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| Foto: PBAgora |
O debate entre Lucas Ribeiro, Cícero Lucena e Efraim Filho mostrou uma coisa que pode ser decisiva nesta eleição: Lucas tem muito governo para mostrar, mas boa parte desse governo foi construída quando a caneta estava na mão de João Azevêdo.
E esse é o paradoxo da candidatura.
Lucas não está começando do zero. Pelo contrário. Ele chega à eleição como sucessor de uma administração que tem obras, investimentos, programas e entregas para apresentar em praticamente todas as regiões da Paraíba. Foi vice-governador durante boa parte desse período e assumiu o Governo do Estado em abril deste ano, depois da saída de João para disputar o Senado.
Portanto, Lucas tem todo o direito político de defender esse legado.
Mas existe uma diferença entre ter participado do governo e ser o autor das decisões que produziram suas principais entregas.
E é justamente aí que seus adversários vão apertar.
Quando Lucas apresentar uma obra, Cícero e Efraim poderão perguntar: quem decidiu? Quem assinou? Quem estava no Palácio quando aquilo foi planejado, contratado e executado?
A resposta, na maioria das vezes, será João Azevêdo.
Isso não diminui a participação de Lucas como vice-governador nem sua ligação com o projeto. Mas muda a maneira como o eleitor pode enxergar a disputa.
Lucas não pode simplesmente dizer que fez.
João Azevêdo, além do gigantesco legado que herdou de Ricardo Coutinho, também construiu uma marca administrativa própria. Foi ele quem comandou o Executivo durante a maior parte do período em que essas políticas foram planejadas e executadas. Mesmo assim, o próprio governo chegou a apresentar a sucessão como uma continuidade, com João afirmando que mudaria o governador, mas o governo seria o mesmo.
Mas esse patrimônio tem a assinatura de João, que por sua vez herdou o legado do ex-governador Ricardo Coutinho.
E esse talvez seja o ponto mais delicado da campanha. Lucas precisa convencer o eleitor de que pode continuar aquilo que João continuou sem parecer simplesmente um candidato que está vivendo do trabalho do antecessor. Precisa mostrar que conhece o governo por dentro, participou dele, ajudou a construí-lo e agora tem condições de colocar sua própria marca na próxima etapa.
E aí entra o outro problema: o sobrenome Ribeiro.
Para uma parcela do eleitorado paraibano, especialmente no campo da esquerda, o nome carrega uma memória política que pode provocar resistência. Lucas não disputa apenas contra Cícero e Efraim. Disputa também contra a imagem que parte do eleitorado já formou sobre o grupo político ao qual pertence.
Aguinaldo Ribeiro é seu tio e uma das principais lideranças políticas da família. As articulações do grupo também já são pensadas para além de 2026, alimentando especulações sobre uma possível composição familiar para a eleição de 2030.
Lucas tem a árdua tarefa de convencer o eleitor de que não é apenas um Ribeiro pedindo voto e precisa convencer que não é apenas o herdeiro de João Azevêdo pedindo continuidade.
Só que há uma ironia nisso tudo: justamente aquilo que ele tem de mais concreto para mostrar — as obras, os investimentos e as realizações do governo — também é aquilo que mais o remete a João.
É como se Lucas chegasse à eleição com uma excelente vitrine, mas precisasse explicar quem colocou os produtos nela.
E isso não é pouca coisa.
Cícero tem sua própria história política e pode dizer que faria diferente, porque a Paraíba já conhece sua trajetória. Efraim pode se apresentar como alternativa e defender uma mudança de rumo mais à direita. O que também pode ser um fator de rejeição para parte do eleitorado.
Mesmo que Lucas diga o que foi feito, a pergunta que virá é inevitável:
“Feito por quem?”
E a resposta não pode ser apagada pela campanha. Foi feito por um governo do qual Lucas participou, mas que teve João Azevêdo como governador durante a maior parte desse período.
É justamente por isso que a eleição será interessante.
Lucas terá de defender um legado que não é exclusivamente dele e, ao mesmo tempo, convencer o eleitor de que merece receber crédito suficiente para comandar a próxima etapa.
No fim, talvez essa seja a verdadeira disputa da candidatura, Lucas precisa transformar a herança administrativa de João Azevêdo em um projeto próprio. Se conseguir, terá uma base concreta para pedir continuidade.
Se não conseguir, corre o risco de ficar no meio do caminho: para uns, será apenas “mais um Ribeiro”; para outros, apenas o candidato que está tentando colher os frutos de um governo cuja principal assinatura é a de João Azevêdo.
E essa talvez seja a pergunta que acompanhará Lucas durante toda a campanha:
O eleitor estará votando no que João Azevêdo fez ou no que Lucas Ribeiro será capaz de fazer?
Além disso, existe outro desafio: parte importante do eleitorado de esquerda tende a apresentar resistência ao nome de Lucas Ribeiro, justamente pelo peso político do sobrenome que carrega. Para reduzir essa distância, sua chapa precisará dialogar de maneira convincente com esse segmento e apresentar uma composição que represente também esse campo político.
Eli Mariotti
