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| Policial agride casal que tomava cerveja em bar na avenida Paulista,
próximo ao Masp, ontem à noite, e recebeu ordem para que deixasse o local - Eduardo Anizelli/Folhapress |
VERA MAGALHÃES
EDITORA DO PAINEL-FOLHA DE SÃO PAULO
EDITORA DO PAINEL-FOLHA DE SÃO PAULO
Não há vencedores políticos da batalha campal que São Paulo viveu na
noite de quinta-feira, entre a Polícia Militar e manifestantes contra o
aumento das tarifas de transporte público --que fez vítimas também
jornalistas e pessoas que não participavam dos protestos.
O governador Geraldo Alckmin mostrou descolamento da realidade ao
comentar em tempo real nas redes sociais, enquanto a bala de borracha
comia solta nas ruas, platitudes como o aniversário de Guaratinguetá e a
efeméride do aniversário de José Bonifácio, que o levou a se mudar com
parte do secretariado para Santos num dia que já se sabia que seria
tenso.
Mais: sustentou o discurso da manutenção da ordem, que era válido para o
que se viu na terça-feira, enquanto todas as TVs mostravam ao vivo
excessos da polícia subordinada a ele, inclusive com cenas de evidente
abuso contra profissionais de imprensa e transeuntes.
O prefeito Fernando Haddad, do PT, que teve um arroubo de subir num
carro de som em abril durante um protesto por moradia, desta vez se
queimou com os chamados movimentos populares, uma das vigas-mestras da
política petista. Adotou, primeiramente, um discurso favorável à ação da
polícia e refratário à negociação para, só depois das cenas de
violência explícita da PM na noite de quinta, tentar, de maneira algo
oportunista, se descolar do governo do Estado e criticar a ação da
tropa.
Haddad usou, enquanto foi conveniente, o anteparo do governo do Estado,
responsável pelo policiamento, e criticou o "vandalismo'', num discurso
muito próximo ao do próprio Geraldo Alckmin, com quem esteve em Paris
nos primeiros dias da manifestação.
Mesmo na quinta, enquanto os manifestantes estavam contidos pela Tropa
de Choque em frente ao Municipal, Haddad observava da janela os
acontecimentos, e seu auxiliares ainda mantinham o discurso de que não
haveria negociação enquanto durassem os protestos e que a PM estava
agindo de forma correta. A guinada no discurso só veio quando já era
evidente a irritação do eleitorado petista com o prefeito, eleito sob o
signo da mudança.
O estrago, no entanto, já está feito: cartazes com a foto do prefeito e a
corruptela "Malddad" no lugar de seu nome estampam vários dos cartazes
pregados pelos manifestantes na cidade. Da mesma forma, o alinhamento
que houve entre a prefeitura e o governo nos primeiros dias deve dar
lugar a um "cada um por si'', em que Haddad e Alckmin tentem se esquivar
dos inevitáveis estilhaços políticos à imagem de ambos.
Como se não bastassem os erros das autoridades de São Paulo, a ele se
soma a maldisfarçada tentativa do ministro José Eduardo Cardozo, que
nesta semana se lançou abertamente numa pré-candidatura ao governo
paulista de surfar nas ondas sucessivas do protesto. Primeiro, disse que
a Polícia Federal iria investigar abusos, como a se sobrepor à
atribuição da PM. Depois, foi o primeiro a criticar os abusos na noite
de quinta.
O vaivém do comportamento das autoridades mostra que, antes de buscarem
uma atuação conjunta para resolver o impasse com os manifestantes, estão
preocupados em tirar algum lucro político de um movimento que, não há
mais dúvida, vai se prolongar, com desfecho e consequências ainda
imprevisíveis.
Que Brasília não pense que passará ao largo da insatisfação expressa nas
ruas não só de São Paulo como de outras capitais: no fundo, a revolta
com a alta das tarifas é apenas a ponta visível de uma insatisfação com a
alta do custo de vida, na contramão de serviços cada vez mais
deficitários. Dilma Rousseff também tem razões para colocar as barbas de
molho com a versão brasileira do "Occupy''.
