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| Foto: Ricardo Stuckert |
A Convenção Nacional do Partido dos Trabalhadores, realizada neste domingo, produziu uma imagem política que dificilmente passará despercebida durante a campanha eleitoral. Em meio a problemas de organização do evento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou a primeira-dama Janja para discursar, reforçando uma estratégia de aproximação com o eleitorado feminino. Também fez uma declaração que ganhou ampla repercussão: "Quem bate em mulher não precisa votar em mim", vinculando sua campanha ao enfrentamento da violência de gênero.
A fala não foi casual. Em um cenário eleitoral polarizado, as mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro e tendem a ocupar posição decisiva na disputa presidencial. A estratégia do PT é evidente: fortalecer uma pauta que dialoga diretamente com esse segmento, ao mesmo tempo em que busca explorar fragilidades do adversário junto ao voto feminino.
Entretanto, se, nacionalmente, o discurso foi de valorização da mulher, na Paraíba a convenção estadual transmitiu uma impressão diferente.
Durante o evento, apenas uma candidata teve espaço para discursar, logo no início da programação, quando o público ainda era reduzido. Já na parte final, a única mulher a falar foi a presidente estadual do partido, Cida Ramos. A escassez de vozes femininas no palco foi percebida por militantes e lideranças presentes, gerando comentários entre representantes dos movimentos de mulheres.
O contraste chama atenção porque o próprio PT construiu sua identidade política defendendo a ampliação da participação feminina nos espaços de poder. Na Paraíba, o partido vive um momento histórico ao ser presidido, pela primeira vez, por uma mulher. Ainda assim, justamente no principal evento eleitoral da legenda no estado, a presença feminina na programação foi bastante limitada, abrindo espaço para questionamentos inevitáveis.
A discussão, porém, vai além da convenção.
Outro fato que passou a circular entre filiados e dirigentes é a dificuldade do PT da Paraíba em preencher integralmente a cota mínima de candidaturas femininas para a Assembleia Legislativa, situação que resultou na redução da chapa proporcional. A legislação eleitoral exige um percentual mínimo de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais, e o seu descumprimento pode acarretar consequências para o registro da chapa.
A pergunta que começa a ecoar nos grupos internos do partido é simples:
E por que o PT da Paraíba não conseguiu atrair mulheres suficientes para completar sua chapa?
A resposta não parece ser apenas burocrática.
Ela pode envolver dificuldades de organização partidária, falta de renovação dos quadros, baixa disposição de lideranças femininas para disputar eleições ou problemas estruturais de incentivo à participação das mulheres. Seja qual for a explicação, o fato político existe e passou a ser debatido internamente.
Na política, símbolos têm peso semelhante ao dos discursos.
Lula compreendeu isso ao transformar a defesa das mulheres em uma das mensagens centrais da convenção nacional. Mas o simbolismo perde parte de sua força quando, na esfera estadual do próprio partido, a participação feminina não encontra a mesma visibilidade.
Não se trata apenas de cumprir cotas previstas em lei ou reservar alguns minutos de fala durante uma convenção. Trata-se de coerência entre discurso e prática.
Se o voto feminino pode ser determinante na eleição presidencial, como indicam diversas pesquisas, os partidos de esquerda, entre eles o PT, precisarão demonstrar na prática, que as mulheres ocupam espaços reais de protagonismo, tanto nas candidaturas quanto nas instâncias de decisão e não apenas nas peças de campanha.
No caso da Paraíba, a convenção estadual deixou uma pergunta que dificilmente será respondida apenas com discursos: se o PT pretende dialogar com o eleitorado feminino durante a campanha, por que as mulheres tiveram tão pouca visibilidade justamente no palco que deveria simbolizar a força e a diversidade do partido?
Essa é uma questão política legítima, cuja resposta caberá ao próprio PT apresentar ao longo do processo eleitoral.
