SÉRGIO DE CASTRO PINTO: QUANDO UM TAMANDUÁ ENSINA FILOSOFIA

 


Quando cheguei a João Pessoa, no dia em que minha filha Maria Isabel nasceu, eu já não escrevia mais contos nem poesias. Até meu saxofone, companheiro desde os meus 9 anos de idade, estava esquecido num canto.

Paulinho da Viola canta que violão esquecido num canto é tristeza. Eu não poderia estar triste. Havia acabado de chegar a Jampa, empolgadíssimo. Estava mais envolvido com a comunicação política e com a agência de propaganda. Passei um bom tempo longe do jornalismo, sem escrever e sem ser músico.

Mas, quando conheci Sérgio de Castro Pinto, o desejo de escrever retornou, talvez num ímpeto criativo que eu mesmo não esperava.

Um dos poemas que mais me marcou foi o de título Tamanduá. Genial, sob a minha perspectiva. Do lugar mental que eu ocupava naquele momento em que o li. 

E é justamente sobre isso que fala o poema.

Que bela síntese. Sérgio de Castro Pinto consegue fazer parecer que a graça nasce naturalmente da lógica do verso, e só no final percebemos que havia uma ironia escondida. O poema começa quase como um aforismo filosófico:

 

"tudo é uma questão
de peso e medida:"

 

e desemboca numa verdade absolutamente particular do tamanduá. Esse deslocamento é o encanto.

Há muito tempo venho radiografando os lugares a que a psique humana pode ir quando vê, fala ou lê determinado tema, assunto ou debate. Uma mesma coisa pode ser vista de muitas formas, dependendo do lugar de onde é observada. Para mim, é aí que está a genialidade do poema.

Do lugar em que estou, por exemplo, analiso que a primeira leitura é zoológica: o tamanduá é feliz porque come formigas. Mas o poema está dizendo algo maior. A primeira frase cria uma expectativa filosófica.

Quando chega ao final:

"o tamanduá é feliz
com a boca cheia de formiga."


percebo que "feliz" depende da medida de quem observa. Para mim, estar com a boca cheia de formigas seria um pesadelo; para o tamanduá, é a própria felicidade.

Ou seja, o poema revela que o valor das coisas não está nelas mesmas, mas na relação entre elas e quem as experimenta.

É uma pequena lição sobre a relatividade do ponto de vista, expressa com uma ironia bem-humorada. Isso me lembra um pensamento de Fernando Pessoa: não vemos o mundo como ele é; vemos o mundo conforme somos.

E, pedindo licença ao poeta-mestre, quero imitá-lo descaradamente, respeitando as proporções das minhas falhas e limitações, homenageando-o como forma de gratidão por despertar em mim os melhores sentimentos de humanidade e ao mesmo tempo, ao me resgatar, mesmo sem saber e por meio de suas belas e engraçadas poesias, de volta ao mundo da literatura.

Com todo o respeito e admiração, envio aqui minha homenagem pessoal ao Mestre, tentando expressar, com muito esforço, o quanto a poesia de Sérgio me influenciou e me resgatou.
 

Caramujo

sempre devagar.
nunca teve pressa
de chegar:
sabia
que já estava em casa.


Eli Mariotti