1968 - EFEITO COLATERAL

Meu Pai Waldemar a direita e meu Tio Didi a esquerda,
também já falecido
Meus amigos, reencontrei uma matéria que eu escrevi sobre maus bocados que meu pai passou de gaiato sob os desmandos da ditadura militar. Meu pai faleceu em 2011, com saudades faço uma homenagem a ele. Fiz algumas revisões no texto, mantendo o compromisso com a verdade. Vale a pena conferir:
1968 – Efeito Colateral

Publicado no Caderno Correio das Artes do Jornal da União em 01/05/2008 na Paraíba
Por Eliseu Mariotti

A década de 1960 é considerada por alguns filósofos e historiadores como a mais revolucionária da política internacional. Em vários continentes e em diversos países eclodiram movimentos reivindicatórios e libertários que questionavam o poder, a cultura e a economia. Nos Estados Unidos, os negros, sob a liderança de Martin Luther King, exigiam o fim da sociedade discricionária e reivindicavam direitos civis restritos à população branca.

Martin Luther King foi assassinado em abril de 1968, mas sua mensagem conquistou corações e mentes e mudou a história e as relações de poder na América. Mas o Brasil andava na contra-mão. Era simplesmente ame-o ou deixe-o.

... e o tempo passou. Apenas parece que muita coisa não mudou, apenas a memória ficou embaçada .Naqueles tempos, ainda não muito distantes, do qual ainda se sente o cheiro no ar, época onde o povo não podia eleger seus governantes e em que nada era divulgado nem mesmo uma música ou livro, se antes não passasse pelo crivo da censura e recebesse o aprovado.

Não se tinha direito o direito de ir e vir livremente e a voz de que protestava era silenciada...
Ainda é possível sentir que existe nos recantos dos palácios de governos, em assembléias legislativas e no senado, ou no judiciário, pessoas saudosas querendo relembrar aqueles tempos.

Há algo podre no ar. E o mal cheiro sem dúvida exala dos homens que serviram a esse regime cruel e que agora por não terem sido responsabilizados pelo desaparecimento e morte de centenas de pessoas, posam de bons cidadãos e até são eleitos pelo povo que sequer conhece a historia desse período.

Pois é, as saudades não são minhas, que tinha quatro anos de idade em 68, nem a de quem sofreu os horrores daquele período , e conhece a história.

Qual revolução que nada. Tudo historinhas contadas para boi dormir escritas ou mandadas serem escritas pelos mesmos senhores da repressão que estavam no poder e que sufocaram a verdadeira revolução que estava sendo gestadas pelos brasileiros verdadeiramente comprometidos com esse país.

Por isso já é possível perceber que eles nunca se foram. Sou filho da ditadura, nasci em setembro de 1964, 5 meses depois do golpe. Em 1968, meu pai trabalhava no Jornal do Brasil, seu nome? Waldemar Mariotti, brasileiro, filho de italianos, origem simples, trabalhador e honesto como a maioria esmagadora dos brasileiros. Naqueles anos, na inocência dos meus quatros iria acontecer um evento em que só tive a noção exata de sua gravidade quase 10 anos depois.

Seu Waldemar era um homem pacato como todo o mineiro do interior, de moral conservadora como todo o mineiro do interior, políticamente conservador como a maioria dos mineiros do interior.

Mas ele foi preso.

Preso? Como assim? Preso, preso mesmo, de ficar um semana enjaulado e quase nunca mais sair, pelo menos vivo.

O homem era um ingênuo matuto que comprou um carro, um chevrolet 62, daqueles pretos, lindões, que a gente vê em filme de mafioso de época. Um belo dia ele passa por uma blitz em São Paulo, feita pelo II Exército, é abordado e descobre que o documentos de seu carro eram totalmente falsos.

Eram tempos difíceis e claro, não havia informatização. O Departamento de trânsito daquela época só liberava informações de documentos muitos dias depois. Foi Preso. Mas ainda ia ficar pior. No início ele foi levado para o Deic na Brigadeiro Tobias como um simples ladrão de veículo.

Isso já era bem ruim, mas quando meu pai chega algemado e puxado pelo cangote dentro do Deic, o policiais vão averiguar a placa do carro e descobrem que esse carro tinha pertencido a um aparelho.

Pra quem não sabe, aparelho não era nada mecânico e nem eletrônico não, aparelho era por definição um célula terrorista das esquerdas. Aí, meu irmão, como diz o Chico, a coisa aqui tá Preta! Meu pai ,um pacato homem rural, conservador e até mesmo limitado em sua visão de mundo, era olhado por aqueles caras, verdadeiros trogloditas como se fosse o próprio coisa ruim.

Chiqueirinho com ele! A gente vai mostrar pra ele como se trata terrorista aqui! Seu Waldemar começou a ficar sem chão e percebeu que o caldo havia engrossado e começou a pedir pelo amor de Deus, avisem minha mulher, chamem um advogado, eu não sou bandido, sou um homem de família, honesto trabalhador.

Mas não adiantou. Pelo menos minha mãe, aquela santa mandaram avisar. Logo que soube, despachou-se para o Deic, do jeito mesmo que estava, lenço na cabeça e tal, só não levou a vassoura que estava na mão, porque ao saber do ocorrido, levou um susto tão grande que largou tudo pelo chão.

Chegando lá, ela ficou sabendo que o marido dela, pai do seus filhos, além de ladrão de carro, ainda estava envolvido com esse comunistas cachorros! Mas seu moço, eu garanto, meu marido não é dessas coisas não.

Não teve jeito, seu Waldemar não ia sair dali tão cedo. Passou um dia, passou dois dias, era interrogatório e ainda apanhava dos presos que queriam o dinheiro dele. Seu Waldemar percebeu que seus algozes já não eram os mesmos que o prenderam.

Entre os investigadores do Deic, a relação com estes novos personagens era de, seu doutor pra lá, seu doutor pra cá, tem lugar pra mim lá no Doi-Codi? E os homens mandaram liberar o pau-de arara. Pau-de Arara era um instrumento de tortura muito usado pelos orgãos de repressão em que um homem ficava todo curvado e preso entre as madeiras que pressionavam a medida que se apertava.

Terceiro dia, seis horas de pau-de arara e assim progressivamente. Você não vai falar não? Quem são seu parceiros, onde é o local de reunião? Para o seu Waldemar essas perguntas não tinham respostas. Voltava para a Cela e cacete rolava em cima dele, agora pelos presos bandidos.

Porque naquela época se misturava tudo que é preso. Aliás foi assim que nasceu o Comando Vermelho, mas isso já é outra história.

Minha mãe na angústia, já sem esperanças ainda tentava ver de que lado vinha a ajuda. O que me impressiona muito, em momentos difíceis é que as vezes a solução está a nossa frente e não á enxergamos.

Foi o caso de minha amada progenitora. De repente, ela lembrou. Um cunhado , meu tio Ivan, era Inspetor-chefe no Deic! Mama mia! Como esquecer uma coisa dessas numa hora dessas? Mas esqueceu, e por alguma inspiração divina lembrou-se e aí, meu irmão, aparece aquela famosa luz no fim do túnel ou do calabouço em que meu pai estava jogado.

Mesmo assim meu tio demorou ainda dois dias para tira-lo de lá, quando foi liberado, saiu machucado fisícamente, mas muito mais no seu orgulho de homem simples e honesto, e depois de uma semana preso daquele jeito ficou uma sombra na sua alma.

Ele nada tinha a ver com guerrilhas, políticas ou bandidagem. Mas sofreu os efeitos colaterais de se viver num época como a dos anos 60, particularmente, no ano de 68, ano do AI-5, ano em que as trevas definitivamente abriu o seu manto sobre a nação brasileira.

Meu brasil brasileiro, terra de encantos mil. A nação do samba e futebol em que não acontecem guerras, segundo alguns incautos equivocados. Muitos esquecem a propósito de falar das milhares de crianças jovens que morreram no porões e calabouços da ditadura, de seres humanos como meu pai, que num breve momento foi levado por uma avalanche de acontecimentos e quase não escapa, muitos não escaparam.

O Brasil, além de ter essa lembrança, ainda recebeu uma herança maldita. Que herança? Ora a dos assassinatos de jovens e crianças nas periferias, que aqui matam mais do que em qualquer guerra, as crianças prostituídas, das analfabetas , dos sem lar , dos que vivem nos lixões como ratos e com os ratos.

Aqui a guerra não é declarada, é verdade. Mas o hoje ainda tem muito em comum com o passado. É bem verdade que os militares não estão no poder e que não se sabe de práticas de tortura, porém, pelos saudosos idiotas, tenta-se implantar novamente o que foi tentado naquela época.

Por exemplo: o presidente do Clube de Aeronáutica, tenente-brigadeiro da reserva Ivan Frota, na mesma semana de publicação deste artigo, um pouco antes,  atacou duramente o governo Lula. O delírio golpista do Sr Ivan Frota, elogiando 64 e dizendo que a maioria do povo brasileiro que votou em Lula são acostumados a corrupção, portanto corruptos, sinaliza e reflete todo o respeito que a ditadura militar teve pelo povo brasileiro.

Talvez não saiba ele ou não quer recordar, que muitas das mazelas, dos políticos corruptos e da falência do sistema, são frutos e herança dos governos militares nascidos em 64, e agravados com os Atos Institucionais de 68.

Escreve ele na nota: "Que a comemoração de mais um aniversário do vitorioso momento de 64 possa servir de alerta a aqueles que ainda têm esperança de implantar, no Brasil, um retrógrado regime bolchevista. Que não tentem isso novamente, porque o povo e as Forças Armadas, mais uma vez, irão às últimas conseqüências para evitar que tal aventura tenha sucesso".

Regime Bolchevista? Coisa velha, caquética e ultrapassada.

É melhor o esqueleto delirante voltar para o seu lugar, que é o armário...

Nunca mais em algum momento da história, em algum lugar deste país, pessoas simples e honestas como meu pai e sua família, não tenham de ser ultrajados e violados em sua dignidade de cidadãos brasileiros, e os quais foram os que realmente contribuiram para o crescimento deste país,

Que Deus esteja conosco.

Eliseu Mariotti é Publicitário, Jornalista e reservista da Força Aérea Brasileira