisiva na disputa presidencial. A estratégia do PT é evidente: fortalecer uma pauta que dialoga diretamente com esse segmento, ao mesmo tempo em que busca explorar fragilidades do adversário junto ao voto feminino.

Entretanto, se, nacionalmente, o discurso foi de valorização da mulher, na Paraíba a convenção estadual transmitiu uma impressão diferente.

Durante o evento, apenas uma candidata teve espaço para discursar, logo no início da programação, quando o público ainda era reduzido. Já na parte final, a única mulher a falar foi a presidente estadual do partido, Cida Ramos. A escassez de vozes femininas no palco foi percebida por militantes e lideranças presentes, gerando comentários entre representantes dos movimentos de mulheres.

O contraste chama atenção porque o próprio PT construiu sua identidade política defendendo a ampliação da participação feminina nos espaços de poder. Na Paraíba, o partido vive um momento histórico ao ser presidido, pela primeira vez, por uma mulher. Ainda assim, justamente no principal evento eleitoral da legenda no estado, a presença feminina na programação foi bastante limitada, abrindo espaço para questionamentos inevitáveis.

A discussão, porém, vai além da convenção.

Outro fato que passou a circular entre filiados e dirigentes é a dificuldade do PT da Paraíba em preencher integralmente a cota mínima de candidaturas femininas para a Assembleia Legislativa, situação que resultou na redução da chapa proporcional. A legislação eleitoral exige um percentual mínimo de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais, e o seu descumprimento pode acarretar consequências para o registro da chapa.

A pergunta que começa a ecoar nos grupos internos do partido é simples:

E por que o PT da Paraíba não conseguiu atrair mulheres suficientes para completar sua chapa?

A resposta não parece ser apenas burocrática.

Ela pode envolver dificuldades de organização partidária, falta de renovação dos quadros, baixa disposição de lideranças femininas para disputar eleições ou problemas estruturais de incentivo à participação das mulheres. Seja qual for a explicação, o fato político existe e passou a ser debatido internamente.

Na política, símbolos têm peso semelhante ao dos discursos.

Lula compreendeu isso ao transformar a defesa das mulheres em uma das mensagens centrais da convenção nacional. Mas o simbolismo perde parte de sua força quando, na esfera estadual do próprio partido, a participação feminina não encontra a mesma visibilidade.

Não se trata apenas de cumprir cotas previstas em lei ou reservar alguns minutos de fala durante uma convenção. Trata-se de coerência entre discurso e prática.

Se o voto feminino pode ser determinante na eleição presidencial, como indicam diversas pesquisas, os partidos de esquerda, entre eles o PT, precisarão demonstrar na prática, que as mulheres ocupam espaços reais de protagonismo, tanto nas candidaturas quanto nas instâncias de decisão e não apenas nas peças de campanha.

No caso da Paraíba, a convenção estadual deixou uma pergunta que dificilmente será respondida apenas com discursos: se o PT pretende dialogar com o eleitorado feminino durante a campanha, por que as mulheres tiveram tão pouca visibilidade justamente no palco que deveria simbolizar a força e a diversidade do partido? 

Essa é uma questão política legítima, cuja resposta caberá ao próprio PT apresentar ao longo do processo eleitoral.


O escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro não é apenas mais um episódio constrangedor do universo bolsonarista. Trata-se da materialização de uma crise moral, política e ideológica que há anos corrói a direita brasileira por dentro. O editorial publicado pelo Estadão deixou evidente aquilo que parte do conservadorismo tradicional já não consegue mais esconder: o bolsonarismo deixou de ser um ativo eleitoral e se transformou em um fardo tóxico para qualquer projeto de direita no Brasil.

As revelações publicadas pelo Intercept Brasil apontam que Flávio Bolsonaro teria negociado cerca de US$ 24 milhões com Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Parte dos recursos, segundo os documentos divulgados, já teria sido paga ao longo de 2025. Mais grave do que a dimensão financeira do caso é o simbolismo político da relação. O filho do ex-presidente, tratado há anos como herdeiro natural do bolsonarismo, aparece em conversas amistosas com um banqueiro investigado por fraudes bilionárias e suspeitas de influência nos Três Poderes. A imagem desmonta por completo o discurso moralista que sustentou o bolsonarismo desde sua ascensão em 2018.

Durante anos, o movimento bolsonarista construiu sua identidade pública sobre a promessa de ruptura ética com a chamada “velha política”. O discurso era baseado em patriotismo, combate à corrupção, defesa da família e regeneração moral do Estado brasileiro. No entanto, o grupo que chegou ao poder prometendo destruir os vícios históricos da política nacional acabou reproduzindo muito pior, exatamente aquilo que dizia combater. Relações obscuras com empresários, suspeitas sobre movimentações financeiras, personalismo familiar, ataques constantes às instituições e uso político da radicalização ideológica passaram a compor o núcleo da experiência bolsonarista no poder.

O caso envolvendo Flávio Bolsonaro reforça justamente essa percepção de continuidade do pior da política brasileira. Não se trata mais de episódios isolados ou desvios individuais, mas de um padrão político consolidado, marcado pela mistura entre interesses privados, poder institucional e lealdade familiar. A retórica anticorrupção do bolsonarismo perdeu credibilidade porque foi engolida pelas próprias contradições do grupo.

O aspecto mais revelador do editorial do Estadão talvez nem seja a denúncia em si, mas o movimento de distanciamento promovido por setores tradicionais da direita brasileira, a começar peço próprio jornal. Ao defender o surgimento de uma “alternativa conservadora séria”, o Estadão admite implicitamente aquilo que parte da elite econômica e política demorou anos para reconhecer: Jair Bolsonaro nunca representou um projeto democrático consistente de direita. Representou, na prática, um populismo autoritário sustentado pela guerra cultural, pelo ressentimento social e pela exploração permanente da polarização política.

A questão é que muitos dos setores que agora tentam abandonar o bolsonarismo ajudaram diretamente a construir esse fenômeno. Empresários, agentes do mercado financeiro, lideranças liberais e parcelas importantes da mídia conservadora toleraram ataques às instituições democráticas porque enxergavam no bolsonarismo uma ferramenta útil contra a esquerda. Durante anos minimizaram ameaças autoritárias, normalizaram discursos extremistas e relativizaram comportamentos incompatíveis com a democracia em troca de ganhos políticos e econômicos.

Agora, diante do desgaste crescente do clã Bolsonaro, tentam reconstruir uma direita institucional sem carregar o peso do radicalismo que ajudaram a alimentar. Mas a ruptura está longe de ser simples. O bolsonarismo deixou marcas profundas no campo conservador brasileiro. Normalizou teorias conspiratórias, transformou a agressividade política em método permanente de mobilização e substituiu o debate racional por uma lógica emocional baseada em medo, ressentimento e culto à personalidade.

Nesse contexto, o caso Flávio Bolsonaro funciona como símbolo da falência moral da direita brasileira A proximidade com Daniel Vorcaro não representa apenas um problema jurídico ou reputacional. Representa o colapso definitivo da narrativa de pureza ética construída desde 2018. A frase atribuída ao senador — “Irmão, estou e estarei contigo sempre” — sintetiza a a verdadeira face de um movimento que prometia combater privilégios em um grupo político fechado, personalista e cercado por figuras controversas e suspeitas.

O bolsonarismo chegou ao poder explorando a indignação popular contra corrupção e decadência institucional. Hoje, mostra que sempre fez parte do mesmo sistema que dizia combater. A diferença é que já não existe mais o discurso de outsider capaz de esconder a realidade. O que resta é uma direita fragmentada, desgastada moralmente, mergulhada em uma disputa interna feroz pelo controle do espólio político deixado por Jair Bolsonaro.

Eli Mariotti



A carta divulgada por Carlos Bolsonaro nesta terça-feira (13), endereçada ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a mais de 27 anos de prisão e atualmente custodiado na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, vai muito além de um gesto filial. O texto revela uma operação simbólica cuidadosamente construída: deslocar o eixo do debate da esfera jurídica para o campo emocional, moral e psicológico, numa tentativa explícita de converter uma condenação judicial em narrativa de perseguição, sacrifício e redenção política.

Sob o ponto de vista psicológico, a carta expõe um mecanismo clássico de negação da realidade jurídica. Carlos não enfrenta o mérito da condenação, tampouco menciona crimes, as fartas provas ou decisões judiciais. Ao contrário, substitui fatos por sentimentos, transformando a prisão, resultado de um longo e idôneo processo legal ,em “tortura”, “imoralidade” e “perseguição”. Trata-se de uma estratégia de defesa psíquica: quando a realidade é insuportável, ela é reescrita como injustiça absoluta.

Esse movimento emocional, no entanto, não é apenas íntimo ou familiar. Há uma clara intencionalidade política no texto. A carta funciona como instrumento de mobilização das bases bolsonaristas, num momento em que setores da extrema direita tentam pressionar o Congresso pela anulação dos vetos do presidente Lula à chamada Lei da Dosimetria, especialmente no que se refere aos crimes cometidos nos atos golpistas de 8 de janeiro. Ao reforçar a ideia de perseguição e injustiça, Carlos busca criar um ambiente emocional favorável à revisão das penas e à reinterpretação dos atos antidemocráticos como excessos puníveis com menor rigor ou mesmo como manifestações políticas legítimas.

Nesse mesmo movimento, a carta também opera como uma tentativa indireta de constranger o Supremo Tribunal Federal, em especial o ministro Alexandre de Moraes. Ao descrever o cárcere como um ambiente “frio, barulhento, molhado” e dominado por “decisões arbitrárias”, Carlos constrói um apelo público para uma improvável concessão de prisão domiciliar, não com base em critérios legais objetivos, mas na comoção emocional e na pressão popular. É uma estratégia conhecida: transformar o juiz em vilão e a decisão judicial em crueldade pessoal.

Do ponto de vista psicológico, o texto também revela um processo de idealização extrema da figura paterna. Jair Bolsonaro é apresentado não como um réu condenado, mas como um homem “íntegro”, silenciado por forças externas. Essa idealização protege emocionalmente o filho da frustração e da culpa, ao mesmo tempo em que tenta preservar, junto à militância, a imagem do pai como líder moral injustiçado. É a recusa em aceitar a falibilidade da figura de autoridade, traço comum em relações familiares marcadas por forte hierarquia simbólica e dependência identitária (autoritarismo).

Outro elemento central é a inversão de papéis. O condenado torna-se vítima; o sistema de Justiça, o agressor. O Estado de Direito é retratado como instrumento de opressão, enquanto a pena aplicada é tratada como violência ilegítima. Essa inversão não é retórica inocente: ela sustenta a narrativa de mártir político necessária para manter a coesão de uma base que se alimenta mais de emoção e ressentimento do que de fatos jurídicos. Na esperança que, talvez, acendendo os celulares para os aliens, eles venham libertar o "mito".

Há ainda um componente de apelo messiânico. Ao afirmar que a história do pai “não termina aqui” e que sua voz ainda é necessária, Carlos projeta um futuro de redenção e retorno. A prisão deixa de ser consequência jurídica para se tornar uma etapa de provação. Psicologicamente, isso impede o luto político, a aceitação do fim de um ciclo e mantém viva a fantasia de restauração do poder perdido.

Contudo, justamente por seu tom absolutista e emocional, a carta revela fragilidade. A insistência em negar a legitimidade da prisão indica profunda dificuldade de lidar com a responsabilização. Em democracias funcionais, a prisão de um ex-presidente não é martírio, mas demonstração de que ninguém está acima da lei. A justiça não se mede pelo sofrimento narrado, mas pelo respeito ao devido processo legal.

Ao tentar transformar uma condenação em epopeia pessoal e instrumento de pressão política, Carlos Bolsonaro expõe mais sobre seu próprio estado psicológico e estratégico, e que nunca foi conhecido por seu equilíbrio e coerência, do que sobre a suposta situação do pai. A carta é o retrato de alguém que luta para manter viva uma identidade construída em torno do poder, da negação e do confronto permanente. Mas a realidade jurídica permanece: Jair Bolsonaro não é um prisioneiro político, e sim um condenado.

E, por mais que a retórica tente revestir a prisão de heroísmo, a justiça não se revoga por emoção, nem se anula por mobilização de base. Aceitar isso talvez seja o passo psicológico mais difícil  e que nunca será dado.

Por Eli Mariotti

Leia a íntegra da carta, se tiver o mínimo de paciência pra isso:

Pai,

Escrevo não apenas como filho, mas como alguém que te viu resistir quando tudo parecia perdido. Vi seu corpo ferido, tua alma testada, tua honra atacada de formas que poucos homens suportariam sem cair. E, ainda assim, você permaneceu de pé - mesmo quando tentaram te dobrar pela dor, pela injustiça, pela humilhação calculada e pelo silêncio imposto.

O que estão fazendo agora não é justiça. É perseguição, é tortura, é imoralidade. É a tentativa metódica de te esgotar por dentro, de te afastar de quem você ama, de te fazer acreditar que está sozinho. Mas você não está. Nunca esteve.

Cada dia que passa, pai, confirma aquilo que sempre soubemos: não é sobre erros, não é sobre leis - é sobre te quebrar moralmente. E é justamente por isso que resistir se tornou um ato de amor. Amor por nós, teus filhos. Amor por quem acredita em você. Amor pela verdade.

Quero que saiba que estamos aqui. Firmes. Atentos. Fortes por você, quando o cansaço aperta. Precisamos de você em pé, pai. Precisamos da tua lucidez, da tua presença, da tua voz - mesmo que agora tentem calá-la entre paredes frias, barulhentas, molhadas e decisões arbitrárias.

Você nos ensinou que dignidade não se negocia. Que caráter não se curva. Que a verdade pode até ser perseguida, mas nunca enterrada. É isso que nos sustenta agora. É isso que deve te sustentar.

Levante-se todos os dias com a certeza de que sua história não termina aqui. Que seus filhos precisam de você vivo, forte e de cabeça erguida. Que ainda há muito o que atravessar - e nós atravessaremos juntos. A injustiça não vence homens íntegros. E você, pai, segue íntegro.

Com amor, lealdade e esperança,

Carlos.


A detenção de 14 jornalistas durante a sessão de posse ocorrida ontem na Assembleia Nacional da Venezuela não é apenas um episódio lamentável. É um sintoma grave do Estado que passou a enxergar a informação como inimiga. Quando jornalistas são tratados como suspeitos ou criminosos por exercerem sua função, o problema já não é de segurança, mas de abuso de poder.

O Parlamento deveria ser o espaço máximo da transparência. É ali que decisões são tomadas em nome do povo, e é justamente ali que a presença da imprensa se torna indispensável. Impedir registros, vasculhar celulares, bloquear transmissões e deter profissionais sem acusação formal revela uma escolha política clara: controlar a narrativa em vez de prestar contas.

O momento político venezuelano ajuda a explicar, mas não a justificar o ocorrido. Em meio a uma transição de poder marcada por incertezas, isolamento internacional e disputas internas no chavismo, além da forte pressão norte americana, o Legislativo venezuelano opta por uma prática conhecida no Brasil: intimidar para reduzir o olhar externo. A imprensa, sobretudo a internacional, torna-se um risco porque registra aquilo que o discurso oficial não consegue sustentar.

Há ainda um aspecto mais profundo e preocupante. A apreensão de equipamentos e o acesso forçado a dados pessoais não atingem apenas os jornalistas, mas também suas fontes, muitas vezes cidadãos comuns. Esse tipo de ação cria um ambiente de medo coletivo, onde falar, denunciar ou simplesmente relatar fatos passa a ser visto como um ato perigoso.

Não se trata apenas da Venezuela. O ataque à imprensa por representantes do Estado é um fenômeno recorrente nos últimos tempos. Quando o poder deixa de dialogar com a sociedade, passa a dialogar com o silêncio. E o silêncio, sabemos que nunca é neutro, ele sempre favorece quem manda.

A presença de jornalistas estrangeiros entre os detidos agrava ainda mais o episódio. Ao agir assim, o Estado envia ao mundo uma mensagem inequívoca: prefere o isolamento à transparência. Prefere o controle à crítica. Prefere o medo ao debate público.

Na Câmara dos Deputados em Brasília, jornalistas foram violentamente expulsos por ordem do deputado Hugo Motta para impedir o registro da retirada forçada do deputado Glauber Braga da mesa diretora. O objetivo era claro: impedir que a violência política fosse documentada, registrada e tornada pública. A cena, embora em outro contexto e país, dialoga diretamente com o que ocorreu na Venezuela: quando o poder se sente ameaçado pela imprensa, o primeiro alvo é quem registra os fatos.

Ambos os casos revelam a mesma lógica: o poder prefere o silêncio à exposição, o controle à crítica, a força ao debate. Quando isso acontece, pouco importa o discurso oficial, a ideologia declarada ou o país em questão. O método é o mesmo.

É preciso afirmar com clareza: não existe democracia possível sem imprensa livre. A liberdade de imprensa não é concessão, nem favor institucional, é um direito coletivo e constitucional. Quando jornalistas são calados, não é a imprensa que perde; é a sociedade inteira que fica às cegas.

Estados, governos ou lideranças que temem jornalistas, na verdade, temem a história sendo escrita por quem não é seu correligionário.

Por
Eli Mariotti


A megaoperação policial que varreu o Complexo da Penha e do Alemão nesta terça (28) entra para a história não pela eficácia, mas pelo horror. Os mais de 120 mortos, no que se tornou a ação mais letal da história do Rio de Janeiro mostra que por trás dos números, que o governo estadual tenta justificar como “confrontos” com o tráfico, há um rastro de dúvidas sobre as reais motivações, a seletividade da força e o preço pago em vidas humanas em plena temporada eleitoral.

Como se não pudesse ficar pior, no dia seguinte, os próprio moradores tiveram que resgatar dezenas de cadáveres nas matas próximas ao entorno da operação. Uma obrigação legal do Estado.

O governador Cláudio Castro, expressão da extrema direita e da política de extermínio travestida de “lei e ordem”, promoveu um verdadeiro *terrorismo de Estado*. Enquanto ele acusa o tráfico de praticar “narcoterrorismo”, o que se viu foi o Estado aterrorizando as comunidades, com um contingente de 2.500 policiais mobilizados contra uma única região Rio e uma única facção — o Comando Vermelho.

A pergunta que ecoa é simples e perturbadora: por que tamanha concentração de força? Por que a Penha/Alemão sob o domínio do CV e não uma ação mais ampla que atingisse também outras facções, como o Terceiro Comando Puro ou os Amigos dos Amigos? E, principalmente, por que não enfrentar as milícias — grupos formados em sua maioria por agentes de segurança da ativa, da reserva ou exonerados (expulsos) — que controlam vastos territórios do estado, elegem representantes nas casas legislativas, assim como prefeituras e são tratados com condescendência pelo poder público no estado?

Há uma suspeita grave pairando sobre o ensanguentado ar carioca, o uso do aparato policial como instrumento político para limpar áreas dominadas por facções rivais e abrir caminho para a expansão miliciana. Essa dinâmica perversa transforma a violência em ferramenta eleitoral e o sofrimento das favelas em palanque. Não à toa, as milícias, assim como as facções, já se infiltraram na política institucional, tecendo uma rede de poder que une o crime, a economia ilegal e o Estado.

Em meio as mortes, o governador politizou ainda mais o episódio, afirmando que o Rio “estava sozinho” e não recebeu apoio do governo federal. A acusação soa oportunista: Castro nunca solicitou ajuda ao Governo Federal e foi um dos mais duros críticos da PEC da Segurança Pública, que justamente buscava integrar esforços entre estados e União. O discurso de isolamento, portanto, registra mais uma peça de campanha do que um fato administrativo.

É justamente essa integração com o Governo Federal que se faz urgente e indispensável. O crime organizado já não é mais local — ele é interestadual e internacional. O enfrentamento eficaz exige medidas conjuntas: inteligência policial compartilhada, rastreamento de fluxos financeiros, controle integrado de fronteiras, coordenação das forças de segurança e políticas sociais permanentes que ocupem o espaço deixado pela ausência do Estado nas comunidades. Sem essa cooperação estratégica, as operações continuarão sendo paliativos brutais, produzindo mortes sem atingir o coração do problema.

A Operação Carbono Oculto foi uma megaoperação deflagrada em 28 de agosto de 2025 que tinha como alvo um sofisticado esquema de fraudes, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal no setor de combustíveis, vinculado à facção Primeiro Comando da Capital (PCC) e não teve uma morte sequer, seja do lado das forças de segurança ou do crime.

Essa operação é um importante exemplo que marca um passo decisivo no combate ao crime organizado, pois mostra como grupos criminosos passaram a se infiltrar e se beneficiar não só de atividades típicas de tráfico, mas também da economia formal — como o setor de combustíveis e o mercado financeiro — operando de maneira nacional e sofisticada.

A suspeita de que a operação no Complexo da Penha e do Alemão teve motivações eleitorais é inevitável. 
- O Doca, o chefe do tráfico e objetivo da operação nos complexos, foi preso ou morto?
- Em que circunstâncias houve tantas execuções nas matas do entorno dos complexos?
- O Complexo do Alemão e da Penha estão livres do tráfico? O estado retomou os territórios?
Não há respostas para estas perguntas nas declarações do Cláudio Castro ou do comando da operação.

Em épocas de disputa por votos, a vida nas comunidades parece perder valor. A ação na Penha soa como um recado político — um espetáculo sangrento voltado a setores do eleitorado que aplaudem o discurso da violência como solução, enquanto as famílias das vítimas choram sem voz nem justiça.

No Rio, não existe uma face do estado que ouça estas vozes, que vivem assustadas e com medo. O Crime não pode ser mais forte que o Estado, que também não pode ser mais criminoso que o Crime.

A história mostra que regimes autoritários sempre tentam vender força como sinônimo de ordem. Em 1929, o ditador fascista Benito Mussolini declarou ter “eliminado a máfia”. Quase um século depois, a máfia continua viva — assim como o crime organizado e as estruturas de poder que se alimentam dele.

Da Penha e do Alemão emerge um grito que o Brasil não pode ignorar, está mais do que na hora da população, especialmente as comunidades reféns do crime e da violência estatal, banir da política os extremistas que fazem do sangue um projeto de poder. O voto é secreto, mas a consciência é pública.

No entanto, a medida mais vital para evitar mortes é a ocupação pós-confronto. A presença do estado não pode terminar com o último tiro. É imperativa a entrada imediata e massiva de políticas públicas nas comunidades em poder do crime: segurança comunitária(UPPs), escolas, postos de saúde, programas de renda e acesso à Justiça.

Fato é que morreram 4 policiais, um deles com apenas 40 dias de corporação. A pergunta é: Quantos criminosos e quantos civis inocentes foram assassinados lado a lado nesta operação desastrada e trágica? O Estado irá fazer essa separação na contagem dos mortos?

É preciso lembrar que, além da urgente mudança nas políticas de Segurança Pública, como a PEC da Segurança que o Congresso tem obrigação de aprovar, é também nas urnas, que o país pode, enfim, romper o ciclo de fascismo, conivência e morte — e escolher um caminho onde segurança não signifique massacre, e a política não continue lavada no sangue do seu próprio povo.

É preciso banir da política a gana assassina da extrema direita, que tem na figura do Governador Cláudio Castro, um de seus mais significativos expoentes no Rio de Janeiro.

Eli Mariotti




A notícia de que a venezuelana María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz surpreendeu o mundo e supostamente até mesmo ela, que declarou: “Estou chocada”— e confesso que também me chocou. Não pelo estranho reconhecimento em si, mas pelo simbolismo político que essa escolha carrega.

Mas se eu fiquei chocado, será que Corina estava realmente chocada? Ora, se ela foi indicada para o prêmio por Marco Rubio, que todos sabemos quem é, como ela não saberia disto? A tão falada influência dos governos norte americanos no Nobel é de conhecimento geral no planeta. Mas porque o Nobel, que é europeu e tem influência direta da União Europeia, se deixa dirigir pela política externa norte americana?

Será por subserviência? Não creio. O fato é que os interesses norte americanos se enquadram exatamente na visão colonial que a Europa tem do chamado Terceiro Mundo, nesse caso em especial, a América Latina. 

A cada nova premiação, o Comitê Nobel revela mais de si do que de seus laureados. E neste caso, o prêmio parece dizer menos sobre a paz na Venezuela e mais sobre o olhar com que a Europa ainda enxerga a América Latina: um olhar de tutela, de missão civilizatória, de poder moral sobre o destino alheio.

O argumento oficial para o prêmio é conhecido: Corina teria sido agraciada por sua “luta pacífica pela democracia” e pela “resistência ao autoritarismo”. Mas, na prática, trata-se de uma figura cuja atuação política foi marcada pela polarização, pela instabilidade e pelo alinhamento direto com os interesses de Washington e Bruxelas. 

É portanto, legítimo questionar se o Nobel, nesse caso, premiou uma defensora da paz — ou apenas uma peça simbólica na engrenagem geopolítica ocidental.

Não entro aqui no mérito do governo Maduro. O que observo é o fato histórico e sociopolítico de que, mesmo com todas as dificuldades, ele tem apoio majoritário do povo venezuelano — o que o torna, ao menos sob o ponto de vista da soberania, uma expressão legítima de um projeto nacional. 

A oposição, por sua vez, tem sido minoritária e sempre dependente do respaldo externo. Então, quando a Europa escolhe Corina como “símbolo da paz”, o que ela faz é legitimar uma oposição que internamente não conseguiu legitimidade nas urnas. Isso não é diplomacia, é interferência política simbólica.

E além de tudo, esse prêmio ainda pode incentivar ou até mesmo legitimar o assédio militar que os Estados Unidos do Governo Trump vêm fazendo a Venezuela. Fato que ao contrário de promover a paz, pode gerar uma crise geopolítica de proporções inimagináveis na América Latina.

Essa não é a primeira vez que o Nobel da Paz se torna um instrumento político. Henry Kissinger o recebeu em 1973, mesmo sendo o estrategista de bombardeios no Vietnã. Barack Obama o ganhou antes mesmo de governar, como prêmio pela esperança, por ser o primeiro presidente negro do Estados Unidos. 

Aliás tenho sérias sérias suspeitas que a direita global se apropriou do identitarismo aí. Mas isso é assunto para outro artigo, e quando eleito presidente, Obama na prática não promoveu a paz. Em alguns momentos foi o contrário.

E é verdade que Yasser Arafat também recebeu o Nobel, em 1994, mas sua luta não pode e nem deve ser comparada a esses casos. Arafat ainda representa uma resistência histórica por um Estado palestino, uma causa humanitária e de justiça social que transcende fronteiras e desafia todas as escalas convencionais da política mundial. 

O Oriente Médio nesse contexto, é um território de dores e de resistências que fogem a qualquer paralelo. Arafat não foi premiado por conveniência, mas reconhecido por uma luta que até hoje, continua sendo travada no campo da dignidade humana e contra o genocídio palestino.

Já no caso de Corina, o prêmio não parece traduzir um gesto de reconhecimento à paz, mas um recado político. O Nobel da Paz historicamente reflete os dilemas do próprio Ocidente. Ora tenta reparar sua consciência, ora reafirma sua influência. 

O caso da Venezuela expõe exatamente isso — o uso do prestígio moral europeu como ferramenta de interferência nos rumos latino-americanos.

O colonialismo europeu, afinal, nunca desapareceu. Apenas trocou de roupa. A Europa que dividiu o continente em 1494 no Tratado de Tordesilhas, que saqueou o ouro do Brasil e a prata de Potosí, que impôs sua fé e sua língua aos povos nativos, continua hoje impondo sua narrativa e seu julgamento sobre o que é democracia, liberdade e paz.

Depois das independências latino americanas, os grilhões mudaram de forma, mas não de essência. No século XIX vieram os empréstimos britânicos e as ocupações francesas sob o pretexto de cobrar dívidas. No século XX, o colonialismo vestiu terno e gravata, FMI, Banco Mundial, planos de ajuste e doutrinas econômicas importadas que submeteram nossos povos à dependência. 

E no século XXI, o colonialismo se tornou simbólico — o poder de quem narra o mundo. Quando a BBC, o Le Monde ou o El País decidem o que é democracia ou autoritarismo na América Latina, estão em essência reafirmando a velha hierarquia de quem fala e quem é falado.

Premiar Corina Machado, é portanto, reafirmar o mito civilizatório europeu. A ideia de que a América Latina precisa ser “corrigida e ensinada”, guiada pela razão ocidental. 

A mesma arrogância que justificou a catequese indígena e a pilhagem de Potosí agora se disfarça de diplomacia humanitária e de reconhecimento moral. A retórica muda, mas o gesto é o mesmo, a negação da soberania e da maturidade política de nossos povos latino americanos.

Enquanto isso, seguem explorando o lítio, o nióbio, a Amazônia, o gás da Bolívia e a soja brasileira. Continuam comprando barato e vendendo caro, ensinando “democracia” e praticando protecionismo. 

E agora, premiam opositores de governos que não se curvam aos seus interesses estratégicos. O Nobel, nesse contexto não é uma celebração da paz, não passa de uma extensão da política externa colonialista.

Por isso, repito, quando Corina declarou estar “chocada” com o prêmio, confesso que me identifiquei. Também estou. Mas o meu choque é outro, meu choque é perceber como o velho colonialismo europeu disfarçado de reconhecimento moral, continua decidindo quem são os heróis e os vilões da América Latina.

E enquanto isso, seguimos tentando ser ouvidos — não como discípulos, mas como povos livres e auto determinados.

Por Eli Mariotti




A campanha eleitoral, especialmente no contexto de disputas majoritárias como as eleições municipais, tem se tornado um campo fértil para o uso de estratégias manipulativas e ofensivas, principalmente por parte de candidatos que adotam uma retórica extremista, típica da extrema direita. Um exemplo claro desse comportamento é visto nas atitudes do candidato Ricardo Marçal, que disputa a prefeitura de São Paulo. Suas ações e discursos ilustram táticas que não apenas desarmam seus adversários, mas também utilizam uma retórica ambígua para atacar por flancos previamente preparados com palavras amigáveis. Vou detalhar essa estratégia e explorar algumas das situações em que ela foi usada.

A Tática da Ambiguidade: Desarmar para Atacar

Uma das características centrais da estratégia de Marçal é a utilização de declarações aparentemente conciliatórias para, logo em seguida, desferir ataques diretos e calculados. Este método envolve a criação de uma falsa sensação de desarmamento, em que o adversário acredita que um tema ou questão foi resolvido de forma pacífica, apenas para ser surpreendido por um ataque subsequente.

Esse comportamento foi exemplificado depois de um pedido de perdão a José Luiz Datena anterior ao debate na TV Cultura. Marçal pediu perdão ao apresentador por atitudes anteriores, em um gesto que poderia ser interpretado como genuíno e conciliatório. No entanto, poucos dias depois, durante o debate citado, ele voltou a atacá-lo. A tática aqui é clara: ao desarmar temporariamente o adversário com um pedido de perdão, Marçal busca pega-lo desprevenido, expondo suas fragilidades quando menos se espera.

Outro exemplo revelador foi seu comportamento em relação ao atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. Antes do debate desta terça, no UOL/Rede TV, Marçal mandou um bilhete a Nunes, afirmando que não desejava envolver a família nos ataques da campanha, declarando sua intenção de focar nos aspectos políticos. No entanto, logo depois, ele atacou diretamente a família do prefeito, na pessoa de sua esposa. Novamente, temos a estratégia de desarmar previamente o flanco que será atacado. Ao afirmar que respeitaria um limite ético (não atacar a família), Marçal abre o caminho para que, quando o ataque ocorra, ele já tenha minado a resistência do adversário e desviado a atenção da crítica.

A estratégia de ser contra o crime mesmo acusado de fazer parte dele

Marçal também se coloca como um opositor ferrenho do crime organizado, como o Primeiro Comando da Capital (PCC). Contudo, surgiram relatos e processos criminais que sugerem um possível envolvimento de sua campanha com o crime, seja diretamente ou por meio de alianças obscuras. Esta contradição reflete outra faceta da estratégia: projetar uma imagem de opositor para esconder possíveis vínculos ou ações que vão na direção oposta ao discurso. Neste caso, a retórica de Marçal se constrói como um defensor da moralidade e da ordem, mas seus vínculos parecem contradizer diretamente essa imagem, novamente minando a confiança do público e adversários.

Em debates e declarações, Marçal também aplicou essa mesma técnica contra Tábata Amaral. Embora tenha inicialmente adotado um discurso de respeito à jovem parlamentar, posicionando-se como alguém que dialoga com novas ideias, rapidamente ele mudou o tom, utilizando questões pessoais e políticas contra ela. Esta alternância entre discurso amigável e ataques calculados faz parte de uma estratégia para confundir os adversários e criar um ambiente no qual eles não estão preparados para se defender adequadamente.

Como classificar as estratégias da “nova” extrema direita:

Essa estratégia, frequentemente utilizada ultimamente por políticos de extrema direita, pode ser classificada como uma forma de "desarmamento retórico seguido de ataque". Ela se baseia em quatro pilares:

  1. Desarmamento temporário: Criar um ambiente de aparente paz e conciliação, geralmente por meio de desculpas públicas, declarações de respeito ou negações de intenção de ataque.
  1. Ataque por flancos desguarnecidos: Utilizar os momentos seguintes ao desarmamento para atacar justamente o ponto que foi previamente protegido com palavras conciliatórias.
  1. Contradição intencional: Lançar mão de discursos contraditórios, como dizer-se contra o crime organizado enquanto mantém vínculos suspeitos, para confundir o público e dividir a narrativa.
  1. Manipulação da imagem pública: Criar uma imagem de defensor da moralidade e da ordem, enquanto usa táticas inescrupulosas para lacrar nas Redes Sociais, cujo maior objetivo é enfraquecer os adversários.
Políticos experientes que são pegos pela rede da mediocridade

Essa estratégia, que tem sido frequentemente usada por figuras da extrema direita, pode ser vista como habilidosa em um nível estratégico, mas não necessariamente brilhante. Ela é eficaz, especialmente quando os adversários não estão preparados para responder a mudanças rápidas de postura. No entanto, essa estratégia não é inovadora nem complexa – é uma técnica básica de desorientação, onde o foco está em criar uma falsa sensação de segurança para depois atacar em um momento de vulnerabilidade.

Em debates e campanhas eleitorais, os candidatos muitas vezes se preparam para confrontos diretos e esperam que os ataques sejam feitos de forma previsível. Marçal tira vantagem disso ao alternar entre o discurso de conciliação e o ataque, criando um ciclo de confusão que pega os oponentes desprevenidos. Essa técnica funciona principalmente quando os adversários são excessivamente focados em suas próprias defesas e não estão atentos às mudanças de comportamento do oponente.

Por outro lado, o fato de ser uma estratégia básica pode também expor suas limitações. Se os adversários antecipam esse padrão de comportamento, a tática se torna previsível e perde força. É uma abordagem que depende muito da surpresa e da capacidade de desarmar psicologicamente o oponente, mas não necessariamente de um conteúdo ou habilidade mais substancial.

Em resumo, não é uma tática brilhante, mas sim eficaz na exploração de falhas na preparação dos adversários. Adversários mais experientes e atentos podem desarmá-la facilmente, transformando o ataque em uma oportunidade de expor a inconsistência e a desonestidade do candidato.

A utilização de tais táticas, como as exemplificadas por Marçal, tem consequências profundas para a política. Elas criam um ambiente de desconfiança, polarização e desgaste das relações entre candidatos, partidos e eleitores. Além disso, o uso de tais métodos pode resultar em um enfraquecimento do debate público, uma vez que o foco se desvia de políticas públicas e propostas concretas, deslocando-se para o campo das trocas de acusações e manipulações.

O comportamento de Ricardo Marçal em sua campanha é um reflexo de uma tática política que visa desorientar e enfraquecer os adversários por meio de um discurso contraditório e manipulação. Para enfrentá-la, é essencial que os candidatos e o público estejam conscientes dessas técnicas e preparados para expor suas inconsistências e perigos ao debate democrático.

"Quando estamos perto, devemos fazer o inimigo acreditar que estamos longe; quando longe, fazê-lo acreditar que estamos perto."

Sun Tzu - A arte da guerra



A relação entre os partidos políticos e seus representantes regionais é um tema que frequentemente gera debates sobre alinhamento ideológico e fidelidade às diretrizes nacionais. 

No caso do Partido dos Trabalhadores (PT) na Paraíba, particularmente em João Pessoa, essa questão se torna ainda mais relevante ao analisarmos o apoio de membros do diretório estadual e municipal ao prefeito Cícero Lucena, que contraria os princípios e o programa de governo defendido pelo PT em nível nacional. 

Tal postura gera indignação entre os filiados, pois evidencia uma tendência ao fisiologismo e ao distanciamento dos compromissos éticos firmados pelo partido com a população.

O fisiologismo, caracterizado pelo apoio político com base em trocas de favores e interesses pessoais em detrimento do bem comum, compromete a credibilidade de qualquer partido que se proponha a atuar de forma transparente e responsável. 

No caso em questão, os membros que insistem no apoio ao prefeito Cícero Lucena estão, na visão dos críticos, traindo as diretrizes nacionais do PT, que visam à construção de uma política voltada para o interesse popular, com foco no desenvolvimento social e econômico das comunidades mais vulneráveis.

A intervenção da direção nacional do partido, no sentido de forçar uma candidatura própria, a pedido do partido inicialmente, surge como uma tentativa de resgatar a coerência e a unidade interna. 

O PT, historicamente vinculado às pautas de justiça social, direitos humanos e políticas públicas inclusivas, encontra-se, assim, em uma encruzilhada e divergência entre a maioria dos militantes e filiados que querem manter sua identidade ou e o grupo minoritário que está na gestão do partido que cedem aos apelos do pragmatismo fisiológico que se traduz em alianças questionáveis e por isso trabalham em detrimento da campanha eleitoral do candidato 13, Luciano Cartaxo a prefeitura de João Pessoa.

Ademais, ao apoiar uma administração que adota práticas administrativas consideradas contrárias aos princípios defendidos pelo PT, os membros do diretório estadual e municipal perderam a confiança da base militante e dos eleitores que acreditam nos ideais progressistas do partido. A postura deles também revela um distanciamento entre as lideranças nacionais e os anseios da população de João Pessoa, que sofre as consequências de uma gestão pública que não prioriza os interesses coletivos e o real desenvolvimento da Capital da Paraíba.

Em conclusão, o apoio ao prefeito Cícero Lucena por parte de membros do PT na Paraíba representa um desvio ético grave que compromete a coesão partidária e a defesa de princípios essenciais para o partido. Em tempos de crise política e social, é fundamental que os partidos mantenham uma postura de integridade e respeito às suas diretrizes, visando sempre o bem-estar da população e a construção de uma sociedade mais justa.

O agravante desta postura anti ética e fisiologista de gestores do PT da Paraíba e de João Pessoa, se dá ainda mais pelo fato de que o presidente Lula apoia o candidato pelo PT, Luciano Cartaxo, o que configura um sério motim contra o próprio presidente Lula, liderança incontestável do partido e as lideranças nacionais do PT - Partido dos Trabalhadores.