Haddad venceu o debate. E isso pode ser mais importante do que parece

ISAAC FONTANA/CJPRESS
Se debate se ganha colocando o adversário na defensiva, Haddad venceu o primeiro confronto com Tarcísio.

Não porque o governador tenha ido totalmente mal. Pelo contrário. Tarcísio tentou mostrar um suposto domínio dos números e defendeu seu governo. Mas esse talvez tenha sido justamente o problema: Haddad conseguiu fazê-lo passar boa parte do debate explicando o que fez.

E quem está no governo sabe que debate eleitoral também é prestação de contas.

Haddad foi para cima. Levou segurança, educação, privatizações, Sabesp e resultados da gestão paulista para o centro da conversa. Tarcísio tentou responder a altura. Mas em vários momentos, precisou justificar decisões e defender o próprio desempenho, inclusive citando números improváveis.

Para quem está atrás nas pesquisas, isso já é uma vitória importante.

Haddad também acertou ao explorar o estilo excessivamente técnico do governador. A provocação do “concurseiro” pode parecer apenas uma ironia, mas tinha um alvo claro: transformar a conhecida capacidade de Tarcísio de despejar números em uma pergunta mais simples — tá bom, mas e o resultado disso na vida do paulista?

Tarcísio, por sua vez, tentou levar a discussão para Lula, Bolsonaro e a política nacional. Chegou a dizer a Haddad que ele “não está mais competindo com Bolsonaro”. A frase, curiosamente, também revela o desconforto do governador com uma eleição que Haddad tenta transformar em julgamento de sua própria administração. Aliás Bolsonaro praticamente não fez parte do debate. Um claro sintoma de que Tarcísio, pelo menos para o front da opinião pública tem a intenção de não ser associado totalmente ao clã. Fazer isso com equilíbrio é onde está o problema, já que o governador também depende destes votos para se reeleger.

Para concluir, o ponto central foi a condução do debate dominada por Haddad, que tentou mostrar ao telespectador que é preciso avaliar o rtesultado das políticas do atual governador ao dia a dia do cidadão comum do maior colégio eleitorl do país

Haddad não precisava provar que Tarcísio é um mau governador. Precisava apenas começar a fazer o eleitor duvidar de que ele seja tão bom quanto a propaganda sugere.

Foi isso que o debate começou a fazer.

O governador continua na frente nas pesquisas. Mas debate não é pesquisa. Uma pesquisa mostra quem o eleitor pretende votar; um debate pode começar a mudar a imagem que esse eleitor tem dos candidatos.

Antes do confronto, a narrativa era: Tarcísio está na frente e Haddad tenta alcançá-lo.

Depois dele, surgiu outra possibilidade:

Tarcísio continua na frente, mas Haddad mostrou que pode enfrentá-lo.

Parece pouco.

Não é.

Para quem está atrás, transformar uma eleição aparentemente decidida em uma eleição disputável pode ser o primeiro grande passo.

Haddad não precisava sair do debate como líder. Precisava sair como alguém capaz de derrotar o líder.

E, nesse primeiro round, conseguiu.

Eli Mariotti