Antes de mais nada esclareço que este é um artigo de opinião. Os fatos estão em curso e muita coisa ainda será revelada. O conteúdo desta matéria procura fazer uma soma dos fatos, questionamentos na imprensa global e a conjunção de fatores militares. A captura de Nicolás Maduro por forças militares dos Estados Unidos, em 3 de janeiro de 2026, não foi apenas uma violação escancarada do direito internacional e da soberania venezuelana. Foi também um evento revelador, e talvez, o mais revelador de toda a história recente do chavismo. Não apenas pelo que aconteceu, mas, sobretudo, pelo que não aconteceu.
Um presidente removido do poder por uma força estrangeira, em um país que se orgulhava de possuir um dos aparatos de segurança mais fechados, politizados e leais do continente, sem resistência militar significativa, sem convocação à guerra popular, sem colapso institucional imediato. Isso, por si só, já exige mais do que indignação: exige análise, e até mesmo explicações.
Não se trata de relativizar a responsabilidade dos Estados Unidos. Washington agiu como agressor, sem mandato internacional, instrumentalizando acusações judiciais e o discurso do combate ao narcotráfico para executar uma operação de caráter claramente geopolítico. Isso está dado. O ponto incômodo e politicamente explosivo para a esquerda é outro:
Uma ação dessa magnitude teria sido possível sem fissuras, rearranjos ou consentimento tácito dentro do próprio chavismo?
UM ESTADO QUE NÃO CAIU E APENAS MUDOU DE MÃOS
Horas após a captura de Maduro, o Supremo Tribunal de Justiça reconheceu Delcy Rodríguez como presidente interina, que já havia sido empossada secretamente pelo Legislativo Venezuelano. O Estado não colapsou. Ministérios seguiram funcionando. O setor petrolífero permaneceu operacional. E ainda 16 petroleiros venezuelanos furaram o bloqueio militar estadunidense e ninguém sabe onde estão agora. As Forças Armadas garantiram a ordem interna, não o confronto externo.
Segundo uma investigação do "Miami Herald", a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez e o seu irmão Jorge promoveram secretamente um plano para uma transição de poder sem Nicolás Maduro, mediada pelo Qatar.
Um grupo de altos funcionários venezuelanos, liderado pela vice-presidente Delcy Rodríguez e pelo seu irmão Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, promoveu discretamente nos últimos meses uma série de iniciativas para se apresentarem a Washington como uma alternativa "mais aceitável" ao regime de Nicolás Maduro.
Esse detalhe muda tudo. Golpes que destroem regimes produzem caos. O que se viu na Venezuela foi continuidade administrativa com troca de comando.
Delcy Rodríguez não é uma outsider. Advogada, filha de um histórico líder guerrilheiro e figura central do chavismo desde 2003, ela reúne duas características raras no atual cenário venezuelano: legitimidade interna e aceitabilidade externa. Como ministra do Petróleo, construiu interlocução com setores do mercado internacional de energia, incluindo canais indiretos com Wall Street e com a indústria petrolífera dos Estados Unidos.
Sua ascensão atende a interesses objetivos que são, preservar o regime, aliviar sanções, recuperar a economia petrolífera e oferecer previsibilidade institucional a investidores estrangeiros. Para Washington, Delcy representa a possibilidade de negociar com um governo chavista sem o peso simbólico, jurídico e político que Maduro se tornara.
O SILÊNCIO DE DIOSDADO CABELLO E A LÓGICA DA AUTOPRESERVAÇÃO
Se Delcy é a face externa da transição, Diosdado Cabello continua sendo o núcleo duro do poder interno. Ministro do Interior, Justiça e Paz desde 2024, controlador dos serviços de inteligência e um dos homens mais poderosos do PSUV, Cabello também é alvo direto da Justiça norte-americana, acusado de envolvimento em esquemas de narcotráfico e incluído em listas de recompensa milionária.
Seria razoável esperar dele uma reação imediata, ruidosa e radical. Afinal ele também tem um programa na tv venezuelana. Não houve. O silêncio estratégico de Cabello sugere cálculo, não fraqueza. Defender Maduro naquele momento poderia significar arriscar a sobrevivência do regime inteiro e a sua própria.
Em sistemas sob cerco, líderes tornam-se descartáveis quando passam a ameaçar a estrutura que deveriam proteger.
JORGE RODRÍGUEZ: O OPERADOR DO CONSENSO POSSÍVEL
Pouco visível ao público internacional, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional desde 2021 e irmão de Delcy, talvez seja o personagem mais decisivo do pós-Maduro. Ex-ministro da Comunicação, ex-prefeito de Caracas e estrategista da campanha presidencial de 2024, ele é reconhecido como operador político de alto nível, especialista em negociações complexas.
Jorge garante algo essencial: continuidade jurídica. Sua presença assegura que a transição não seja formalmente caracterizada como ruptura interna, mas como rearranjo institucional. Nada parece improvisado. Se houve aceitação tácita da remoção de Maduro, dificilmente ocorreu sem sua engenharia política.
O IMPRESCIDÍVEL FATOR MILITAR: VLADIMIR PADRINO E A ESCOLHA PELO SISTEMA
Nenhuma análise é completa sem Vladimir Padrino, ministro da Defesa desde 2014 e comandante efetivo das Forças Armadas. Símbolo de lealdade histórica ao chavismo por sua atuação em 2002, Padrino sempre foi o fiador da estabilidade militar do regime no Governo Chavez e no governo Maduro.
Justamente por isso, sua postura na invasão de 3 de janeiro de 2026 é decisiva e totalmente questionável. As Forças Armadas não reagiram. Houve um sequestro praticamente inviável em tese e muito bem sucedido em apenas 20 minutos. Não houve baterias antiaéreas, infantaria nas ruas, dos 5.000 Igla-S russos nenhum foi disparado, mobilização nacional, pronunciamentos inflamados conclamando a guerra ou ruptura da hierarquia. A leitura possível é dura, mas coerente: defender Maduro significaria colocar em risco as Forças Armadas e o próprio chavismo.
Entre o líder e o sistema, escolheu-se o sistema.
CORINA MACHADO: A AUSÊNCIA QUE REVELA TUDO
Talvez o dado mais revelador de todo o processo não esteja em quem assumiu o poder, mas em quem foi deliberadamente excluída.
Corina Machado, líder da oposição venezuelana, referência internacional, vencedora do Prêmio Nobel da Paz e símbolo do enfrentamento civil ao chavismo, não foi sequer cogitada pelo staff de Donald Trump como liderança de um governo de transição. Isso, à primeira vista, parece ilógico. Na prática, é profundamente revelador.
Se os Estados Unidos estivessem interessados em uma ruptura real com o chavismo, Corina seria a escolha óbvia. Sua parcial legitimidade internacional, sua oposição ao regime e seu capital simbólico a colocariam como figura natural de uma suposta "transição democrática". A justificativa divulgada na imprensa que Corina não tem apoio popular é improcedente. Se Trump quisesse, ele simplesmente imporia Corina ao povo venezuelano e ponto final.
Mas ela representa exatamente o que Washington não quis naquele momento:
- ruptura institucional profunda,
- revisão de acordos herdados,
- instabilidade política prolongada,
- e imprevisibilidade econômica.
Corina Machado não oferece garantias ao sistema petrolífero, não assegura continuidade administrativa e não negocia com o velho estado chavista. Para os EUA, ela seria uma incógnita perigosa. Para o chavismo, uma ameaça existencial.
Sua exclusão revela que o objetivo da operação não era supostamente “democratizar” a Venezuela, mas "estabilizá-la" sob novos termos.
CHAVISMO RAIZ OU CHAVISMO DE SOBREVIVÊNCIA?
Falar em “golpe do chavismo raiz” não é acusar o regime de uma traição clássica, com tanques nas ruas. Trata-se de algo mais sofisticado e contemporâneo: um golpe híbrido, em que a força externa executa o ato final, mas encontra terreno previamente preparado por disputas internas, cálculos frios e pactos silenciosos.
Maduro tornou-se um passivo político. Sua permanência inviabilizava negociações, aprofundava o isolamento e ameaçava o sistema como um todo. Sua remoção, ainda que pelas mãos do inimigo histórico, foi tolerada ou conscientemente não impedida por setores centrais do próprio chavismo.
E nisso fica uma lição dura para a esquerda latino-americana. A invasão da Venezuela é um crime internacional e deve ser denunciada como tal. Mas ignorar as contradições internas do chavismo seria um erro ainda maior. Projetos populares não fracassam apenas por ataques externos, mas porque estão sujeitos a apodrecerem quando se confundem com a simples preservação do poder.
Se, após Maduro, o que se consolida é o mesmo sistema com a mesma face, então não houve ruptura histórica, mas reciclagem do poder.
A história ainda está em curso. Mas uma coisa já se impõe com clareza desconfortável:
a queda de Maduro explica menos o imperialismo dos Estados Unidos e mais os limites, as fraturas e os pactos silenciosos de um chavismo que escolheu sobreviver, mesmo que, para isso, tivesse de sacrificar seu próprio líder e excluir sua principal adversária oposicionista.
E essa talvez seja a verdade mais difícil de aceitar.
Por
Eli Mariotti
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Eli Mariotti





