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A detenção de 14 jornalistas durante a sessão de posse ocorrida ontem na Assembleia Nacional da Venezuela não é apenas um episódio lamentável. É um sintoma grave do Estado que passou a enxergar a informação como inimiga. Quando jornalistas são tratados como suspeitos ou criminosos por exercerem sua função, o problema já não é de segurança, mas de abuso de poder.

O Parlamento deveria ser o espaço máximo da transparência. É ali que decisões são tomadas em nome do povo, e é justamente ali que a presença da imprensa se torna indispensável. Impedir registros, vasculhar celulares, bloquear transmissões e deter profissionais sem acusação formal revela uma escolha política clara: controlar a narrativa em vez de prestar contas.

O momento político venezuelano ajuda a explicar, mas não a justificar o ocorrido. Em meio a uma transição de poder marcada por incertezas, isolamento internacional e disputas internas no chavismo, além da forte pressão norte americana, o Legislativo venezuelano opta por uma prática conhecida no Brasil: intimidar para reduzir o olhar externo. A imprensa, sobretudo a internacional, torna-se um risco porque registra aquilo que o discurso oficial não consegue sustentar.

Há ainda um aspecto mais profundo e preocupante. A apreensão de equipamentos e o acesso forçado a dados pessoais não atingem apenas os jornalistas, mas também suas fontes, muitas vezes cidadãos comuns. Esse tipo de ação cria um ambiente de medo coletivo, onde falar, denunciar ou simplesmente relatar fatos passa a ser visto como um ato perigoso.

Não se trata apenas da Venezuela. O ataque à imprensa por representantes do Estado é um fenômeno recorrente nos últimos tempos. Quando o poder deixa de dialogar com a sociedade, passa a dialogar com o silêncio. E o silêncio, sabemos que nunca é neutro, ele sempre favorece quem manda.

A presença de jornalistas estrangeiros entre os detidos agrava ainda mais o episódio. Ao agir assim, o Estado envia ao mundo uma mensagem inequívoca: prefere o isolamento à transparência. Prefere o controle à crítica. Prefere o medo ao debate público.

Na Câmara dos Deputados em Brasília, jornalistas foram violentamente expulsos por ordem do deputado Hugo Motta para impedir o registro da retirada forçada do deputado Glauber Braga da mesa diretora. O objetivo era claro: impedir que a violência política fosse documentada, registrada e tornada pública. A cena, embora em outro contexto e país, dialoga diretamente com o que ocorreu na Venezuela: quando o poder se sente ameaçado pela imprensa, o primeiro alvo é quem registra os fatos.

Ambos os casos revelam a mesma lógica: o poder prefere o silêncio à exposição, o controle à crítica, a força ao debate. Quando isso acontece, pouco importa o discurso oficial, a ideologia declarada ou o país em questão. O método é o mesmo.

É preciso afirmar com clareza: não existe democracia possível sem imprensa livre. A liberdade de imprensa não é concessão, nem favor institucional, é um direito coletivo e constitucional. Quando jornalistas são calados, não é a imprensa que perde; é a sociedade inteira que fica às cegas.

Estados, governos ou lideranças que temem jornalistas, na verdade, temem a história sendo escrita por quem não é seu correligionário.

Por
Eli Mariotti


Antes de mais nada esclareço que este é um artigo de opinião. Os fatos estão em curso e muita coisa ainda será revelada. O conteúdo desta matéria procura fazer uma soma dos fatos, questionamentos na imprensa global e a conjunção de fatores militares. A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, em 3 de janeiro de 2026, não foi apenas uma violação escancarada do direito internacional e da soberania venezuelana. Foi também um evento revelador, e talvez, o mais revelador de toda a história recente do chavismo. Não apenas pelo que aconteceu, mas, sobretudo, pelo que não aconteceu.

Um presidente removido do poder por uma força estrangeira, em um país que se orgulhava de possuir um dos aparatos de segurança mais fechados, politizados e leais do continente, sem resistência militar significativa, sem convocação à guerra popular, sem colapso institucional imediato. Isso, por si só, já exige mais do que indignação: exige análise, e até mesmo explicações.

Não se trata de relativizar a responsabilidade dos Estados Unidos. Washington agiu como agressor, sem mandato internacional, instrumentalizando acusações judiciais e o discurso do combate ao narcotráfico para executar uma operação de caráter claramente geopolítico. Isso está dado. O ponto incômodo e politicamente explosivo para a esquerda é outro:

Uma ação dessa magnitude teria sido possível sem fissuras, rearranjos ou consentimento tácito dentro do próprio chavismo?

UM ESTADO QUE NÃO CAIU E APENAS MUDOU DE MÃOS

Horas após a captura de Maduro, o Supremo Tribunal de Justiça reconheceu Delcy Rodríguez como presidente interina, que já havia sido empossada secretamente pelo Legislativo Venezuelano. O Estado não colapsou. Ministérios seguiram funcionando. O setor petrolífero permaneceu operacional. E ainda 16 petroleiros venezuelanos furaram o bloqueio militar estadunidense e ninguém sabe onde estão agora. As Forças Armadas garantiram a ordem interna, não o confronto externo.

Segundo uma investigação do "Miami Herald", a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez e o seu irmão Jorge promoveram secretamente um plano para uma transição de poder sem Nicolás Maduro, mediada pelo Qatar.

Um grupo de altos funcionários venezuelanos, liderado pela vice-presidente Delcy Rodríguez e pelo seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, promoveu discretamente nos últimos meses uma série de iniciativas para se apresentarem a Washington como uma alternativa "mais aceitável" ao regime de Nicolás Maduro.

Esse detalhe muda tudo. Golpes que destroem regimes produzem caos. O que se viu na Venezuela foi continuidade administrativa com troca de comando.

Delcy Rodríguez não é uma outsider. Advogada, filha de um histórico líder guerrilheiro e figura central do chavismo desde 2003, ela reúne duas características raras no atual cenário venezuelano: legitimidade interna e aceitabilidade externa. Como ministra do Petróleo, construiu interlocução com setores do mercado internacional de energia, incluindo canais indiretos com Wall Street e com a indústria petrolífera dos Estados Unidos.

Sua ascensão atende a interesses objetivos que são, preservar o regime, aliviar sanções, recuperar a economia petrolífera e oferecer previsibilidade institucional a investidores estrangeiros. Para Washington, Delcy representa a possibilidade de negociar com um governo chavista sem o peso simbólico, jurídico e político que Maduro se tornara.

O SILÊNCIO DE DIOSDADO CABELLO E A LÓGICA DA AUTOPRESERVAÇÃO

Se Delcy é a face externa da transição, Diosdado Cabello continua sendo o núcleo duro do poder interno. Ministro do Interior, Justiça e Paz desde 2024, controlador dos serviços de inteligência e um dos homens mais poderosos do PSUV, Cabello também é alvo direto da Justiça norte-americana, acusado de envolvimento em esquemas de narcotráfico e incluído em listas de recompensa milionária.

Seria razoável esperar dele uma reação imediata, ruidosa e radical. Afinal ele também tem um programa na tv venezuelana. Não houve. O silêncio estratégico de Cabello sugere cálculo, não fraqueza. Defender Maduro naquele momento poderia significar arriscar a sobrevivência do regime inteiro e a sua própria.

Em sistemas sob cerco, líderes tornam-se descartáveis quando passam a ameaçar a estrutura que deveriam proteger.

JORGE RODRÍGUEZ: O OPERADOR DO CONSENSO POSSÍVEL

Pouco visível ao público internacional, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional desde 2021 e irmão de Delcy, talvez seja o personagem mais decisivo do pós-Maduro. Ex-ministro da Comunicação, ex-prefeito de Caracas e estrategista da campanha presidencial de 2024, ele é reconhecido como operador político de alto nível, especialista em negociações complexas.

Jorge garante algo essencial: continuidade jurídica. Sua presença assegura que a transição não seja formalmente caracterizada como ruptura interna, mas como rearranjo institucional. Nada parece improvisado. Se houve aceitação tácita da remoção de Maduro, dificilmente ocorreu sem sua engenharia política.

O IMPRESCIDÍVEL FATOR MILITAR: VLADIMIR PADRINO E A ESCOLHA PELO SISTEMA

Nenhuma análise é completa sem Vladimir Padrino, ministro da Defesa desde 2014 e comandante efetivo das Forças Armadas. Símbolo de lealdade histórica ao chavismo por sua atuação em 2002, Padrino sempre foi o fiador da estabilidade militar do regime no Governo Chavez e no governo Maduro.

Justamente por isso, sua postura na invasão de 3 de janeiro de 2026 é decisiva e totalmente questionável. As Forças Armadas não reagiram. Houve um sequestro praticamente inviável em tese e muito bem sucedido em apenas 20 minutos. Não houve baterias antiaéreas, infantaria nas ruas, dos 5.000 Igla-S russos nenhum foi disparado, mobilização nacional, pronunciamentos inflamados conclamando a guerra ou ruptura da hierarquia. A leitura possível é dura, mas coerente: defender Maduro significaria colocar em risco as Forças Armadas e o próprio chavismo.

Entre o líder e o sistema, escolheu-se o sistema.

CORINA MACHADO: A AUSÊNCIA QUE REVELA TUDO

Talvez o dado mais revelador de todo o processo não esteja em quem assumiu o poder, mas em quem foi deliberadamente excluída.

Corina Machado, líder da oposição venezuelana, referência internacional, vencedora do Prêmio Nobel da Paz e símbolo do enfrentamento civil ao chavismo, não foi sequer cogitada pelo staff de Donald Trump como liderança de um governo de transição. Isso, à primeira vista, parece ilógico. Na prática, é profundamente revelador.

Se os Estados Unidos estivessem interessados em uma ruptura real com o chavismo, Corina seria a escolha óbvia. Sua parcial legitimidade internacional, sua oposição ao regime e seu capital simbólico a colocariam como figura natural de uma suposta "transição democrática". A justificativa divulgada na imprensa que Corina não tem apoio popular é improcedente. Se Trump quisesse, ele simplesmente imporia Corina ao povo venezuelano e ponto final.

Mas ela representa exatamente o que Washington não quis naquele momento:
  • ruptura institucional profunda,
  • revisão de acordos herdados,
  • instabilidade política prolongada,
  • e imprevisibilidade econômica.
Corina Machado não oferece garantias ao sistema petrolífero, não assegura continuidade administrativa e não negocia com o velho estado chavista. Para os EUA, ela seria uma incógnita perigosa. Para o chavismo, uma ameaça existencial.

Sua exclusão revela que o objetivo da operação não era supostamente “democratizar” a Venezuela, mas "estabilizá-la" sob novos termos.

CHAVISMO RAIZ OU CHAVISMO DE SOBREVIVÊNCIA?

Falar em “golpe do chavismo raiz” não é acusar o regime de uma traição clássica, com tanques nas ruas. Trata-se de algo mais sofisticado e contemporâneo: um golpe híbrido, em que a força externa executa o ato final, mas encontra terreno previamente preparado por disputas internas, cálculos frios e pactos silenciosos.

Maduro tornou-se um passivo político. Sua permanência inviabilizava negociações, aprofundava o isolamento e ameaçava o sistema como um todo. Sua remoção, ainda que pelas mãos do inimigo histórico, foi tolerada ou conscientemente não impedida por setores centrais do próprio chavismo.

E nisso fica uma lição dura para a esquerda latino-americana. A invasão da Venezuela é um crime internacional e deve ser denunciada como tal. Mas ignorar as contradições internas do chavismo seria um erro ainda maior. Projetos populares não fracassam apenas por ataques externos, mas porque estão sujeitos a apodrecerem quando se confundem com a simples preservação do poder.

Se, após Maduro, o que se consolida é o mesmo sistema com a mesma face, então não houve ruptura histórica, mas reciclagem do poder.

A história ainda está em curso. Mas uma coisa já se impõe com clareza desconfortável:
a queda de Maduro explica menos o imperialismo dos Estados Unidos e mais os limites, as fraturas e os pactos silenciosos de um chavismo que escolheu sobreviver, mesmo que, para isso, tivesse de sacrificar seu próprio líder e excluir sua principal adversária oposicionista.

E essa talvez seja a verdade mais difícil de aceitar.

Por
Eli Mariotti


Na madrugada deste sábado, 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos realizaram ataques militares de grande escala contra a Venezuela, atingindo alvos na capital, Caracas, e em outros estados, numa operação que culminou — segundo o presidente americano Donald Trump — na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que teriam sido levados para fora do país sob custódia americana. 

A ofensiva, marcada por explosões e aeronaves voando a baixa altitude, foi anunciada por Trump em uma rede social nas primeiras horas do dia, descrita por ele como um “grande ataque bem-sucedido” e uma resposta a acusações de narcotráfico e “crimes” atribuídos ao governo venezuelano.

Governos latino-americanos, europeus e organizações internacionais reagiram com chocante preocupação e forte condenação, classificando o episódio como uma violação sem precedentes da soberania venezuelana e do direito internacional. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os ataques e a captura de Maduro “ultrapassam uma linha inaceitável”, caracterizando-os como uma afronta grave à soberania e ao multilateralismo, além de generarem um precedente perigoso para a ordem global. 

O presidente Lula convocou convocou uma reunião emergencial e assim como outros países latinos americanos, pediu a convocação do Conselho de Segurança da ONU e ações vigorosas da Organização das Nações Unidas diante do episódio. A Rússia e Turquia, entre outros europeus também exigiram a urgência desta convocação.

Pelo lado venezuelano, o governo denunciou a operação como agressão militar imperialista, decretou estado de emergência nacional e mobilizou seus planos de defesa, afirmando que o ataque constitui uma “violação flagrante” da Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a soberania de um Estado sem autorização do Conselho de Segurança ou outra justificativa legal. 

Caracas declarou que a ação dos EUA ameaça a paz e a estabilidade tanto na Venezuela quanto em toda a América Latina e que os objetivos reais seriam apoderar-se dos recursos estratégicos, especialmente petróleo e minerais, contrariando o direito do povo venezuelano de decidir seu próprio destino.

O impacto político e militar dessa ofensiva é imenso. Analistas lembram que nunca antes na história recente um ataque desta natureza — com uma operação militar direta pela Força Delta e a captura do líder de um país soberano — havia sido perpetrado pelos Estados Unidos na América Latina desde a invasão do Panamá em 1989. Essa operação inova pelo caráter de ataque direto a um país vizinho sem uma resolução clara de organismos multilaterais e sem uma justificativa aceita universalmente no direito internacional, o que representa um rompimento drástico com as normas que há décadas regem as relações entre Estados no Hemisfério.

A reação da comunidade internacional tem sido diversa, mas majoritariamente contrária à intervenção. Países como Colômbia e Cuba condenaram o ataque e pediram que a comunidade internacional responda com urgência aos eventos. Enquanto isso, alguns líderes — como o presidente argentino Javier Milei — expressaram apoio às ações dos EUA, afirmando que a queda de Maduro representa uma “vitória da liberdade”. Essa divisão evidencia que a crise pode aprofundar tensões regionais já existentes e colocar fronteiras ideológicas à prova, num momento em que o direito à autodeterminação dos povos e os princípios de não-intervenção se veem seriamente ameaçados.

Militares venezuelanos leais ao governo de Maduro apontaram que a resistência à ofensiva será firme, e ao longo do dia relatos ainda desencontrados falavam sobre mobilização nacional e possíveis confrontos. A incerteza sobre o paradeiro real de Maduro e de Cilia Flores — o governo venezuelano, na pessoa da vice-presidente Delcy Rodriguez, exigiu “prova de vida” imediata — alimenta ainda mais a tensão dentro e fora do país.

Especialistas em relações internacionais já indicam que essa ação pode desencadear uma crise de proporções imprevisíveis na região, estimulando debates sobre o papel das grandes potências, a preservação da soberania dos Estados e os limites do uso da força no sistema internacional. Enquanto os Estados Unidos defendem que agiram em nome da justiça contra um regime que consideram ilegítimo e criminoso, muitos governos e organizações veem o ataque como uma perigosa escalada de imperialismo militar, cujo efeito de longo prazo pode ser instabilidade contínua, maior polarização geopolítica e riscos humanitários para a população venezuelana e seus vizinhos.

A América Latina está em guerra.

Eli Mariotti




A notícia de que a venezuelana María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz surpreendeu o mundo e supostamente até mesmo ela, que declarou: “Estou chocada”— e confesso que também me chocou. Não pelo estranho reconhecimento em si, mas pelo simbolismo político que essa escolha carrega.

Mas se eu fiquei chocado, será que Corina estava realmente chocada? Ora, se ela foi indicada para o prêmio por Marco Rubio, que todos sabemos quem é, como ela não saberia disto? A tão falada influência dos governos norte americanos no Nobel é de conhecimento geral no planeta. Mas porque o Nobel, que é europeu e tem influência direta da União Europeia, se deixa dirigir pela política externa norte americana?

Será por subserviência? Não creio. O fato é que os interesses norte americanos se enquadram exatamente na visão colonial que a Europa tem do chamado Terceiro Mundo, nesse caso em especial, a América Latina. 

A cada nova premiação, o Comitê Nobel revela mais de si do que de seus laureados. E neste caso, o prêmio parece dizer menos sobre a paz na Venezuela e mais sobre o olhar com que a Europa ainda enxerga a América Latina: um olhar de tutela, de missão civilizatória, de poder moral sobre o destino alheio.

O argumento oficial para o prêmio é conhecido: Corina teria sido agraciada por sua “luta pacífica pela democracia” e pela “resistência ao autoritarismo”. Mas, na prática, trata-se de uma figura cuja atuação política foi marcada pela polarização, pela instabilidade e pelo alinhamento direto com os interesses de Washington e Bruxelas. 

É portanto, legítimo questionar se o Nobel, nesse caso, premiou uma defensora da paz — ou apenas uma peça simbólica na engrenagem geopolítica ocidental.

Não entro aqui no mérito do governo Maduro. O que observo é o fato histórico e sociopolítico de que, mesmo com todas as dificuldades, ele tem apoio majoritário do povo venezuelano — o que o torna, ao menos sob o ponto de vista da soberania, uma expressão legítima de um projeto nacional. 

A oposição, por sua vez, tem sido minoritária e sempre dependente do respaldo externo. Então, quando a Europa escolhe Corina como “símbolo da paz”, o que ela faz é legitimar uma oposição que internamente não conseguiu legitimidade nas urnas. Isso não é diplomacia, é interferência política simbólica.

E além de tudo, esse prêmio ainda pode incentivar ou até mesmo legitimar o assédio militar que os Estados Unidos do Governo Trump vêm fazendo a Venezuela. Fato que ao contrário de promover a paz, pode gerar uma crise geopolítica de proporções inimagináveis na América Latina.

Essa não é a primeira vez que o Nobel da Paz se torna um instrumento político. Henry Kissinger o recebeu em 1973, mesmo sendo o estrategista de bombardeios no Vietnã. Barack Obama o ganhou antes mesmo de governar, como prêmio pela esperança, por ser o primeiro presidente negro do Estados Unidos. 

Aliás tenho sérias sérias suspeitas que a direita global se apropriou do identitarismo aí. Mas isso é assunto para outro artigo, e quando eleito presidente, Obama na prática não promoveu a paz. Em alguns momentos foi o contrário.

E é verdade que Yasser Arafat também recebeu o Nobel, em 1994, mas sua luta não pode e nem deve ser comparada a esses casos. Arafat ainda representa uma resistência histórica por um Estado palestino, uma causa humanitária e de justiça social que transcende fronteiras e desafia todas as escalas convencionais da política mundial. 

O Oriente Médio nesse contexto, é um território de dores e de resistências que fogem a qualquer paralelo. Arafat não foi premiado por conveniência, mas reconhecido por uma luta que até hoje, continua sendo travada no campo da dignidade humana e contra o genocídio palestino.

Já no caso de Corina, o prêmio não parece traduzir um gesto de reconhecimento à paz, mas um recado político. O Nobel da Paz historicamente reflete os dilemas do próprio Ocidente. Ora tenta reparar sua consciência, ora reafirma sua influência. 

O caso da Venezuela expõe exatamente isso — o uso do prestígio moral europeu como ferramenta de interferência nos rumos latino-americanos.

O colonialismo europeu, afinal, nunca desapareceu. Apenas trocou de roupa. A Europa que dividiu o continente em 1494 no Tratado de Tordesilhas, que saqueou o ouro do Brasil e a prata de Potosí, que impôs sua fé e sua língua aos povos nativos, continua hoje impondo sua narrativa e seu julgamento sobre o que é democracia, liberdade e paz.

Depois das independências latino americanas, os grilhões mudaram de forma, mas não de essência. No século XIX vieram os empréstimos britânicos e as ocupações francesas sob o pretexto de cobrar dívidas. No século XX, o colonialismo vestiu terno e gravata, FMI, Banco Mundial, planos de ajuste e doutrinas econômicas importadas que submeteram nossos povos à dependência. 

E no século XXI, o colonialismo se tornou simbólico — o poder de quem narra o mundo. Quando a BBC, o Le Monde ou o El País decidem o que é democracia ou autoritarismo na América Latina, estão em essência reafirmando a velha hierarquia de quem fala e quem é falado.

Premiar Corina Machado, é portanto, reafirmar o mito civilizatório europeu. A ideia de que a América Latina precisa ser “corrigida e ensinada”, guiada pela razão ocidental. 

A mesma arrogância que justificou a catequese indígena e a pilhagem de Potosí agora se disfarça de diplomacia humanitária e de reconhecimento moral. A retórica muda, mas o gesto é o mesmo, a negação da soberania e da maturidade política de nossos povos latino americanos.

Enquanto isso, seguem explorando o lítio, o nióbio, a Amazônia, o gás da Bolívia e a soja brasileira. Continuam comprando barato e vendendo caro, ensinando “democracia” e praticando protecionismo. 

E agora, premiam opositores de governos que não se curvam aos seus interesses estratégicos. O Nobel, nesse contexto não é uma celebração da paz, não passa de uma extensão da política externa colonialista.

Por isso, repito, quando Corina declarou estar “chocada” com o prêmio, confesso que me identifiquei. Também estou. Mas o meu choque é outro, meu choque é perceber como o velho colonialismo europeu disfarçado de reconhecimento moral, continua decidindo quem são os heróis e os vilões da América Latina.

E enquanto isso, seguimos tentando ser ouvidos — não como discípulos, mas como povos livres e auto determinados.

Por Eli Mariotti
Imagem criada por IA - Papo de Jacaré

O anúncio de tarifas punitivas de 20% a 50% sobre produtos brasileiros por Donald Trump, respaldado pelo Secretário de Estado Marco Rubio, representa muito mais que uma guerra comercial. É o componente econômico de uma ofensiva política orquestrada contra a democracia brasileira, cujo marco fundamental foi o golpe de estado do 8 de janeiro. Esta investida, que tem como peça do jogo, as sanções pessoais ao Ministro do STF Alexandre de Moraes, expõe uma estratégia multifacetada para intimidar as instituições que garantiram a sobrevivência da República brasileira e influenciar fortemente as eleições de 2026.

DO TARIFAÇO ÀS SANÇÕES: A ESCALADA DO ASSÉDIO ESTADUNIDENSE

A causa imediata do "tarifaço" trumpista é eleitoral - buscar votos no "Cinturão da Ferrugem" americano - mas sua motivação profunda é política. O alvo declarado do Secretário de Estado Marco Rubio, antigo crítico do Brasil e aliado de Jair Bolsonaro, é o Ministro Alexandre de Moraes. As sanções pessoais impostas ao magistrado e sua esposa, sob a acusação espúria de "perseguição política", constituem interferência inédita e grave na soberania judicial brasileira. Moraes, que como presidente do TSE garantiu eleições limpas e como relator do STF desarticulou os financiadores do 8 de janeiro, tornou-se o símbolo da resistência democrática que o bolsonarismo quer ver destruída.

A resposta do governo Lula foi um caso de escola na defesa da soberania. Ao acionar a OMC e denunciar a violação do direito internacional, Lula não defendia apenas produtos, mas o princípio de autodeterminação dos povos. A postura firme, recebendo apoio transversal no Congresso e na maioria inquestionável da população brasileira, projetou o Brasil mundialmente como bastião da democracia, contrastando com o governo Trump, que na figura do cubano Secretário de Estado, acolhe abertamente a agenda dos derrotados no 8 de janeiro. Sim, porque a consolidação das eleições presidenciais de 2022, ocorreu no dia 8 de janeiro de 2023.

O PARADOXO E A ARMADILHA: INFLAÇÃO E O ACENO ENGANOSO

Ironia do conflito, as tarifas trouxeram alívio involuntário à inflação dos alimentos no Brasil, ao segurar parte da commodity no mercado interno. Este respiro econômico, porém, é mero efeito colateral diante da armadilha maior revelada no "aceno" de Trump a Lula durante a Assembleia Geral da ONU. O gesto, que provocou inédita frenesi midiática, era isca para forçar reunião na Casa Branca onde Lula seria pressionado a negociar suas instituições - especificamente, o STF e a pessoa de Moraes - em troca de alívio comercial.

O Itamaraty, já escaldado pelas humilhações impostas ao Presidente da Ucrânia e ao Presidente da África do Sul, busca realizar esta reunião em local neutro , ou em último caso, por telefone ou por conversa de vídeo. E as negociações, se ocorrerem, serão em campo minado. Lula focará em Aviação (Embraer-Boeing), Aço (isenções tarifárias) e Tecnologia (regulação de Big Techs) - setores de interesse nacional. Mas Trump e Rubio tentarão impor pauta política ideológica com benefícios ou até mesmo anulação da sentença a Jair Bolsonaro. Ceder seria legitimar a interferência estrangeira e enterrar a soberania nacional.

Por outro lado, Trump é conhecido por ser um excelente negociador as portas fechadas, o que pode ser usado por Lula para oferecer um confortável aceno no setor das minerações de terras raras.

O DESESPERO BOLSONARISTA E A FRAQUEZA EXPOSTA

O reconhecimento tácito por Trump, colocando Lula como interlocutor legítimo no seu discurso da ONU, foi terremoto no já frágil quartel-general bolsonarista. A narrativa de "Trump salvador" desmorona quando o próprio ídolo trata com o governo que chamam de "ditadura". Em Washington, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo foram vistos em delírio de desespero, tentando sem sucesso convencer aliados republicanos de que o gesto era "falso". A cena mostrou a completa irrelevância política a que foram relegados.

Claro que a expressão de Marco Rubio na plateia da ONU, não foi nada amigável. Mas Trump é um empresário por excelência. Para ele, a ideologia da extrema direita não passa de uma ferramenta de negócios. Portanto, seria talvez de imaginar que a influência de Marco Rubio no gabinete de Trump, não seja assim tão inquestionável.

Ou que talvez, os efeitos negativos das tarifas dentro do próprio território norte americano, esteja fazendo com o Secretário de Estado veja diminuir sua influência sobre o mandatário da Casa Branca.

Enquanto isso, no Congresso Brasileiro, a base bolsonarista, que já perdera força com a prisão de Jair Bolsonaro e seus financiadores, vê definhar sua última tábua de salvação internacional.

Os eventos recentes confirmam que a investida de 8 de janeiro não terminou. Apenas migrou para uma guerra híbrida, travada em novas frentes: econômica (tarifas), diplomática (sanções) e de desinformação (a máquina de fake news amplificada por figuras internacionais).  As sanções a Moraes são, neste contexto, um 8 de janeiro por procuração, na tentativa de conseguir por pressão externa, o que não se conseguiu com quebradeira e terrorismo doméstico.

Isso explica o desespero bolsonarista em Washington e no Congresso, depois da abertura ao diálogo que Trump disponibilizou publicamente a Lula na ONU. Trump não é conhecido por “rasgar seda” para quem ele considera adversários. Portanto, há uma nova luz no fim do túnel.

O GAMBITO DA RAINHA E A RESISTÊNCIA DEMOCRÁTICA COMO ÚNICO CAMINHO

No tabuleiro deste xadrez geopolítico, as possibilidades de sucesso nas negociações são tênues, mas possíveis. Até agora, o governo Trump tem movido só os peões para pressionar o Brasil. Mas depois da ONU, o jogo agora é das Rainhas e Reis. Cavalos, bispos e torres fazem apenas movimentos estratégicos. Nestas peças leia-se o Itamaraty e o Departamento de Estado dos EUA.

No Xadrez o Gambito da Rainha é um movimento que sacrifica uma peça para garantir a vitória no jogo pela Rainha. Qualquer avanço dependerá da capacidade brasileira em separar comercial do político, mas possível, já que Trump declarou que negocia com quem ele gosta e a suposta “química” com Lula indica isso.

No entanto, a negociação entre Lula e Trump é um jogo de alta complexidade, onde o Brasil busca converter uma crise imposta em oportunidades concretas, defendendo intransigentemente sua soberania.

Trump utiliza o "tarifaço" e as sanções ao ministro Alexandre de Moraes como um gambito – um sacrifício inicial para forçar o Brasil a ceder em suas instituições, especialmente as investigações do 8 de janeiro.

A defesa e contra ataque de Lula se baseia na defesa Incondicional da soberania, isolando o tema judicial, tratando-o como uma linha vermelha intocável.

As negociações devem focar numa agenda de oportunidades estratégicas. Lula redireciona o diálogo para interesses nacionais vitais, focando em revogação das tarifas do aço, alumínio e etanol.

Na aviação, retomar a parceria estratégica entre Embraer e Boeing e na tecnologia, atrair investimentos de Big Techs em data centers e pesquisa radicados no Brasil, sem abrir mão da sua regulamentação imprescindível para os interesses brasileiros, tanto econômicos como políticos. E finalmente, a trunfo magnífico das Terras Raras, oferecendo este ativo estratégico – crucial para a tecnologia de ponta e a defesa dos EUA – não como commodity bruta, mas como base para uma parceria que inclua refino e industrialização no Brasil, com transferência de tecnologia.

O resultado tático será, caso a postura firme de Lula se mantenha e somada ao trunfo das terras raras, esvazie politicamente o bolsonarismo e coloca o Brasil em posição de barganha única. O sucesso será medido pela capacidade de obter avanços setoriais sem negociar um milímetro da soberania nacional, transformando uma investida hostil em alavanca para o desenvolvimento.

OS DESDOBRAMENTOS, PORÉM, JÁ MOLDAM O CENÁRIO PARA 2026

A postura intransigente na defesa de Moraes e do STF fortalece Lula perante o eleitorado que vê na democracia valor inegociável. Mostra que sua liderança é dique contra o avanço do autoritarismo global. Para a oposição bolsonarista, é o fim do mundo: seu principal aliado externo negocia com o governo que juram destruir.

A lição é clara: a soberania brasileira esteve e ainda está sob ataque, mas cada tentativa de quebrá-la - seja pelo terrorismo de 8 de janeiro ou pelas sanções de Washington - só tem servido para fortalecer as instituições e unir o país em torno da defesa incondicional de sua democracia. O Brasil não negociará seus juízes, suas leis ou sua verdade em troca de tarifas. Essa é a linha que não será cruzada - e que define o futuro não apenas do governo Lula, mas da própria continuidade democrática brasileira.

E o maior gambito sacrificado será Jair Bolsonaro e o bolsonarismo, em favor da jogada maior da Rainha, que é a Democracia Brasileira.

Eli Mariotti


A maior treta de cibersegurança nos EUA em agosto foi o vazamento de 2,7 bilhões de números de segurança social (algo parecido com o nosso CPF). Quem assumiu a bronca foi o grupo USDoD, que já invadiu várias empresas pelo mundo. Agora, uma investigação descobriu quem pode ser o cabeça do grupo: um cara chamado Luan, que é brasileiro.

Um relatório da CrowdStrike, recebido pelo TecMundo, revelou que o tal líder do USDoD seria um homem de 33 anos chamado Luan B.G., que mora em Minas Gerais, Brasil.

Todas as informações sobre ele já foram passadas para as autoridades. Conseguiram identificar até registro fiscal, emails, domínios, endereços IP, contas de redes sociais, telefone e cidade. Não revelaram detalhes específicos ao TecMundo para não expor o Luan totalmente.

“Revelar a identidade de alguém num relatório de inteligência tem seus riscos. Apesar do cara estar envolvido em atividades maliciosas na internet, a vida pessoal dele — como família, fotos e outras coisas — precisa ser protegida, a não ser que tenha algo a ver com a investigação”, disse a CrowdStrike.

O grupo USDoD apareceu nos últimos meses, alegando ataques a várias empresas e organizações. Eles participam de um fórum de cibercriminosos chamado Breach Forums e ficaram conhecidos por vazar dados de empresas como Airbus, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, e até o FBI.

O ataque mais recente, que deu o que falar, foi contra a Jericho Inc (National Data Public), dos EUA. Eles roubaram 2,9 bilhões de registros, o equivalente a 277 GB de dados, e colocaram à venda por US$ 3,5 milhões (mais ou menos R$ 19,7 milhões). Esses dados incluíam nomes completos, históricos de endereços dos últimos 30 anos e detalhes de parentes das vítimas.

O grupo também sugeriu que teria invadido a CrowdStrike e vazado dados confidenciais, mas a empresa diz que eram informações que já estavam disponíveis para o público e clientes.

RAMSOWARE

Há boatos de que os ataques do USDoD usaram um tipo de vírus chamado ransomware, e que eles teriam pegado emprestado o malware de outro grupo famoso, o RansomMed.

A investigação da CrowdStrike apontou que Luan B.G. tem um passado como hacktivista, começando lá em 2017, e que em 2022 ele teria começado a se envolver com crimes cibernéticos mais pesados.

Hacktivismo não é sempre crime. Às vezes, é só alguém que usa a internet para defender causas políticas. Mas, no caso do Luan, o que ligou ele aos crimes foi o uso das mesmas descrições de perfil em redes sociais.

“A CrowdStrike está de olho no USDoD desde o final de 2022, quando o grupo afirmou pela primeira vez que acessou dados de uma parceria público-privada dos EUA. Desde então, já relatamos a atividade do USDoD mais de 12 vezes”, disse a empresa.

O HACKER DEIXOU RASTROS

A identificação de Luan foi possível por causa do email que ele usava desde 2017 (“luanbgs22@”), que estava associado a várias contas pessoais e atividades online dele. Ele usava esse email para criar contas em fóruns, editar páginas no GitHub com ferramentas de ataque cibernético, e até para registrar domínios de projetos de hacking.

Um dos detalhes que chamou a atenção foi uma frase que ele usava no Instagram: “I Protect the hive. When the system is out of balance, I Correct” (algo como “Eu protejo a colmeia. Quando o sistema está desequilibrado, eu corrijo”). Essa mesma frase e o email estavam ligados à conta @equationcorp no Twitter.

O cara ainda usava vários apelidos nas redes, como NatSec, NetSec, LLTV, LBG91 e Labs22. A CrowdStrike diz que ele não tinha muito conhecimento técnico no começo, o que facilitou a identificação, principalmente por causa de fotos de perfil e emails.

A VAIDADE DO CRIMINOSO

A vaidade é comum entre cibercriminosos que atacam grandes empresas. Entre 2021 e 2022, outro grupo chamado Lapsus fez o mesmo, atacando empresas como Samsung, Claro, Ministério da Saúde, Rockstar, NVIDIA, JBS e outras.

O USDoD seguiu um caminho parecido. O líder do grupo deu uma entrevista ao site DataBreaches.net em 2023, o que ajudou ainda mais na sua identificação. Na entrevista, ele disse que tinha cerca de 30 anos, dupla cidadania (Brasil e Portugal) e que atualmente morava na Espanha.

Ele contou que começou em 1999, quando tinha 11 anos e entrou numa comunidade brasileira de jogos. Lá, usou suas habilidades para derrubar um pedófilo e foi incentivado por um desenvolvedor do software r3x a aprimorar suas habilidades.

Mas em 2023, ele percebeu que estava se entregando demais e disse no X (antigo Twitter) que todas as informações públicas sobre ele eram desinformações, e até afirmou que tinha cidadania norte-americana.

Não foram só emails e contas de fóruns que entregaram Luan. Em julho de 2024, o fórum cibercriminoso BreachForums sofreu um vazamento que expôs até o IP de seus usuários. Com esses dados, a CrowdStrike descobriu que Luan enviava mensagens de um ISP brasileiro com GeoIP em Minas Gerais.

Em resumo, a CrowdStrike já entregou todas as informações para as autoridades e acredita que o USDoD vai continuar com suas atividades, mas que Luan deve negar as informações ou tentar convencer a galera de que eles erraram ao vinculá-lo ao grupo.

A CrowdStrike afirma que Luan B.G. ainda quer ser reconhecido nas comunidades hacktivistas e cibercriminosas, então provavelmente não vai parar tão cedo.


O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, denunciou uma nova tentativa da Organização dos Estados Americanos (OEA) de impor uma resolução sobre o processo eleitoral na Venezuela.

Nesse sentido, por meio de uma mensagem publicada em sua conta na rede social X, o chefe da diplomacia cubana destacou que esta nova resolução mantém o caráter intervencionista daquela que foi rejeitada anteriormente.

É importante lembrar que, em 31 de julho, a Organização dos Estados Americanos (OEA) não aprovou uma resolução contra o processo eleitoral venezuelano devido à falta de votos e consenso dentro dele.

O órgão regional, do qual a Venezuela não faz parte desde 2019, votou pela emissão de uma declaração intervencionista contra as eleições presidenciais de domingo, 28 de julho, na qual o presidente da República, Nicolás Maduro Moros; no entanto, a abstenção de muitos países e a ausência de outros não alcançaram o objetivo da OEA.




É guerra na Europa. Não é a primeira desde 1945, como se ouve muito na imprensa chapa branca hoje em dia, porque teve a guerra sangrenta e genocida da Iugoslávia.

E além do fato, isso em si já grave e assustador, o debate tem sido tumultuado entre a esquerda com ela mesma e também a direita com ela mesma. É a primeira vez que os tons discordantes, estão colocando do mesmo lado, especificamente sobre a guerra Rússia/Ucrânia, direitistas e esquerdistas, a favor ou contra a Rússia, e que perturbam a narrativa da realidade nua e crua da guerra na Europa.

Meu posicionamento sempre foi estar do lado daqueles que se opõe e reagem a expansão do império estadunidense e que lutam contra países neonazistas/nazistas. Portanto nesse caso, a Rússia conta com parte de minha simpatia.

Mas ouso entregar-me a uma reflexão que me coloca na frente do espelho e que me questiona sobre o fundamentalismo de minhas posições a partir de uma declaração do Lula sobre a guerra na Europa.

-"Basta de guerra, queremos, paz, queremos trabalho, queremos liberdade e queremos respeito, e quem sabe a gente possa construir um mundo melhor."

Isso me faz ver no espelho que não sou apenas Rússia contra a Otan e ponto final. Não. Sei que a questão russa sobre a segurança em suas fronteiras é algo de essencial importância. Mas é bom não esquecer que a Rússia é uma ditadura capitalista, a seu modo tem uma política imperialista no Leste Europeu.

Então talvez pelo menos a esquerda brasileira tenha de encontrar uma convergência no discurso e narrativas sobre a guerra e que nos faz ser distinguidos da narrativa da direita que não está subserviente a agenda de Washington. Porque mesmo assim, é direita e direita não pensa no povo e nem nos trabalhadores. Não comungamos com eles.

Tem havido comunicados que mostram posicionamentos da esquerda em vários países.

-"Os maiores perdedores da guerra são os trabalhadores, os pobres, as mulheres e os jovens."

Comunicado de vários partidos socialistas da Turquia e do Norte do Curdistão . Os povos não têm de escolher entre a OTAN, por um lado, e a Rússia, por outro. Em vez disso, temos de estar ao lado das pessoas em todo o mundo que estão lutando na guerra.

"-Todas as nacionalidades, trabalhadores e trabalhadores de nosso país devem se unir contra a guerra, e o militarismo."

A declaração do Partido Comunista Grego segue uma linha semelhante :

-“A resposta do ponto de vista dos interesses do nosso povo não está em aderir a um ou outro pólo imperialista. O dilema não é EUA-Rússia ou OTAN-Rússia. A luta da classe trabalhadora e do povo deve traçar um caminho independente, longe de todos os planos burgueses e imperialistas”.

Esta posição tem sido manifesta de uma forma ou de outra por muitos grupos anarquistas, socialistas e comunistas em todo o mundo.

No mínimo parece coerente e adequada para os trabalhadores à primeira vista. Afinal, quem quer arriscar a vida pela classe dominante? Quem em sã consciência mataria outras pessoas de sua mesma classe social, de outras nacionalidades para as elites russa, alemã, estadunidenses ou ucraniana e pior, arriscaria a própria vida no ato de cometer esse crime?

No entanto, toda guerra precisa de soldados que estejam dispostos a lutar e a preparação ideológica correta da população.

-“A guerra é uma matança metódica, organizada e colossal. Para o assassinato sistemático, no entanto, a intoxicação apropriada deve primeiro ser gerada em pessoas comuns. Este sempre foi o método bem estabelecido dos líderes beligerantes”-. Escreveu Rosa Luxemburgo.

Toda nação guerreira diz a seus concidadãos por que eles deveriam morrer por eles em caso de dúvida. E assim uma posição contrária, simples e razoável será denunciada como uma traição à pátria, à liberdade ou à vida humana. E deve-se tornar hegemônico um mito que estimule os súditos a atos heróicos.

A guerra santa por defesa.

Um dos elementos centrais deste mito é que sempre é o adversário quem ataca. A barbárie da guerra é tão flagrante que mesmo os regimes mais reacionários assumem falsamente a narrativa da guerra como último recurso de defesa.

Quando a Alemanha entrou na Primeira Guerra Mundial, Guilherme II abriu o famoso discurso do trono de 4 de agosto de 1914 e enfatizou que era função de seu governo manter a paz por tanto tempo.

-“Durante quase meio século conseguimos permanecer no caminho da paz. As tentativas de acusar a Alemanha de inclinações bélicas e de restringir sua posição no mundo muitas vezes testaram severamente a paciência de nosso povo”,

Ou seja, aparentemente Guilherme queria evitar o “extremo” até o fim, mas agora, "em legítima defesa forçada, com a consciência limpa e as mãos limpas, pegamos a espada”.

Logo antes da Segunda Guerra, imediatamente após a transferência do poder para os nazistas, Hitler fez um discurso de paz bem recebido e alguns anos depois foi "rebatido". Lyndon B. Johnson explicou sobre a Guerra do Vietnã que os EUA estavam travando uma guerra lá contra uma "poderosa agressão" do "expansionismo comunista". E Harry S. Truman liderou as tropas americanas na Guerra da Coréia para conter a "agressão" comunista e preservar a "paz e a segurança internacionais".

Putin também vende a invasão da Ucrânia para sua própria população como um ato defensivo. Em longos discursos, ele explica a natureza preventiva de sua invasão da Ucrânia. O motivo central de suas justificativas são “aquelas ameaças fundamentais que estão sendo dirigidas de forma grosseira e descaradamente ao país russo, ano após ano, passo a passo, por políticos irresponsáveis ​​no Ocidente. E quer dizer com isso, -"a expansão do bloco da OTAN para o leste, aproximando sua infraestrutura militar da fronteira da Rússia”, disse o autocrata russo em sua declaração de guerra de 24 de fevereiro .

Não está errado sobre as intenções dos EUA/Otan. Nesse caso há sim uma motivação. Mas já é consenso, entre os que realmente defendem a paz, que a invasão a Ucrânia foi precipitada.Não foi assim no início da invasão. Todos apoiavam uma consensual reação ao expansionismo militar europeu/norte-americano.

Mas os pensamentos juntos aos fatos vão evoluindo em teses analíticas já divergentes daquelas do início da guerra há 10 dias.

Mas isso "não é agressivo". A Rússia "não vai atacar ou explodir ninguém". Putin faz um discurso no dia em que a Rússia ataca e explode. Porque: “Com uma grande exceção. A expansão da OTAN e a incorporação formal ou informal da Ucrânia na OTAN representam um risco para a segurança do país que Moscou simplesmente não pode aceitar.”

Preparação de guerra como manutenção da paz.

Em contra partida a OTAN/EUA criam guerra de palavras e informação, antecipando a invasão da Ucrânia pela Rússia ou até mesmo a provocando, com o mesmo discurso de manutenção da paz e da tal "Ordem Global".

Essa "Ordem Global" é fundamentada na filosofia de "uma ordem internacional de paz e lei que é garantida pelo Ocidente e que se baseia na igualdade, independência e soberania. O inimigo russo veio para perseguir todos nós que vivemos felizes nesta terra de abundância, e como não temos outra escolha, também devemos agora, com a consciência tranquila, pegar em armas para nos defender. Em primeiro lugar, porque o inimigo tem armas nucleares, só pegamos em armas para as enviar aos verdadeiros defensores da Europa, os ucranianos. O que vem depois, o tempo dirá." 

No caso ligaram o "foda-se".

Há de se questionar o auto engrandecimento do Ocidente, que é apresentado com grande entusiasmo, mas não resiste nem mesmo à uma observação superficial. O mundo não está em um estado pós-imperialista de amizade internacional que só seria desafiado por estados párias. Ainda é determinado pelos conflitos das potências capitalistas, às vezes realizados por meio da economia e do comércio, às vezes por tratados e diplomacia, às vezes pela ajuda ao desenvolvimento e às vezes, mas cada vez mais, por meios militares.

Os EUA, juntamente com aqueles que veem a liderança como a maneira mais segura de sustentar seu modelo de negócios, estão lutando para manter seu domínio herdado no cenário global. Outros, notadamente a China e a Rússia, veem o enfraquecimento do imperialismo norte-americano há muito tempo latente como uma oportunidade para expandir suas próprias esferas de influência. No curso dessa luta, o “Ocidente” invadiu inúmeras “nações soberanas” nas últimas décadas, apoiando golpes e usando sanções econômicas contra eles para torná-los complacentes. Só no caso do Iraque, com mais de um milhão de mortos. No Afeganistão houve algumas centenas de milhares ao longo dos anos, no Iêmen mais de um quarto de milhão. E tivemos a guerra híbrida no Brasil culminada no golpe midiático/jurídico/parlamentar de 2016, entre outras na América Latina.

E o adversário russo, mais capaz de agir “localmente”, tentou esmagar “movimentos democráticos” que lhe eram perigosos nas imediações – mais recentemente no Cazaquistão – ou preservar o regime de Assad na Síria, que era leal a ele. Na Síria em particular, a Rússia tentou outra estratégia que chegou ao fim por enquanto com a guerra atual: a integração da Turquia, que forma o flanco sul da OTAN, em sua própria política de poder imperial.

Tanto para Erdogan quanto para Putin era verdade - e isso foi praticado na Síria - que o poder hegemônico havia dado aos EUA "liberdade" para ambições independentes. Os jogadores com mais apelo regional tentaram explorar isso. Não apenas na Síria, mas também em outros pontos problemáticos – Líbia, a guerra na Armênia – o poder criativo independente dos oponentes do imperialismo norte-americano aumentou gradualmente.

Mas diferente na Europa Oriental. A expansão da OTAN para o leste é obviamente dirigida contra a Rússia (e, a longo prazo, a China), qualquer um que agora esteja negando isso por alguma alucinação precisa apenas ler os documentos de estratégia da própria OTAN. E por que mais ela ainda existe?

Putin rapidamente deixou claro qual seria a resposta da Rússia: apoio à insurgência armada no leste da Ucrânia, anexação da Crimeia. O Ocidente rapidamente deixou claro qual seria sua resposta: fortalecimento dos laços com o Ocidente, perspectivas de adesão à UE e à OTAN, entregas de armas, missões de treinamento, cooperação econômica, acordos comerciais, exercícios militares conjuntos. Ambos os blocos estavam puxando a Ucrânia – taxar isso como “autodeterminação” dos povos, independentemente de qual lado, julga mal todas as dinâmicas de poder político.

Como os Russos não blefam e não estão afeitos a esta prática, depois das cutucadas da Europa e dos EUA no Urso eslavo, inciou-se então a guerra de agressão russa.

A maioria dos observadores teria previsto o reconhecimento das "Repúblicas Populares" como um passo estrategicamente motivado, mas provavelmente não a atual invasão completa da Ucrânia, como o editor da Left Review, Tony Woods , atesta em uma entrevista. “Fiquei surpreso com a decisão russa de invadir, e muitos analistas russos estão tentando reinterpretar seus pontos de vista sobre o regime de Putin. Recebi muitas críticas ao regime de Putin nos últimos vinte anos, mas não achei que fosse fundamentalmente irracional. Agressivo, sim. Todos os tipos de outras coisas, com certeza. Mas fundamentalmente irracional, não. E hoje, apesar de existir todas as motivações para isso, essa invasão me parece fundamentalmente irracional.”

O que podemos esperar é um período de militarização dos conflitos inter imperialistas - e com ele uma intensificação da propaganda necessária para alinhar a população. Mas o que mais nós, como esquerdistas ou pacifistas pelo menos, podemos fazer em tais condições?

Construir um movimento contra a guerra

Pode parecer nada, mas a primeira tarefa é não se deixar enganar pela propaganda. Com uma posição consistentemente anti-imperialista, fica entre o bloco de partidários da invasão russa – presentes na esquerda – e o bloco de torcedores pró-imperialismo ocidental, que pressionam esmagadoramente o debate.

A posição da esquerda antimilitarista (não confundir com pacifista) é marginalizada, mas continua sendo a única que pode perdurar: não há guerra, mas guerra de classes. Esta guerra, como qualquer outra das potências imperialistas, não é nossa guerra, não é uma guerra de libertação e socialismo, mas uma em que as pessoas são enviadas para os respectivos interesses das nações capitalistas para matar outras enviadas pela nação oposta.

O slogan que a esquerda deve popularizar é o da revolução. Não há “ordem de paz” no capitalismo que seja mais do que um equilíbrio temporário de poder que perece na guerra sempre que uma das potências concorrentes vê o momento oportuno.

O manifesto da esquerda contra a guerra não é novo, mas é atual:

-“Trabalhadores! mães e pais! viúvas e órfãos! Feridos e aleijados! Para todos vocês que estão sofrendo com a guerra, nós clamamos: através das fronteiras, através dos campos de batalha fumegantes, através das cidades e vilas destruídas, trabalhadores de todos os países, unam-se!"

Membros do Batalhão Azov fazem uma saudação sieg heil (esquerda); Militares dos EUA com comandantes Azov em novembro de 2017 (à direita)


Famoso como a referência do neonazismo, o Batalhão Azov da Guarda Nacional Ucraniana, recebeu consultores militares americanos e armas de alta performance fabricadas nos EUA.

Em novembro passado, uma equipe de inspeção militar americana visitou o Batalhão Azov na linha de frente da guerra civil ucraniana para discutir logística e aprofundar a cooperação. Imagens do encontro mostraram oficiais do exército americano debruçados sobre mapas com os neonazistas ucranianos, simplesmente ignorando os emblemas de inspiração nazista estampados em suas fardas.

Azov é uma milícia que foi incorporada à Guarda Nacional Ucraniana e foi considerada uma das unidades mais eficazes em campo contra os separatistas pró-Rússia e agora contra o Exército Russo. É amplamente conhecido como um bastião do neonazismo dentro das fileiras dos militares ucranianos que tem sido criticado por em todo o mundo e são ligados a uma rede fascista internacional.

De acordo com uma publicação alemã de esquerda, Azov mantém uma organização semi-oculta chamada “Misanthropic Division” que recruta maciçamente entre as fileiras de jovens neonazistas na França, Alemanha e Escandinávia. 

Os combatentes estrangeiros recebem a promessa de treinamento com armas pesadas, incluindo tanques, em campos ucranianos lotados de fascistas semelhantes. Eles ainda incluem veteranos militares como Mikael Skillit, um ex-atirador do exército sueco que se tornou voluntário neonazista para Azov. “Depois da Segunda Guerra Mundial, os vencedores escreveram sua história”, disse Skillit à BBC. “Eles decidiram que é ruim dizer que sou branco e que tenho orgulho disso.”

Os Voluntários estrangeiros da Azov são atraídos pelo chamado da “Reconquista”, que é a missão de colocar as nações do leste europeu sob o controle de uma ditadura supremacista branca modelada após a ditadura nazista do Reichskommissariat que governou a Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial. 

A missão é promovida efusivamente pelo principal ideólogo de Azov, Andriy Biletsky, um veterano fascista que lidera a Assembleia Nacional Social no parlamento da Ucrânia. A assembléia de Biletsky prometeu proibir as relações inter-raciais e prometeu “preparar a Ucrânia para uma maior expansão e lutar pela libertação de toda a raça branca da dominação do capital especulativo globalista”.

Enquanto mobiliza a juventude racista em toda a Europa, e contadno com a maioria absoluta do povo ucraniano, a Azov também conseguiu promover um intenso relacionamento de boa convivência com os militares americanos. 

Em uma foto postada no site de Azov em novembro passado, um oficial militar americano pode ser visto apertando a mão de um oficial de Azov cujo uniforme foi estampado com o emblema de Wolfsangel de inspiração nazista que serve como símbolo da milícia. 

A pergunta é: Os EUA/OTAN tem um plano de expansão e hegemonia mundial que inclui o modelo de ditaduras fascistas com perfil nazista? As imagens destacaram um relacionamento florescente entre militares americanos e a Azov, que tem sido amplamente conduzido em segredo, mas cujos detalhes perturbadores estão surgindo lentamente.

Embora Washington não tenha embarcado em nada na Ucrânia como o programa de treinamento e equipamento de bilhões de dólares que implementou na Síria para promover a mudança de regime por meio de uma força substituta dos chamados “rebeldes moderados”, há semelhanças claras e perturbadoras entre os dois projetos. 

Assim como as armas pesadas ostensivamente destinadas ao Exército Sírio Livre, apoiado pela CIA, foram direto para as mãos das forças insurgentes salafistas-jihadistas, incluindo o ISIS , as armas americanas na Ucrânia estão fluindo diretamente para os extremistas de Azov. E mais uma vez, em sua determinação obstinada de aumentar a pressão sobre a Rússia, Washington parece disposto a ignorar as orientações políticas inquietantes de seus representantes da linha de frente.


Ou seja, o Departamento de Estado e a (des)inteligência americana não aprenderam nada com a Al Qaeda, o Taleban, o Isis, e agora a Azov. Hegemonia a qualquer preço, violando tratados e soberanias, gerando derramamento de sangue de milhares, destruindo país e suas economias, assassinando governantes e generais, etc. etc.

Nos últimos meses, um amplo espectro de observadores da guerra civil ucraniana documentou a transferência de armas pesadas feitas nos EUA para o Batalhão Azov e bem debaixo do nariz do Departamento de Estado dos EUA. Na verdade, talvez tenha sido uma orientação do Próprio Deparamento de Estado.

Mais uma vez, os EUA estão criando cobras venenosas. Só que desta vez, procuram atingir uma potência militar e nuclear, que em vários setores da tecnologia de guerra,  está bem a frente do Pentágono.

E nesse caso, o tiro pode sair pela culatra, ou seja, um míssel nuclear por cair bem nos jardins da Casa Branca.

Eliseu Mariotti


 


Aroeira - Brasil 247

A guerra é o caos violento em um nível que a maioria dos povos não conseguem compreender. Mas ainda mais violentos são aqueles que a provocam manipulando peças menores no xadrez global sem empunhar uma arma sequer.

A Europa e os EUA se escondem atrás de envio de armas, colocando mais gasolina na fogueira, manipulando um líder extremista que consegue ser mais burro do que Bolsonaro, para atingir uma potência, uma das duas que conseguem enfrentar a Otan, aliás, uma aliança que não tem mais nenhum sentido em existir, já que não tem qualquer motivação econômica.

Tudo que o o Ocidente busca é um imperio hegemônico global, só que não contavam com a aliança entre a China e a Rússia quando entraram em campo, primeiro com o golpe na Ucrânia em 2014, depois com a ingerência nas manifestações de Hong Kong em 2019/2020. Mas a China não deixou por menos e calou os manifestantes manipulados pela guerra híbrida estadunidense e a Rússia com a invasão da Ucrânia vai terminar com o que essa mesma guerra híbrida começou em 2014.

Essa guerra não está começando, porque ao contrário do que muitos pensam, ela simplesmente está terminando. E quem a está terminando é a Rússia.

A ladainha do momento, dos analistas e redações ocidentais, inclusive do Brasil, é que a “invasão” da Ucrânia é injusta e que “Putin não vai parar por nada agora” em sua chamada busca para retomar os países do antigo bloco soviético. Balela! A Rússia não quer resgatar um bloco extremamente custoso e altamente turbulento.

É impressionante a "desmemorização" da mídia ocidental com relação aos mísseis nucleares que, em outubro de 1962, a então União Soviética de Krushev, pretendia instalar uma base militar de Cuba. Kennedy não aceitou e houve o famoso bloqueio naval por parte da Marinha estadunidense, de modo que o Bloco comunista recuou e a guerra foi evitada.

A diferença hoje, é que a Otan, usando a Ucrânia por meio de seu governante neonazista, e que foi convencido pelos americanos, a instalar uma base da Otan as portas do Urso eslavo, não recua de suas intenções.

E cutucaram tanto o urso adormecido que ele despertou com um rugido que assusta o mundo neste momento. Até o perigo nuclear ressuscitou entre as cinzas dos cogumelos no horizonte de Hiroshima e Nagasaki.

A ingerência da Otan, Europa e Estados Unidos na Ucrânia é tão absurda, que nem Israel, tradicional aliado do Ocidente, apoia as sanções impostas contra Putin. Simplesmente , porque a Ucrânia hoje está nas mãos de nazistas!

Com essa narrativa idiota e cega da mídia ocidental, poucos se preocupam em olhar para a história e as nuances do que aconteceu nos últimos anos que provocaram tal reação de Putin.

As redações ocidentais ainda tentam nos iludir sobre a Ucrânia, simplificando e distorcendo os fatos, simplesmente para que possam continuar com seu trabalho de produzir a agenda de Washington, e que lhes dá uma osso de vez em quando como recompensa.

A chamada “revolução” na Ucrânia é sempre relatada como uma vitória para o Ocidente, pois a “democracia” finalmente matou os poderes malignos da influência soviética, pois a última é sempre pintada como corrupta e nociva para a ordem global. Só que o Ocidente, a despeito do seu maléfico plano de uma ordem global sob seu controle, está apoiando uma Ucrânia nazista!

Apesar disto, há vozes suficientes na mídia alternativa, que chamam o que aconteceu na Ucrânia de 2014, como um golpe de estado apoiado pelos EUA e agora, Zelensky como o novo idiota útil do Ocidente.

Até mesmo o Los Angeles Times , poucos dias antes da invasão, pintou um retrato do novo presidente como um cretino quase inútil disfarçado de herói político que havia perdido um colosso de capital político nos últimos meses, quando as tensões com a Rússia começaram a ser sentidas.

O cruel da guerra é que a Verdade geralmente é a primeira vítima quando as armas começam a pipocar.

E quanto as promessas de apoio do Ocidente ao governo Zelensky? O idiota útil estava crente que haveria tropas da Otan para dar suporte a suas pretensões de ser uma potência neonazista no leste, mas na realidade recebeu apenas um suporte de quantias relativamente pequenas de dinheiro e equipamentos militares.

A OTAN enviará um soldado que seja à Ucrânia para combater os soldados russos? Algum estado membro da UE ou dos EUA fará o mesmo? Eu não consigo visualizar esta possibilidade.

A águia não enfrenta o urso.

E exatamente por este motivo, podemos ver a tensão no rosto de Zelensky em suas postagens nas mídias sociais e sua raiva em relação a Washington, à OTAN e à UE. É tão burro e ingênuo, quanto inescrupuloso. Na mesma medida.

E seguindo o script não escrito, a credibilidade do Ocidente caiu, e sanções são tudo que eles tem, e com certeza isso não vai parar a Rússia.

Esperemos que os próximos capítulos desta guerra sejam cirúrgicos e decisivos, porque uma coisa é certa: as guerras são cruéis, não só no leste da Europa, mas na Palestina, no Iêmen, na Somália, na Líbia, no Líbano, na Síria, no Afeganistão, no Iraque e com certeza, o povo mais fraco e indefeso, são os que não conseguem realmente processa-las.

As vítimas são incontáveis, e os vencedores, cada vez menos são reais.

Eliseu Mariotti